quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Demônico

...respondíamos diante desta situação a partir de certos conceitos básicos. O primeiro era o conceito de demônico. Nossa interpretação tratava das estruturas demônicas do mal nos indivíduos e grupos sociais. Quando empregamos pela primeira vez o conceito de demônico, por volta dos anos vinte, ninguém o conhecia a não ser em livros de história relacionados com superstições e crenças nos demônios. Empregamos o termo demônico para descrever as estruturas destruidoras em contraposição com os elementos criativos. Esse conceito se baseava na descrição pisciológica dos poderes compulsivos dos indivíduos, e na descrição sociológica segundo a análise marxista da sociedade burguesa... (Paul Tillich, in Perspectivas da Teologia Protestante nos Séculos XIX e XX).


Muito se discute nos seminários, e no dia a dia, sobre a existência ou não de seres demoníacos, de seres caídos.

Alguns até acham que, caso se chegue a conclusão na inexistência de tais seres diabólicos, acabou de vez a função prática da igreja.

Particularmente, eu não teria uma opinião tão pessimista assim. Eu, como um integrante de um certo protestantismo mais tradicional, obviamente acabo por aceitar a existência de tais seres; mas, ainda que não existissem, longe estaria de pensar que a função da igreja teria terminado caso se chegasse a tal conclusão.

Mesmo se entendêssemos que demônios, ou demônicos nada mais são do que compulsões psicológicas dos indivíduos, que, de repente, o tomam, tornando-se mais forte do que eles próprios, forçando-os a fazer justamente aquilo que racionalmente sabem que não deveriam, ainda assim, não terminou a função terapêutica da igreja.

Isto porque, o demônico nos indivíduos parece se manifestar justamente assim. Alguma compulsão o toma, fazendo com que de repente, "atropele" a tudo e a todos para realizar o seu próprio desejo. Se torna mentiroso, "foge da luz", manipula tudo para que ocorra segundo o seu querer e não se importa se a base criativa e existencial dos que estão a seu redor seja destruída. O diabo somente veio para roubar, matar e destruir. E quando se passa por uma experiência destas, tudo o que parece sobrar é um imenso e seco deserto, de onde se fugiu toda a esperança.

Acho que foi Evágrio Pôntico que tratou pela primeira, e talvez única, na antiguidade cristã, esta questão do demônio como categorias de pensamento, os famosos "logismoi", que precisavam ser combatidos e vencidos. Estes "logismoi" eram manifestações da paixão ("pathea") humana, sendo o alvo do cristão atingir o estado de "aphatea", qual seja, ausência de paixão, entendido paixão aqui em seu sentido clínico, de "pathos", que irá gerar o termo "patologia". A alma em estado de "aphateia" seria na verdade a ausência de patologia. Neste sentido somos muito devedores de uma teologia ortodoxa oriental, muito mais terapêutica e preocupada com a alma humana, do que a teologia romana e protestante, muito mais legalista, preocupada com o cumprimento da lei.

A paixão, ou "patheia", neste sentido, toma a vida de que por ela é possuído, tornando um "outro", um verdadeiro demônio. São compulsões em que o indivíduo não consegue se controlar ("gastrimargia", "filarguia", "pornea", "orge", ou seja, gula, avarez, obsessão sexual, entre outras coisas), fazendo com que sua compulsão tome conta de sua realidade, sendo esta, inclusive, abandonada por muitas vezes, em troca do ideal, qual seja, da tentação, que, quando atingida, não realiza nada daquilo que parecia cumprir. Evágrio chegou a dizer que o "diabolos" é aquele que divide o ser humano interiormente. É realmente muito triste quando alguém se deixou dominar por tais sentimentos, ou seja, está sob o "demônico", pois tende a entristecer por demais os que estão ao seu redor, além de semear coisas muito ruins para sua própria vida.

Em nível social, então, o "demônico" se torna extremamente destrutivo, um horror, uma terra realmente arrasada. Isto porque, o demônico, de fora para dentro, ou seja, de forma heterônoma, busca impor seu ser sobre todos os demais, não se importando o quanto isto destrua a estrutura dos próprios agentes sociais. Ele se impõe, e pronto. Os que não aceitarem, devem ser mortos, destruídos, afastados. O demônico não conquista pela graça, pela doçura do amor; mas pelo engodo, que quando descoberto, se impõe pelo foice e pelas espadas. A própria "ortodoxia", seja ela qual for, quando assim se impõe, destruindo a base criativa do ser, se coloca ao lado dos que crucificaram Cristo, que, para o período de então, seus algozes consideravam-se ortodoxos, e Jesus, herege! Daí, a ortodoxia da cada qual defende deve sempre ser acompanhada da ortopraxia, qual seja, a fé que opera pelo amor, caso não queiramos ser instrumento do demônico. Este estoura bombas, destrói vidas, impõe regras absurdas, sem se importar com a realidade existencial de suas vítimas. Provoca muita dor e tristeza. É um arraso social.

Por isso, meus amigos, ainda que se entenda o demônio somente em termos psicológicos, ainda assim há muito trabalho para a igreja, para os cristãos. Basta ver quanta coisa ruim o "demônico" fez e continua fazendo no mundo. Pelo serviço, e pelo amor, devemos exortar aos que nos ouvem a se salvarem desta geração perversa, mudando de atitude, para se colocarem ao lado dos que promovem a vida. A construção, e não a destruição do ser, a caridade e não o ódio. E se não conseguirmos converter o nosso ser a este ponto, talvez devamos fazer como alguns dos antigos padres que, se afastavam por um tempo, pois chegavam a conclusão de que o próprio mundo deveria, pelo menos por um tempo, ser poupado de sua própria presença por não terem nada bom a oferecer no momento. É um grande desafio fazer com que terminem, em nós, estes impulsos de morte que tendem a nos destruir e destruir os que estão ao nosso redor, seja por atitudes ativas, seja pelo nosso próprio parasitismo.


(publicado originalmente em 13/03/2009)


Meditando um pouco no conceito de mal em Tillich



quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Até no riso tem dor o coração

“Até no riso tem dor o coração, e o fim da alegria é a tristeza” (Provérbios 14.13)

Há momentos muito felizes na vida da maioria de nós.

O carinho de uma mãe. O abraço de um amigo. O encontro com a pessoa amada. A sexualidade bem praticada. O nascimento de um filho. Atingir uma realização. Ganhar presentes. Receber atos de bondade.

Muitas coisas trazem sentido e alegria à nossa existência.

Entretanto, há também os momentos tristes.

A tristeza, a dor, o sofrimento... Tudo isso é como se estivesse subentendido em tudo o que temos e fazemos. É uma sombra que nos acompanha.

É como se o sorriso fosse somente um breve intervalo entre dor e dor. Uma simples distração.

O amigo vai embora um dia. Chega o dia do desemprego. Da escassez para muitos. Falta de saúde. É a meta que nunca é atingida. É o sonho que nunca se cumpre. E finalmente, a triste morte.

