quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Reflexões sobre o amor



Por Thomas Merton

O homem é dividido contra si mesmo e contra Deus, pelo seu próprio egoísmo que o divide do seu irmão. Essa divisão não pode, não pode remediá-la um amor que se coloca só de um lado da brecha. O amor deve estender-se de dois lados para reuní-los. Não podemos amar-nos se não amarmos aos outros, e não podemos amar os outros se não nos amarmos. Mas um amor egoísta de nós mesmos torna-nos incapazes de amar os outros. A dificuldade desse mandamento reside no paradoxo de impor a cada um o dever de amar-se sem egoísmo, porque até o amor de nós mesmos é algo que devemos aos outros.

Tal verdade jamais ficará clara enquanto presumirmos que cada um de nós individualmente , é o centro do universo. Não existimos só para nós e é somente quando estamos plenamente convencidos desse fato que começamos a amar-nos de maneira devida e também aos outros. Que quero dizer ao falar em amar-nos como deve ser? Designo, em primeiro lugar, o desejo de viver a aceitação da vida como uma dádiva muito grande  e um grande bem não pelo que ela nos dá, mas pelo que ela nos habilita a dar aos outros. O mundo moderno começa a descobrir, cada vez mais, que a qualidade e vitalidade de uma vida humana dependem dessa sua secreta vontade de ir para frente, vivendo. Dentro de nós existe uma sombria força de destruição que alguém chamou de instinto de morte. É uma coisa terrivelmente poderosa essa força gerada pelo nosso amor-próprio frustrado, a bater-se consigo mesmo. Ela é o poder de um amor-próprio convertido em ódio-próprio, e que, adorando-se a si mesma, adora o monstro que a consome.

É, pois, de suprema importância consentirmos em viver não para nós, mas para os outros. Quando praticamos isso, o primeiro efeito é sermos capazes de encarar e aceitar nossas próprias limitações. Enquanto nos adoramos em segredo, nossas deficiências pessoais continuarão a atormentar-nos com a sua nódoa bem aparente. Mas, se vivermos para os outros, descobriremos, pouco a pouco, que ninguém espera de nós que sejamos "como deuses". Veremos que somos humanos como qualquer um, e que todos temos fraquezas e deficiências que desempenham papel importantíssimo em nossa vida. É por causa delas que precisamos do nosso próximo, e o próximo de nós. Não somos todos fracos nos mesmos pontos, e assim cada um supre e commpleta o outro, compensando a carência do próximo.


(in Homem algum é uma ilha, Verus Editora, p. 16-17)

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