segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

TEOLOGIA: CONCEITOS E TIPOS

Teologia


Alguns conceitos acerca de Teologia: como em todas as matérias referente às ciências humanas (a teologia se aproxima muito mais de uma ciência humana do que uma ciência exata, ou biológica), não há um conceito único que defina o termo “teologia”. Etmologicamente vemos que o termo significa “discurso acerca de Deus”; entretanto, um conceito mais elaborado dependerá da tradição a que cada teólogo estará inserido. Veremos alguns conceitos, retirados da obra "Para que serve a teologia, do teólogo latino americano Alberto Fernando Roldán, Editora Descoberta, p. 23 e seguintes:

“A apresentação dos fatos da Escritura, em sua ordem e relação próprias” (Charles Hodge).

As Escrituras Sagradas contém diversos assuntos, como por exemplo, a criação do ser humano, a eleição do povo de Israel dentre diversos povos, lei, ética, a salvação, Jesus, o Espírito Santo, etc. Entretanto, tais assuntos não estão organizados de forma sistemática nas Escrituras. De acordo com a definição de Charles Hodge caberá ao teólogo colocar tais fatos em uma ordem própria. Alguns destes fatos contidos nas Escrituras e organizados de forma sistemática são: doutrina acerca de Deus (teologia própria), do homem (antropologia), do pecado (hamartiologia), da salvação (soteriologia), de Cristo (cristologia), do Espírito (pneumatologia), da Igreja (eclesiologia), dos anjos (angelologia), das últimas coisas (escatologia), etc.

Leia também:
Teologia: etmologia, origem histórica e teologia natural.
Funções da teologia.
Fontes da teologia.

Entretanto, quando estudar os tipos de teologia cristã, veremos algumas críticas que alguns fizeram a esta forma de organizar o pensamento teológico.

Um outro conceito de teologia nos é dado por Karl Barth:

“Dogmática é a ciência na qual a igreja, segundo o estado atual do seu conhecimento, expõe o conteúdo da sua mensagem, criticamente, isto é, avaliando-o por meio das Sagradas Escrituras e guiando-se por seus escritos confessionais”

Teologia também pode ser chamada de dogmática. Dogma são pontos fundamentais de um determinado sistema de pensamento. Esta definição é mais ampla que a anterior, pois admite duas fontes principais que devem ser levadas em consideração no labor teológico da igreja, quais sejam, as Sagradas Escrituras e a Tradição, expressa nos escritos confessionais da igreja (ex: credo dos apóstolos, credo niceno-constantinapolitano, etc). Tais escritos servem de farol para a interpretação da Bíblia. Toda a teologia deve ser avaliada à luz destes elementos. Uma igreja de cunho mais conservador, por exemplo, não irá permitir que uma teologia contrarie estes dois elementos (escritura e tradição), ou seja, não permitirá que um pensamento contrarie nem as Escrituras, nem a interpretação tradicional que já tenha feito delas. Por exemplo, toda a Igreja cristã admite que as pessoas, para dela fazerem parte, devem ser batizadas. Isso é um dado das Escrituras. Entretanto, as igrejas diferem de quando e da forma como este batismo deve ser administrado. Isso é tradição. Há igrejas que só batizam adultos, outras, que batizam também crianças antes da fase do entendimento.

Alguns batizam por imersão, outros por aspersão, e assim sucessivamente, no que tange ao modo como se administra a Santa Ceia, o governo eclesiástico, etc.

Um outro conceito nos é dado por Paul Tillich:

“A interpretação metódica dos conteúdos da fé cristã” (Paul Tillich)

Não é possível extrair o modo de fazer teologia de Paul Tillich com base nesta pequena definição. Entretanto, de modo geral, em sua grande obra “Teologia Sistemática” Tillich defende que a teologia deve ser feita conforme determinados métodos, que para ele, era o método da “correlação” que, de modo suscinto, significa que a sociedade (cultura) faria determinadas questões (perguntas) por intermédio da filosofia que a teologia deveria tentar responder. Neste sentido, para ele, a teologia é primordialmente apologética (uma defesa da fé). Na verdade, historicamente, a teologia de fato surge da necessidade de defender a fé cristã dos ataques, tanto intelectuais quanto físicos que a igreja cristã começou a sofrer do mundo judaico e gentílico.

Nestas definições, podemos ver que Hodge se restringe basicamente às Sagradas Escrituras, Barth, além das Escrituras, a Tradição, e Tillich dá grande valor à cultura.