E por falar em morte, a imensa maioria dos seres humanos que parte deste mundo se vão em grande dor e agonia. Não importa se fizeram coisas boas, ou coisas ruins. Partem em grande sofrimento. É um processo geralmente muito doloroso. Bem-aventurados quando o sofrimento é rápido, não se estende tanto. Somente uns poucos é que, como os animais, vão dormir e não abrem mais os olhos neste mundo.

Como lidar com isso? Como viver diante de tal expectativa? Podemos fazer algo a respeito?

Sinceramente, não sei se podemos.

O que está ao nosso alcance, é procurar viver de forma sábia neste mundo, como insistentemente escreveu o autor do livro de Provérbios de Salomão, cujo principal tese é a de que “o temor do Senhor” é o princípio da sabedoria.

O mencionado livro, por exemplo, nos dá muitas lições de como procurar viver uma boa vida, aproveitar bem cada momento. É um livro que pode até chocar pelo pragmatismo e simplicidade, em uma clara demonstração de que a fé não existe para que joguemos o bom senso, a prudência, o planejamento pela janela.

A fé, quando bem vivida, traz a nós também uma sensação de alegria interior, subjetiva, mesmo em meio às situações mais difíceis da existência. Isso porque, entendemos, somos templo do Espírito Santo, cujo fruto é a alegria, a paz.

Isso significa que estaremos livres da dor? Não. Basta olhar para a história, e ver o quanto sofreram os mártires da fé, os melhores dentre nós. Basta olhar para Jesus Cristo, nosso Senhor.
O importante é não nos deixar iludir, enganar. Esse mundo é um vale de lágrimas sim, jaz no maligno sim. Sabendo disso, somos incentivados a viver de modo sábio, procurando não ser motivo de sofrimento para outro, para nós mesmos (cuidando, inclusive, de nossos corpos), e nos precavendo para que, no que depender de nós, não permitirmos que outro nos faça sofrer inutilmente.

Sobre o sofrimento na vida

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Suicídio entre pastores


Temos visto na mídia a ocorrência de suicídio entre pastores.

O que será que tem levado pessoas que falam tanto em Deus cometerem tal ato?

Uma posição mais fundamentada carece de maiores estudos.

Na falta destes, seguem alguns palpites que talvez possam contribuir nessa investigação.

Não podemos duvidar de que a depressão é uma doença, uma enfermidade, que necessita de tratamento médico especializado.

Há determinados contextos evangélicos em que admitir enfermidade é uma fraqueza. Quanto mais, admitir que se está deprimido.

É preciso afastar todo o tipo de preconceito e se incentivar a procura de uma ajuda especializada.

Outra questão é o elevado nível de cobrança em alguns contextos.

Existem igrejas que cobram resultado de seus pastores, como templos cheios, grandes arrecadações, entre outras coisas.

Isso pode estar se convertendo em um terrível assédio moral.

Além disso, existe a própria cobrança que o ministro faz a si mesmo.

Caso tudo não vá como se esperava, ele começa a se sentir um verdadeiro fracasso.

Como não pode admitir fraqueza, logo, começa a partir para o isolamento.

Logo surgem os próprios conflitos familiares e conjugais.

Isso sem falar em dificuldades de ordem financeira, que os pode levar a uma verdadeira crise de fé.
Enfim.

Os pastores precisem redescobrir o evangelho da graça de Deus.

Saber que não são perfeitos, que Deus também os ama, independentemente de sua produtividade. Que precisam de constante perdão, como qualquer pecador, admitir fraqueza, ter amigos para desabafar, valorizar períodos de descanso e, quando necessário, procurar ajuda profissional.

Suicídio entre pastores e demais ministros do evangelho

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

As fontes da Teologia Sistemática no pensamento de Paul Tillich






O teólogo sistemático não pode reivindicar validez para a norma que ele usa, apontando para os pais da igreja, concílios, credos, etc. A possibilidade de que todos estes tenham incorrido em erro dever ser mantida pela teologia protestante com tanta radicalidade quanto Roma afirma o contrário em sua doutrina da infabilidade papal (Paul Tillich). 


Este artigo tem como interesse básico refletir sobre o que o autor supramencionado entende que deve servir como fonte do teólogo sistemático protestante em seu trabalho de expor os conteúdos da fé cristã. Em meio a tanto fundamentalismo e radicalismo existente hoje no meio protestante/evangélico, talvez seja interessante fazermos uma reflexão sobre o tema supracitado tomando como base o pensamento deste renomado teólogo alemão em sua grande obra Teologia Sistemática, que no Brasil foi publicada pela primeira vez pela Editora Sinodal em parceria com as Edições Paulinas.


Segundo Paul Tillich, a teologia “é a explanação metódica dos conteúdos da fé cristã
[1]”, e a teologia sistemática tem como principal tarefa “explicar os conteúdos da fé cristã[2]” cabendo, obviamente, tal trabalho ao teólogo, que, em sua busca, tem uma “preocupação última” que, em certo sentido, impulsiona o seu próprio trabalho. Para realizar tal tarefa, o teólogo terá que consultar diversas fontes, conforme será a seguir explanado.


Uma das fontes para o teólogo sistemático, no entendimento de Tillich, é a Bíblia Sagrada (Escrituras). Isto porque, segundo, a Bíblia é a “fonte básica da teologia sistemática
[3]”, porque é o “documento original sobre os eventos que a igreja cristã se fundamenta[4]”. Cumpre esclarecer que o autor, ab initio, já rejeita o postulado evangélico/fundamentalista de que a Bíblia é a única fonte para a teologia, e o faz tendo em vista diversos motivos, dentre os quais é o fato de que “a Palavra de Deus não está limitada às palavras de um livro[5]”.

Outra fonte apontada por Tillich que deve servir de base para o teólogo sistemático, é a história da igreja
[6]. Isto porque, nas palavras do renomado autor, “toda pessoa que encontra um texto bíblico é guiada em sua compreensão religiosa do mesmo pela compreensão das gerações anteriores[7]”. Entretanto, Tillich faz questão de observar que o teólogo não romano não pode aceitar a atitude de “sujeição da teologia sistemática às decisões dos concílios e dos papas[8]”; isto porque, a atitude romana se torna superficial quando “pressupõe dogmaticamente, com ou sem provas a posteriori, que aquelas doutrinas cuja validez está garantida pela lei canônica concordam essencialmente com a mensagem bíblica[9]”. Tillich observa este como o grande motivo pelo qual há grande esterilidade da produção teológica da igreja romana, em contraposição com sua criatividade litúrgica e ética.

Entretanto, Tillich não encerra por aqui o que entende por fonte da teologia sistemática, mas acrescenta ainda que as histórias da religião e da cultura de modo geral também deve compor a presente lista. Isto porque toda a religião está inserida em determinada cultura, e dela recebe influências. Sugere ainda que é possível uma análise da teologia que está por traz de todas as expressões culturais, que seria sua preocupação última.

Portanto, Tillich nos informa que a riqueza das fontes do teólogo sistemático é praticamente ilimitada, sendo as tais a Bíblia, a história da igreja, a história da religião e da cultura, indicando ainda que a maior ou menor importância de tais fontes está em ligação direta com “o evento central no qual a fé cristã está baseada, que é o aparecimento do Novo Ser em Jesus Cristo
[10]”.

Passemos, neste momento a uma reflexão acerca das fontes propostas por Tillich para o trabalho do teólogo sistemático.

Primeiramente, meditemos na Bíblia como primeira fonte. Quando Tillich chama a Bíblia de fonte original, não está a se referir que temos os documentos conforme foram escritos. Entretanto, as Escrituras, mesmo que tenha havido acréscimos posteriores, ainda assim revelam as primeiras experiências da comunidade cristã primitiva acerca do Querigma apostólico. Tillich parte da compreensão de que o centro do evangelho é o novo ser em Jesus como o Cristo, cuja mensagem está contida nas Escrituras. Cristo é a Palavra de Deus revelada, fonte de toda a revelação, donde as Escrituras dão seu testemunho. Neste aspecto, entendemos que Tillich se mantém de certa forma fiel ao posicionamento de Lutero que também via em Cristo o centro de todo o testemunho canônico, ainda que nem tudo nas Escrituras levasse a este fim (a famosa doutrina do cânon no cânon que não pode, a nosso ver, ser negado por nenhuma mente razoável). Entretanto, Tillich rejeita o biblicismo (assim como Lutero rejeitou) por questões óbvias; entre elas a de que mesmo as Escrituras são historicamente condicionadas por uma série de fatores que não podem escapar da analise atenta do teólogo sistemático. Tillich, mantendo coerência com o pensamento e postura protestante de não atribuir uma infabilidade “fechada” em todas as questões que envolvem a religião opina que “a abertura parcial do cânon é uma salvaguarda da espiritualidade da igreja cristã”.

O evangelicalismo radical moderno tem a obrigação de refletir seriamente nesta questão, visto que, em certo sentido, se desviou da tradição reformada. Ao se creditar, como o biblicismo fundamentalista o faz, uma infabilidade na lista canônica está a se creditar, pela via indireta, a infabilidade de quem escolheu tal lista, seja a de um concílio católico, seja a de um protestante, contrariando frontalmente os próprios postulados da Reforma, de modo que, no fundamentalismo protestante parece estar a gênese de sua própria negação. Portanto, as Escrituras são fonte, “sacramento”, apontam o caminho, mas não são o caminho em si. Servem de testemunho, e de “ponte” para a verdadeira revelação em Cristo Jesus, mas não são o Cristo em si.

Sobre a fonte “história da Igreja”, sem dúvida, Tillich mantém a coerência com o que expôs acerca da primeira fonte. Isto porque, conforme dissemos, a lista canônica também foi condicionada por fatores históricos (não é um corpo estranho que cai do céu, como o Corão ou o livro de Mórmon), além do impacto da revelação em Cristo Jesus, de modo que são estes fatores que servem de fonte para a sua própria elaboração. O teólogo protestante, não obstante considerar as Escrituras sua principal fonte, não se comporta diante destas como se fosse um ídolo. Muito pelo contrário, a teologia protestante se faz com coragem de inclusive questionar alguns aspectos destas mesmas Escrituras, e até atribuir a outros documentos valor inclusive maior do que alguns outros constantes da lista canônica. Por exemplo, não obstante o respeito que o teólogo deve demonstrar à II e III epístola de João, poderá entender que uma obra como a do Didaquê contém muito mais informação histórica, doutrinária e ética sobre a igreja primitiva do que os documentos citados. Certamente, muitos representantes da ortodoxia dirão que o documento mencionado não preenchia os requisitos de apostolicidade, catolicidade, entre outros para integrar o cânon; mas tampouco as mencionadas epístolas, além de outros documentos no Novo Testamento, hoje, a luz da crítica histórica, preenchem tais requisitos. Aliás, através de analise crítico-histórica de tais muitos textos se percebe as suas diversidades, e às vezes, até entendimentos e relatos inconciliáveis.

Também é através da história da Igreja (e quando se diz igreja, talvez Tillich tivesse sido mais feliz se utilizasse a expressão “história do cristianismo”) entender os aspectos históricos que levaram ao fim de uma igreja baseada nos dons e nos carismas e o surgimento de uma igreja totalmente hierárquica, e que os defensores deste sistema sempre formam justamente os homens que estavam no topo desta mesma hierarquia. Deve ainda buscar entender os movimentos considerados heréticos como o gnosticismo, o montanismo, entre outros, e verificar se realmente estes movimentos representam um “pacote” que deve ser inteiramente rejeitado, ou se há aspectos realmente justos em sua crítica (por exemplo, ao lermos Elaine Pagels, alguns podem chegar à conclusão de que a eclesiologia gnóstica poderia estar muito mais próxima de Paulo do que da chamada ortodoxia). Portanto, para o teólogo protestante “não há transito em julgado nas decisões da igreja” de modo que tudo serve de base para o seu trabalho.

Pensemos também agora na história das religiões e da cultura como fonte do teólogo sistemático, principalmente se tiver um viés mais ecumênico, tanto intra, como extra cristão. O teólogo talvez poderá se perguntar se as similitudes entre o cristianismo e outras religiões foram, na verdade, sincretismo helenístico ou uma declarada tentativa de absorção do maior número de elementos possíveis por um movimento que tendia ao universalismo. Além do que, o teólogo sistemático deverá perceber que mesmo os concílios, quando vão a minúcias de uma definição teológica, também estão condicionados a uma cultura e uma linguagem própria de seu tempo, não tendo sido o dogma também um “corpo estranho” que caiu no colo dos bispos, mas que teve suas características moldadas na base de muita discussão, filosofia e cosmologia da época, de modo que também apontem um caminho, mas não são o caminho em si, fazendo com que o teólogo sistemático possa repetir como o apóstolo que “hoje vê como que por um espelho”, ou seja, não tem ainda a capacidade de vislumbrar o quadro todo, mas enche-se de fé, esperança e amor no seu trabalho. Verificaremos que Jesus se manifestou em uma cultura que provavelmente não é a mesma que produziu o Novo Testamento como um todo, que não é a mesma que produziu os concílios, e que não é a mesma em que vivemos hoje, sendo que, talvez, a radical insistência nas fórmulas do passado possam acabar como que determinando a derrocada do próprio cristianismo, em todas as suas vertentes.