A teologia foi sendo edificada no decorrer dos séculos pela igreja cristã, e está em constante construção, pois o contexto em que a igreja está inserida também está em constante transformação. Entretanto, algumas coisas importantes, entre outras, devem estar no horizonte de uma teologia autenticamente cristã: esta deve primeiramente estar a serviço de Deus. A teologia tem em Deus a sua inspiração e razão de ser, no caso da cristã, uma teologia de inspiração bíblica e Trinitária. Em segundo lugar, a teologia deve estar a serviço do evangelho, do anúncio da salvação entre todos os povos, da boa nova de Deus à humanidade. Em terceiro lugar, a teologia deve estar a serviço da igreja, entendida esta como o povo de Deus, o corpo de Cristo, a reunião daqueles que foram chamados das trevas para a maravilhosa luz do evangelho, pois ela, a “Eclésia” é maior do que qualquer denominação em particular. Deve edificar o povo para que, através de suas boas obras sejam luz do mundo e sal da terra. Há momentos na história que a igreja parece ter rejeitado a teologia, seja por esta ter se tornado muito abstrata, ou pelo fato da própria igreja não suportar a crítica que lhe era feita pelos teólogos. Em outros momentos, os teólogos, extremamente absortos na especulação teológica, afastaram-se da vida eclesial. Não convém que seja assim, pois a teologia é o método, a forma com o qual a igreja constrói seu pensamento no decorrer da história. Quando os teólogos perdem este foco, correm o risco de se entregar às vãs especulações.

Tipos de Teologia: Há diversos tipos de teologia, conforme o foco dos estudos. Vamos ver algumas destas formas:

Teologia Sistemática: tem a ver com a primeira definição sobre teologia que estudamos (Charles Hodge). As Escrituras não estão organizadas de forma sistemática por assunto. E é isso que a teologia sistemática faz. Há diversos assuntos nas Escrituras, conforme já vimos. A teologia sistemática tão somente organiza tais assuntos de forma sistemática. Por exemplo, revelação geral (ou teologia natural), teologia própria (estudo acerca da pessoa de Deus), antropologia (doutrina do homem), hamartiologia (pecado), soteriologia (salvação), cristologia (Cristo), pneumatologia (Espírito Santo), angelologia (anjos), escatologia (últimas coisas), e assim sucessivamente.

Mas alguns pensadores criticam esta forma de se fazer teologia, sob o argumento de que é difícil definir “qual seria a ordem e relação própria” (conforme já expomos) de tais fatos narrados nas Escrituras. Como definir a ordem correta? E a relação própria entre os fatos? Tentar “encaixar” todas as Escrituras em um determinado sistema pode acabar, em alguns momentos, violando algumas passagens da Bíblia. Por exemplo, o sistema calvinista, com ênfase na soberania de Deus, não pode acabar por “violar” as passagens que dizem respeito á universalidade da graça? O sistema arminiano, com ênfase na liberdade humana em rejeitar a graça, não pode correr o risco de “violar” passagens que digam respeito à soberania divina? Alguns teólogos começam a teologia da maneira clássica, pelo estudo da revelação geral. Outros começam pelo estudo da Trindade, etc. O sistema talvez dependa muito das escolhas e do pensamento do teólogo sistemático.

Por outro lado, o ser humano consegue organizar alguma forma de pensamento que não seja sistemática?Ainda que haja tais críticas, fato é que, é possível sim elaborar uma visão lógica dos conteúdos da Bíblia. A grande vantagem, por exemplo, para um pregador, é que evitará contradições em seu pensamento e exposição das Sagradas Escrituras

Não há nada de errado em se pensar o conteúdo das Escrituras de forma sistemática e organizada. O que temos, porém, que ter sempre em vista é que uma teologia sistemática, por mais elaborada que seja, nunca será perfeita. E por melhor que seja uma teologia sistemática, ela nunca esgotará todo o pensamento acerca de Deus, pois Ele é maior do que qualquer teologia. Além do que, é a Escritura que consideramos inspirada, e não a teologia sistemática, por melhor que seja. É preciso considerar sempre as limitações de toda teologia. Há sempre o risco de violarmos as Escrituras com o nosso sistema, ou, pelo menos de deixar de fora de nosso sistema passagens bíblicas que nele não se encaixem. É um risco que toda teologia sistemática corre.

Teologia Bíblica: nesta forma de fazer teologia respeita-se muito o texto bíblico. Há um esforço muito grande em se entender, por exemplo, o contexto em que cada documento bíblico foi escrito. Como pensava o autor do texto? Como pensavam os que eram os primeiros destinatários das epístolas? Qual é o contexto cultural e histórico em que o texto foi escrito e recepcionado? Há um cuidado enorme em se conhecer as palavras originais.