Portanto, concluímos que o teólogo protestante prima por uma radical liberdade, o que certamente sempre causará espanto dos mais tradicionalistas católicos e mesmo dos representantes de uma ortodoxia protestante, entretanto, nem por isso é um total subjetivista, visto que seu trabalho não esta fundamentado sobre algo que só a ele foi revelado, mas sim com toda a argumentação retirada das mencionadas fontes, bem como não será também um solitário, uma vez que tal trabalho se dá em comunidade (a comunidade hermenêutica) e diante de uma nuvem muito grande de testemunhas. Nunca será também um trabalho totalmente definitivo, pois sempre há algo de Deus que possamos aprender, e estão sempre sujeitos à verificação de quem quiser, mas apesar de tudo, é um trabalho extremamente pessoal e experimental, visto que toda a sua obra está também fundamentada no evento Cristo e sua experiência pessoal com tal evento, de modo que, sempre há uma carga de emoção, “sentimento de dependência” (Schleiermacher), e total devoção posto que se trata, como Tillich mencionou, da sua preocupação ultima.

[1] In Teologia Sistemática, p.33.[2] Op. Cit. P. 37[3] Ibdem, p.38.[4] Ibdem.[5] ibdem.[6] Ibdem, p.39[7] ibdem.[8] Ibdem.[9] Ibdem.[10] Ibdem, p. 42.

Publicado originalmente em 06 de março de 2009.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Introdução aos verdadeiros filósofos




Quero recomendar para vocês a leitura do livro "Introdução aos Verdadeiros Filósofos", do padre ortodoxo Jean-Yves Leloup, publicado pela Vozes.

Este livro nos traz um pouco da história e do pensamento de diversos padres antigos, como Orígenes, Dionísio, Clemente de Alexandria, Evágrio Pôntico, João Crisóstomo, João Cassiano, Gregório de Nissa, Máximo Confessor e Simeão, o Novo Teólogo.


Fiquei bastante espantado, por exemplo, a respeito da vida e das idéias de Simeão, o Novo Teólogo (949-1022), que recomendava que todo o cristão deveria buscar a certeza da experiência mística com Deus, não sendo tal coisa restrita somente ao clero. Nas palavras de Leloup, "o primado reconhecido à experiência mística leva Simeão a relativizar, às vezes, a importância da hierarquia: um bispo sem experiência mística é menos do que um leigo que recebeu o dom de lágrimas ou a iluminação do Espírito; os próprios sacramentos não têm sentido a não ser que sejam 'interiorizados' e se nos for dado viver o que significam" (p. 232).


Impressionante como nada é realmente novo debaixo dos céus, e como a experiência de Simeão, no meu entender, se aproxima de parte da teologia protestante, notadamente wesleyana, no sentido de que todo cristão deve realmente buscar esta experiência mística para estar capacitado para a vida cristã. Eu, particularmente (ainda que, ingênuo, segundo a opinião dos mais radicais) entendo que é pela via mística que os cristãos das mais diferentes denominações podem encontrar um espaço maior para o diálogo.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Graça preciosa X Graça barata no pensamento de Dietrich Bonhoeffer


Dietrich Bonhoeffer

Para entendermos a obra de determinado autor, não podemos deixar de considerar um pouco do panorama histórico em que estava inserido. No caso de Dietrich Bonhoeffer, o contexto histórico é de uma Alemanha nazista, em um regime totalitário, e que foi considerado, talvez, o regime mais cruel da história da humanidade, levando-se em consideração que é relativamente recente. Interessante é que em boa parte de seus escritos teológicos, ele não faz referência direta à sua contestação ao nazismo; entretanto, este mesmo autor teve cassada a sua autorização para ensinar na Universidade de Berlim em 1936, justamente quando ensinava os princípios contidos em sua obra Discipulado (publicado no Brasil pela Editora Sinodal). Portanto, nesta obra, escrita sob rígida censura, talvez encontremos um chamado ao combate ao mundo, que, no contexto alemão, se submetia ao nazismo, bem como uma igreja organizada incapaz de exercer qualquer papel benéfico no contexto de então.

Bonhoeffer nasceu em 4 de fevereiro de 1906, e desde cedo demonstrou interesse em se formar em Teologia, tendo sido bacharelado em 1927. Após estudou ainda um ano nos Estados Unidos, e se habilitou à docência na Universidade de Berlim. Em 1933, se tornou pastor em uma igreja em Londres, Inglaterra. Interessante notarmos que toda a sua trajetória coincide também com o surgimento do nazismo. O partido nazista foi fundado em 1919, tendo contado com a aderência de Hitler em 1920, tendo se tornado um de seus principais líderes. Em 1923, o partido nazista tentou aplicar um golpe de Estado e derrubar a República, no que foi fracassada, sendo que, Hitler e mais alguns de seus partidários acabaram sendo presos. Isto deu a Hitler e ao partido nazista, projeção nacional. Foi na prisão que Hitler escreveu Mein Kampf, em que expunha as principais idéias nazistas. Com a terrível crise alemã daquele período, Hitler foi gradualmente sendo visto como uma alternativa para recuperar o prestígio alemão, sendo que, em 1932, foi nomeado chanceler, tendo amplos poderes. Um de seus primeiros atos foi colocar fogo no parlamento, mas jogar a culpa nos políticos de esquerda, jogando-os em um campo de concentração. Em seguida, fez uma limpeza interna no próprio partido, eliminando 70 líderes e cerca de cinco mil nazistas. Estava implantado o regime totalitarista, e, em 1933, proclamou a criação do terceiro Reich. Começou a partir daí a sua investida contra os judeus. Nas palavras de Paul Tillich, em 1º de abril de 1933, “as igrejas nada disseram quando os judeus foram atacados pela primeira vez e muitas vidas e propriedades foram destruídas” (1). Logo, percebemos que a igreja oficial não estava contra o regime nazista, estando, em larga escala, até a favor, pelo menos em um primeiro momento. Foi neste ano, por exemplo, que Tillich, um dos adeptos do socialismo cristão, foi exilado, indo para os Estados Unidos. Notemos que em 1933, Bonhoeffer estava em Londres, na, por assim dizer, tranqüila posição pastoral, mas, em 1935, decidiu voltar à Alemanha. Ou seja, deixou um proeminente cargo na Inglaterra, para retornar ao caos em que tinha se transformado sua terra Natal. Somente uma pessoa imbuída de uma convicção fora do comum faria tal coisa. Bonhoeffer foi contemporâneo a diversos teólogos de renome, entre eles, Paul Tillich, que foi exilado em 1933, indo morar nos Estados Unidos, e só retornando em 1948. Karl Barth ficou durante muito tempo neutro, diante do nazismo, até passar para a oposição e conclamar a ação dos ingleses contra os nazistas. Bulltman não parecia ter interesses políticos, não tendo saído da Alemanha, nem sofrendo nenhuma perseguição por parte dos nazistas, visto que não entrava em assuntos políticos, não obstante sua genialidade teológica. Em 26 de abril de 1935, Bonhoeffer ajudou a fundar um seminário para pregadores, perto da região do Mar Báltico. Tal seminário foi transferido após para a região de Finkenwalde, estando, desde o seu nascedouro, na ilegalidade. Em fevereiro de 1936 perdeu sua licença para lecionar na Universidade de Berlim, sendo que, na época, ensinava os princípios expostos em seu livro Discipulado. Interessante tal fato, visto que, talvez, o regime tenha visto em tais ensinamentos algo com o que se preocupar. Em 1937 o governo determinou o fechamento do seminário, mas este continuou funcionando até 1940. Em 1939, Bonhoeffer escreveu Vida em Comunhão, obra em que esboçou um pouco da experiência no dito seminário. Em 05 de abril de 1943, Bonhoeffer foi preso, e executado em um campo de concentração nazista em 9 de abril de 1945, quando o regime já estava falido e já se sabia derrotado para as tropas aliadas. Hitler se suicidou no dia trinta do mesmo mês, ou seja, quando Bonhoeffer foi executado, os nazistas já tinham consciência de que iriam perder a guerra.

Com isso, podemos perceber um pouco do contexto histórico em que o livro Discipulado e os conceitos de graça barata e graça preciosa foram escritos. Era um contexto de extrema decadência da religião oficial, em que se apoiava o nazismo, e que, em nome da própria segurança, não se opunha a tal regime, deixando-se assim de se conformar ao evangelho de Cristo. Por isso os conceito de graça barata e de graça preciosa em Bonhoeffer não podem se encontrados na ortodoxia. Se buscarmos nos compêndios de teologia sistemática, não encontraremos nenhum conceito de “graça barata”. Isto porque, de fato, por uma análise teológica do termo, veremos que não existe tal graça barata, por parte de Deus. Da parte de Deus, a graça é sempre preciosa. É dom imerecido dado a favor dos homens (Efésios 2.8-9). A graça de Deus é sempre preciosa, e Ele não tem oferece nenhuma outra graça que não seja essa. Por isso, o conceito da graça barata de Bonhoeffer não pode se encontrado na ortodoxia, mas sim na ortopraxia. Ou seja, a questão é de prática, e não apenas de teoria. A graça barata é uma resposta não condizente para com a graça preciosa oferecida por Deus, e, cujo padrão, estava no discipulado com Cristo. Para Bonhoeffer, o discipulado com Cristo era a oposto ao regime nazista bem como a uma religião oficial que via em si mesma a única finalidade para a existência. Bonhoeffer então faz um apelo ao retorno das raízes do discipulado cristão, única expressão de vida condizente com a graça preciosa que Deus oferece aos homens. A igreja oficial poderia até ter uma doutrina correta de graça, mas não uma prática condizente, fazendo da graça preciosa, uma graça barata, e tal comportamento distorcido acabaria também por criar uma teoria distorcida, na tentativa de justificar o seu mau comportamento, ou mesmo a sua omissão. A lógica da graça barata é o entendimento de que, “pelo fato da conta já ter sido paga”, não haver mais necessidade de compromisso, de posicionamento, próprio da igreja oficial do período, que se omitira frente aos desmandos do nazismo, sob a desculpa de que a religião não deveria influenciar na política, posição esta defendida até por Karl Barth, pelo menos em um primeiro momento. Portanto, Bonhoeffer fala da graça barata não através de um conceito fechado, mas sim através de suas amplas manifestações, sendo que iremos verificar algumas delas.

A graça barata é graça como refugo. Ou seja, é a graça oferecida sem nenhum preço a ser pago. É a promessa do perdão sem nenhum compromisso com o discipulado. Basta uma simples aceitação da graça, e já se está perdoado, sem nenhuma necessidade de arrependimento. É um assentimento meramente intelectual da idéia de graça.

A graça barata significa, portanto, graça como doutrina, ou seja, sem correspondência nenhuma com a existência. Fica meramente na cabeça. Não vai para o coração, nem para os atos.

A graça barata significa justificação dos pecados, e não do pecador. Ou seja, pode-se fazer de tudo, uma vez que já se está perdoado. Entretanto, a graça preciosa justifica o pecador, ou seja, o ser humano diante de Deus, e não os seus atos pecaminosos. A aceitação da graça preciosa implica em abandono do pecado, e não a sua justificação. Os defensores desta graça barata até atacam aqueles que tentam resgatar a originalidade das palavras de Jesus, chamando-os de legalistas.

Logo, a manifestação da graça barata, por assim dizer, se dá, primeiramente, em uma distorção da verdadeira doutrina bíblica e em segundo lugar em uma resposta inadequada ao chamado ao evangelho. É uma distorção, pois diz que o crente pode ficar inerte em tal graça, deixando que ela a tudo opere sozinha, e que, qualquer tentativa de se conformar às palavras de Jesus é a rejeição da própria graça. É uma resposta inadequada ao evangelho, pois não induz ao compromisso, ao discipulado, à real transformação de vida.

Contrariamente, a graça preciosa chama ao discipulado. É preciosa, pois custa a vida do próprio homem. Quem quiser desta graça tem que dar a própria vida. E é graça porque da vida ao pecador. O homem perde a vida, mas ao mesmo tempo recebe vida. É o caráter paradoxal do discipulado e da graça de Deus. Aqui também Bonhoeffer não dá um conceito fechado da graça preciosa, mas sim, faz uma séria de afirmações, ou de manifestações de com tal graça se manifesta na vida das pessoas que a aceitam verdadeiramente. Bonhoeffer cita o exemplo do apóstolo Pedro de como tal graça se manifestara em sua vida através do chamado ao discipulado. Cita também que, com a expansão do cristianismo, houve uma decadência em sua vida espiritual, perdendo-se gradualmente a sua graça, sendo o movimento monástico uma forma de protesto contra tal secularização da igreja. Ocorre que o movimento monástico foi tolerado pela Igreja, de tal modo que, se criou o conceito de dois tipos de cristãos: uns especiais, que, teriam capacidade de se conformarem ao severo discipulado de Cristo, e outro grupo compondo o restante da cristandade, que não precisavam se amoldar ao discipulado, visto serem cristãos “normais”. Para Bonhoeffer, foi Lutero que resgatou a idéia de que o discipulado de Jesus era para todos os cristãos, e não a realização excepcional de alguns. Sob esta perspectiva, o convento não passava de lugar para auto-afirmação de uma vida piedosa acima dos demais, de modo que, o mundo passava a fazer parte do convento. Lutero fez o caminho inverso. Saiu do convento para o mundo. “A obediência perfeita ao mandamento de Cristo deveria acontecer na vida profissional de todos os dias”. Entretanto, não demorou para a mensagem de Lutero acerca da graça também ser distorcida, de modo que, a graça, que era um resultado, uma conclusão lógica após todo uma vida de árduo discipulado, passou a ser visto como premissa que dispensaria o cristão de todo e qualquer esforço. “Desaparecera o conflito entre a vida cristã e a vida profissional de cidadão mundano. A vida cristã consiste em viver no mundo e tal qual o mundo, sem dele me distinguir, seja no que for, nem devendo – por amor da graça – distinguir-me dele, embora em determinadas oportunidades, eu saia do mundo para penetrar no âmbito da igreja, para ai me assegurar do perdão dos pecados (p. 15)”. Com este raciocínio, e a referência ao ensino luterano que fora distorcido, talvez Bonhoeffer tivesse em vista a igreja oficial, que, não raras vezes, se recusara em se envolver em “assuntos mundanos”, fechada em si mesmo, alegando uma certa neutralidade. Entretanto, para evitar certa jactância, Bonhoeffer faz questão de transmitir o ensino de Lutero, que, mesmo em meio ao discipulado exorta aos cristãos para reconhecerem que são sempre pecadores, não importa quanto esforço façam (pecca fortiter). Não há duvida de que Bonhoeffer lança em rosto do luteranismo oficial o fato de ter barateado o ensino de Lutero: “ser luterano seria deixar o discipulado de Jesus aos legalistas, aos reformados, aos entusiastas.... Cristianizara-se, luteranizara-se um povo inteiro, porém às expensas do discipulado, a um preço demasiadamente barato (p.17)”. Talvez, sob esta perspectiva, possamos verificar por que Bonhoeffer perdera sua licença para ensinar os princípios contidos no Discipulado na Universidade de Berlin. É um protesto contra a igreja organizada, inerte contra a mundanidade. “O preço que temos que pagar com o colapso da igreja organizada será qualquer outra coisa senão uma conseqüência necessária ao embaratecimento da graça?” Essa graça barata arruinou qualquer tentativa de discipulado com Cristo. Bonhoeffer chama-nos a uma reforma de nossas vidas, como se disse dantes, não da ortodoxia, mas da ortopraxia: “Simplesmente por não quereremos negar que já não estamos no verdadeiro discipulado de Cristo, que somos, é certo, membros de uma igreja ortodoxamente crente na doutrina da graça pura, mas não membros de uma igreja do discipulado”. O chamado de Bonhoeffer é para se procurar entender e viver de forma autentica a graça: “Por amor da verdade, essa palavra tem que ser pronunciada em nome daqueles de entre nós que reconhecem que, devido a graça barata, perderam o discipulado de Cristo, e, com o discipulado de Cristo, a compreensão da graça preciosa.” Para Bonhoeffer, “graça nada mais é senão o discipulado!”