E o interessante é que neste modo de fazer teologia, é possível vislumbrar que, talvez, nas Escrituras, não tenhamos somente uma teologia, mas “teologias”. Uma teologia joanina, uma teologia paulina, uma teologia lucana, mosaica, uma teologia do novo testamento, do velho testamento, todas com um foco um pouco diferente, apesar de lidarem com um mesmo fenômeno, qual seja, o advento de Jesus de Nazaré (pelo menos para nós, uma teologia dita cristã). A crítica, talvez, que este tipo de labor teológico pode representar é o fato de que alguns teólogos talvez não estejam tão interessados em harmonizar suas conclusões teológicas a um sistema, entretanto, tão somente ressaltar aparentes contradições entre documentos bíblicos.

Teologia Histórica: também é uma forma fascinante de se estudar teologia. Estudamos o desenvolvimento histórico de cada doutrina que a igreja e os cristãos têm pensado durante os séculos. Isto porque, a teologia não cai pronta do céu. Ela tem um desenvolvimento histórico, um motivo e um determinado contexto. Por exemplo, como a Igreja Cristã começou a defender a idéia da divindade de Cristo, e do Espírito Santo? Como se desenvolveu a doutrina da Santíssima Trindade? Porque alguns defenderam que a Igreja deve ser separada do Estado? Qual a origem e os motivos da doutrina da predestinação dos eleitos?

Será que algumas vezes não ficamos com teologias um pouco caducas por terem sido feitas em contextos diferentes? Uma teologia que muito abordada, por exemplo, no final da Idade Média e Moderna, foi a Teologia do Direito Divino dos Reis, feita por teólogos que defendiam a monarquia contra a democracia. Atualmente, é uma teologia que praticamente só tem valor histórico e para algumas pessoas mais radicais, que desejam o retorno da Monarquia.

Fato é que, o labor teológico pode apresentar diferentes ênfases e métodos. Ultimamente, surgiram novas teologias conforme a necessidade histórica e cultural pelo qual passam os cristãos. Podemos falar em uma teologia ética, teologia da espiritualidade, teologia urbana, teologia da libertação, teologia da missão integral, teologia negra, teologia feminista, e até uma teologia homossexual. Cada qual com sua ênfase própria. No que diz respeito às formas teológicas que apresentamos (Sistemática, Bíblia e Histórica) é importante que o estudante de teologia tenha pelo menos uma boa noção de cada qual.

5 comentários:

  1. É muito interessante quando vemos voce falar das novas Teologias. Vc não acha que isso pode contribuir para uma distorção do foco: "Deus".
    Gostaria de fazer uma pergunta: qual a relação entre Sociologia e Teologia

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  2. Meu e-mail para a resposta é: mirocostaneto@hotmail.com

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  3. Oi, Argemiro. Obrigado por participar aqui do meu blog. De fato, sempre corremos o risco de "perder Deus de vista" em nossas reflexões. Por isso, a teologia não pode estar desassociada de uma vida de piedade. Conforme já disse alguém há muito tempo, "teólogo é aquele que ora". Sobre sua questão, te respondo por email.

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  4. Carlos, boa tarde!
    Ainda estou esperando sua resposta, sei que são muitas as perguntas e questionamentos, mas, preciso saber sua resposta pois a minha já tenho.
    A pergunta foi: Qual a relação entre Sociologia e Teologia.
    Abraços, fico no aguardo.
    Paz seja convosco

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    1. Oi, Argemiro. Boa noite! Desculpe a demora em responder. Salvo melhor juízo, eu cheguei a te mandar um email. Mas vai um pouco aqui do que penso a respeito. Eu acredito que um teólogo pode utilizar os pressupostos da sociologia/antropologia para estudar melhor os textos sagrados. E o sociólogo pode pesquisar a teologia de determinado momento histórico para pesquisar determinado povo, como por exemplo, fez Weber em sua obra "A ética protestante e o espírito do capitalismo". Neste sentido, então, a sociologia busca, a grosso modo, a sociedade, e a teologia pode indicar o "espírito" que motiva tal sociedade. Entretanto, o objeto de estudo de cada ciência é diferente, conforme sabemos. Mas em toda construção teológica, existe a sociedade, e em toda a sociedade, existe um "espírito" que a move, que é, no meu sentir, o seu fundamento teológico. Mesmo doutrinas seculares tem sua teologia, por assim dizer.
      Você poderia compartilhar a sua resposta por aqui, para que eu possa aprender um pouco mais. O que respondi aqui, confesso, não é objeto de estudo nem de pesquisa, mas somente de uma breve reflexão pessoal.
      Grande abraço, e, novamente, obrigado por participar aqui deste blog.

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