sábado, 24 de agosto de 2019

Igrejas pequenas deixarão de existir?

Uma colega foi em uma dessas mega igrejas que existem na cidade de São Paulo.

Tudo é incrível.

Louvor de extrema qualidade.

Telões.

Pregações motivacionais que empolgam a platéia.

Até o teto da igreja abre durante o louvor.

Um clima realmente vibrante e arrebatador!

Milhares e milhares de jovens.

Além disso, multiplicam-se as mega igrejas com milhares de membros.

Diante desse quadro, alguns poderiam se perguntar qual seria o destino das igreja pequeninas.

Estariam elas fadadas a desaparecerem diante da "concorrência", por assim dizer?

Afinal de contas, a gente sempre não ouve falar de mercados, farmácias, e outros negócios pequeninos que fecham diante da potência de grandes empresas?

Muito bem.

Tenho uma opinião acerca deste assunto.

Creio que as pequenas igrejas não vão, necessariamente, fechar por conta disso.

Podem até fechar por outros motivos.

E o motivo pelo qual penso assim é que, há algo que não pode ser produzido pela tecnologia, grupos de louvor maravilhosos e mensagens super motivacionais.

Por templos modernos, telões, e outras parafernálias eletrônicas.

Essa coisa que não pode ser produzida assim, artificialmente, é o amor.

A característica fundamental do evangelho é relacional.
Jesus disse que seríamos conhecidos como discípulos pelo amor que demonstrássemos uns aos outros.

E isso não vem automaticamente.

Nem tecnologicamente.

Precisa de tempo, convivência, caminhada, disciplina, paciência.

Dificilmente isso poderia ocorrer em um auditório lotado de pessoas, com hora cronometrada para entrar e sair do templo.

Claro que algumas mega igrejas tentam compensar isso com grupos familiares que se reúnem nos lares.

Algumas são bem sucedidas.

Mas há sistemas que são tão hierárquicos e, de certa forma, autoritários, que parecem fugir um pouco do que parece ser o padrão do novo testamento.

Portanto, me parece que igrejas pequenas não estão, como em outras áreas de atividade, condenadas a desaparecerem.

Igrejas em que todos se conhecem pelo nome, ou ainda, que todos são conhecidos dos pastores.

Talvez fosse até uma ideia sábia das lideranças das igrejas limitar o tamanho da igreja a um tamanho possível de administrar.

De qualquer modo, igrejas de multidões podem até serem bem vindas para um primeiro contato com o evangelho. Mas após isso, talvez as pessoas queiram algo mais profundo.

Igrejas pequenas deixarão de existir frente às multinacionais?

terça-feira, 21 de maio de 2019

O que a queda de uma famosa vegana tem a ensinar aos ministros do evangelho?

Por esses dias, uma famosa vegana, Yovana Mendoza Ayres, também conhecida como Rawvana, foi flagrada comendo carne de peixe. 

Ela tinha milhares de seguidores nas redes sociais, bem como diversos patrocínios. 

Ocorre que, em uma viagem com uma amiga (também famosa), essa, por acidente, a filmou em um momento de descontração, comendo o dito peixe, e seu vídeo rapidamente se espalhou pela internet.

Foi um tombo tremendo para a dita Yovana!

Ela ainda veio a público para pedir desculpas, porém, ficou a sensação de que isso só ocorreu por ter sido flagrada, até mesmo porque, aparentemente já havia dois meses que ela estava se alimentando de carne de peixe e ovos por prescrição médica. Parece que ela esteve os últimos anos doente, sofrendo com anemia, com o intestino cheio de bactérias (em um nível não recomendado), bem como com o ciclo menstrual comprometido. Ocorre que, mesmo assim, ela preferiu manter as aparências, manter os seguidores e os patrocínios.

Pois bem.

O que isso tem a ver com os ministros do evangelho (ou mesmo, com a totalidade dos cristãos)? 

Se nós, os ministros do evangelho, fôssemos flagrados em todos os momentos de nossas vidas, será que não seríamos tidos também como impostores?

Será que realmente não há nada em nós que contraria aquilo que constantemente pregamos em nossas igrejas?

Será que todos nós, em alguns momentos, não vivemos fases ou situações em que era melhor confessar nossos erros e desistir? Principalmente aqueles que têm algum ganho econômico com o evangelho, que vivem da pregação?

Sim.

Do mesmo modo que ocorreu com a famosa vegana, acontece também na vida de todo ministro do evangelho, e quiçá, de todo cristão.

Em algum momento da caminhada, não vivemos conforme o que pregamos.

Por isso, para que nosso tombo não seja grande também, é preciso admitir constantemente para nós mesmos, para o nosso povo e para a sociedade de que não somos perfeitos, nem infalíveis, nem impecáveis. 

E que somos completamente dependentes da graça, e da misericórdia de Deus. E que sem ela, não ficamos de pé.

E com isso, aprendermos a não sermos tão duros em nosso julgamento quando o nosso próximo vier a cair.

Caso contrário, corremos o risco de cair no erro da hipocrisia, qual seja, manter somente uma aparência sem nenhuma correspondência com a realidade, como aqueles pastores que dizem que crente não pode ficar doente, e depois, quando eles mesmos adoecem, precisam se tratar escondidos.

E se, eventualmente, escolhermos viver um estilo de vida que objetivamente não corresponde aquilo que pregamos, é melhor realmente ser sincero e parar.


quinta-feira, 18 de abril de 2019

A purificação do templo (ou de como atrair os assassinos a si próprio)

Era provavelmente uma segunda feira.

Jesus entra no Templo, uma construção magnífica, e não gosta do que vê.

No local denominado "átrio dos gentios", lugar reservado à oração de todos os povos, cambistas trocam dinheiro, e vendedores comercializam animais.

Peregrinos vinham de todos os lugares do mundo, porém não eram aceitas moedas estrangeiras. Assim sendo, tudo precisava ser trocado por moeda judaica.

Acontece que nesse procedimento, havia abuso por parte dos cambistas. E é bem possível que parte dos lucros fossem para os sacerdotes.

Depois, com o dinheiro judaico, seriam comprados animais a serem oferecidos em sacrifício.

Mais uma vez é possível que o valor estipulado estivesse bem abusivo.

E novamente, parte de tais valores provavelmente iam para a liderança de Israel.

Trocar dinheiro, comprar animais, se tudo isso fosse feito por um preço justo, não haveria problema, DESDE QUE NÃO FOSSE NO TEMPLO!

Afinal, era muito mais fácil para os peregrinos comprarem animais no local do que trazerem para suas terras. Mas naqueles tempos, dificilmente os fiscais deixavam passar uma animal que não tivesse sido comprado ali mesmo.

Jesus, ao ver tudo isso, EXPULSA todos, e, mencionando discursos dos profetas Isaías e Ezequiel, ensina que a casa de seu Pai era uma casa de oração, porém, toda aquela turma tinha transformado tal local em um covil de salteadores, o que equivaleria dizer, a um esconderijo de ladrões.

Realizar tais atos profanos era violar a casa do próprio Pai!

Ao verem tal cena, os sacerdotes e os principais já começaram a bolar um plano para matar Jesus. Só não o fizeram no momento, pois temiam as multidões.

O que muito chama a atenção nessa história é essa postura de Jesus, tremendamente profética, de ir até o local em que a injustiça estava ocorrendo, e enfrentá-la de frente.

Jesus dizia em rosto dos injustos as injustiças que cometiam.

Esse é o verdadeiro ministério profético que vinha desde os tempos do antigo testamento.

Entretanto, ao interferir na injustiça alheia, bem como na corrupção, o Senhor atraiu a morte a si.

E esse sempre será o destino daqueles que tentarem interferir na injustiça desse mundo.

Mexa no bolso de alguém. Tente fazer parar a corrupção.

Primeiramente, tentarão macular a sua reputação. Depois, irão tirar a sua vida.

Havia sido assim com Isaías, Jeremias, Ezequiel e João Batista, bem como tantos outros.

Seria assim com Jesus.

Como bem disse, creio que que foi Rubem Alves, sempre haverá uma cruz no caminho daqueles que interferirem nos negócios deste mundo.

A questão é: quem teria coragem de agir assim nos dias de hoje?

Fonte da imagem: Pastoral da Juventude


sábado, 13 de abril de 2019

Igreja X Instituição

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Constantemente surgem grupos que fazem a crítica da igreja enquanto instituição. Dizem que quando esta se institucionaliza se torna fria, calculista, exploradora e perde da sua força comunitária original.

Sempre pode haver alguma razão nessas críticas, e algumas pessoas, por conta disso, abandonam a igreja organizada e procuram viver um evangelho "mais livre", reunindo-se em casas, parques e outros lugares.

Tal discussão não é nova na história da Igreja. A Reforma, por exemplo, foi tão mordaz ensinou que a verdadeira igreja era invisível, separando-a, em certo sentido, de sua expressividade histórica e material.

Hoje ninguém nega que todas as Igrejas oriundas da Reforma se institucionalizaram Os que não se organizaram, não sobreviveram. Mesmo os anabatistas, se estão hoje entre nós, devem ao fato dos menonitas terem se institucionalizado também.

Por tudo isso, entendo que, querer criar uma comunidade sem se institucionalizar é uma ilusão. Cedo ou tarde, se tal grupo quiser sobreviver, terá que se organizar, reconhecer uma liderança, um local de encontro, um fundo econômico, arrecadar dinheiro, abrir uma pessoa jurídica, etc. 


Dom Robinson Cavalcanti ensinou em “Cristianismo e Política” de que, sustentar um corpo sem liderança é pura ilusão herética. Tillich, em “A História do Pensamento Cristão”, demonstra que, os que lutam contra a instituição, deveriam pensar melhor, pois, tudo o que temos em termos teológicos, nos foi preservado e conservado por ela. Teríamos tantas cópias das Escrituras se durante tantos séculos os monges católicos não tivessem manualmente as copiado, dia após dia? Teríamos um cânon da Bíblia se a Igreja, pelo menos quatro séculos depois da sua existência, não tivesse tentado entrar em acordo do que seria ou não canônico? Teríamos sustentado um pouco da identidade cristã se os grandes concílios não repelissem o que consideraram ensino herético, como o arianismo, entre outros, por melhores ou piores que fossem as decisões advindas dali?

Portanto, nossos esforços não devem estar focados, a meu ver, no fim da instituição, mas em evitar que ela se torne um fim em si própria, e isso é um grande desafio. É trabalhar segundo a concepção de que a igreja existe por causa do homem, e não o homem por causa da instituição. É facilitar recursos humanos para o serviço do Corpo de Cristo. Afinal, se não houver odres fortes, o vinho se perde. Se não houver alguma organização, até os melhores esforços podem acabar não sobrevivendo ao teste do tempo.



É possível uma igreja não se institucionalizar

quarta-feira, 20 de março de 2019

Quem não dá dízimo vai para o inferno?

Há pouco tempo, vi, em um canal de televisão, um pastor de uma igreja que possui milhares de membros no Brasil, ensinar que, aqueles que não dão o dízimo, irão para o inferno.

O raciocínio é muito simples. Segundo Malaquias, que não dá o dízimo é ladrão (Mal 3,7), e, os ladrões não herdarão o Reino de Deus, conforme atesta vários textos das Escrituras.

Também em uma estação de rádio, ouvi um outro pastor (que também é líder de outra denominação bastante numerosa), sustentar opinião parecida com essa.

Muito bem. Será que estas coisas são realmente assim?

Em primeiro lugar, quero ressaltar que não sou contrário, de modo algum, a que alguém separe uma porcentagem de seus rendimentos, e os doe à Igreja. O protestantismo histórico sempre incentivou a dar o dízimo, e, com tais arrecadações, criava uma complexa rede de ajuda comunitária, construía orfanatos, criava escolas que posteriormente se tornaram grandes universidades, etc. Não se ouvia falar de escândalos financeiros, pastores milionários, ou coisas do tipo. Por isso, não precisamos ser contrários ao dízimo, às doações, às ofertas, mas sim ao modo como tal prática tem sido sustentada. Acho que utilizar "Malaquias" pode ser um erro, e, entender que não dizimar condena ao inferno é também um erro de fundamentalistas e literalistas.

Isto porque, também há inúmeros textos que contém duras ameaças para quem não guardar o sábado, a circuncisão, e inúmeras outras questões judaicas (são tantas passagens, que, qualquer que tiver uma chave bíblica as achará facilmente). E nem por isso, estes pastores as declaram obrigatórias, sob as penas do inferno.

Outra questão, é que, os levitas não tinham herança em Israel, não tinham propriedade. Será este o caso dos modernos pastores? Penso que, a maioria possui sim, seus próprios bens e propriedades.

Outro aspecto é que, será que estes pastores observam a lei do dízimo nos estritos termos do Antigo Testamento? Um dízimo anual era para o sustento dos levitas (Lv 27,30), outro, era levado para Jerusalém na festa do Senhor (Dt 14,22), e este segundo, de três em três anos, era destinado para o pobre (Dt 14,28). Eu duvido muito que estes pastores cumpram todos os requisitos vétero-testamentários acerca do dízimo.

Algo que é preciso perguntar do fundo de nosso coração, é o fato de que, em Israel, haver uma religião oficial, sendo o dízimo, uma espécie de imposto estatal. Exigir tal contribuição como uma obrigatoriedade legal mais do que um ato de adoração, em um contexto tributário tão pesado quanto o nosso não seria impor um jugo muito pesado sobre as pessoas? Todos os que administram das coisas sagradas precisam se fazer esta pergunta com temor e tremor.

Conforme já disse, não sou contra que se dê o dízimo à Igreja, ou vinte, trinta, metade dos rendimentos; na verdade, até entendo que o cristão deve realmente se esforçar para contribuir na comunidade que frequenta, de forma periódica e em valor que demande sim algum sacrifício da parte do doador (não pode ser do que lhe sobra), mas suspeito quando utilizam da lei para tentar forçar o fiel a agir desta maneira. Não dizem as Escrituras que maldito aquele que não perseverar em todos os pontos da lei? Porque insistir em pregar a lei assim? Alguns sustentam que o dízimo deve ser exigido porque Abraão o deu o dízimo a Melquisedeque antes de existir a lei. Sem delongar muito sobre os aspectos culturais da ocasião, fato é que, se utilizarmos este exemplo, deveríamos dar dízimo somente uma vez na vida, pois Abraão só viu o referido sacerdote uma vez. Portanto, fica complicado querer justificar tal prática no Antigo Testamento. Por outro lado, mesmo se admitirmos tal argumento, podemos ver que Abraão não deu o dízimo por alguma imposição legal (afinal, a lei não havia sido dada), mas o fez por livre e espontânea liberalidade, em um ato puro de adoração, uma questão pessoal dele e Deus. Penso que, neste sentido sim, o exemplo da Abraão pode ser utilizado.

Fato é que, para os que andam no Espírito, não há lei que os condene (Gal 5,23), e, os cristãos conscientes, sabem que devem contribuir para a obra, seja para sustentar a estrutura da igreja como um todo, seja para o pagamento de seu pastores. Mas estes que jogam o peso da lei sobre os fiéis (não digo que todos o fazem de má fé) devem pensar com cuidado sua própria teologia. Isto porque, quando colocamos uma obra da lei como necessária a salvação (ou, no meu entender, qualquer obra que seja), decaímos da graça (se pudéssemos fazer algo pela nossa salvação, Jesus não precisava ter dado sua vida por nós, bastava mandar o manual lá do céu) e negamos, então, a teologia protestante, e, no meu sentir, paulina, de que o homem é salvo por graça, sem as obras da lei. O protestantismo colocou as obras, não como pressuposto, mas como resultado da salvação. Por isso, ainda que se corra o risco de não engordarmos as contribuições na igreja, jamais devemos ensinar o povo que aquele que não der o dízimo vai para o inferno, pois, caso assim façamos, fico a me perguntar se haverá muita diferença assim entre nós e aqueles que cobraram indulgências no passado...


(publicado originalmente em março de 2009)

Dízimo e inferno

segunda-feira, 18 de março de 2019

Jesus, homem de coragem(Marcos 10.32-34)

Leitura: Marcos 10.32-34

A presente passagem diz respeito ao terceiro anúncio da paixão feita pelo Senhor nesse evangelho.

Consta no versículo 32 que Jesus e seus discípulos estavam "subindo para Jerusalém". 

A ideia pode realmente ser geográfica, afinal, Jerusalém se encontra cerca de 800 m acima do nível do mar, e o Templo de Salomão era construído sobre a colina de Sião (cerca de 820 m também acima do nível do mar).

Entretanto, também pode estar incluída a ideia de elevação espiritual, e possivelmente estavam indo para a festa relativa à Páscoa.

Era em Jerusalém que estavam os mais poderosos e perigosos inimigos de Jesus.

O versículo menciona ainda que "Jesus ia a frente dos discípulos". Sim, ele era o líder destemido, determinado, que ia a frente dos seus. 

Os discípulos "seguiam tomados de apreensões". Talvez estivessem sentido algo diferente. Algo no olhar do Senhor, no seu silêncio, enfim. Pressentiram que algo talvez não fosse ficar bem. Alguns deles talvez ainda pensassem que estivessem indo para Jerusalém para tomar o poder.

O Senhor então "levou à parte os doze", o que demonstra que o grupo era maior. Aquilo que o Senhor tinha para dizer, no momento, não era adequado que fosse compartilhado com todos.

No versículo 33, o Senhor refere-se a si mesmo como "o Filho do homem". O termo certamente é uma referência a Daniel 7.13-14, e que naquele contexto significava que aquele teria domínio eterno e que seu reino jamais seria destruído. Em relação ao evangelho de Marcos, nessa passagem, possivelmente diga respeito á humanidade do Senhor.

O Senhor menciona tudo o que irá ocorrer com ele. Que "será entregue aos principais sacerdotes e escribas", ou seja, aqueles que irão julgá-lo e condená-lo. "Ser entregue" possivelmente diga respeito ao ato de Judas em traí-lo.

Nesta ocasião "condena-lo-ão à morte", em um julgamento relâmpago e injusto.

Jesus menciona que "o entregarão aos gentios", pois, naquele momento, os judeus não poderiam executar a pena de morte; somente os romanos poderiam.

Também é descrito que "hão de escarnecê-lo, cuspir nele e açoitá-lo", que de fato, foi o que Jesus sofreu nas mão dos gentios.

E finalmente, é dito que "irão matá-lo", ou seja, verdadeiramente o Messias esperado iria experimentar a morte.

Mas a morte não teria a última palavra, pois ele assegurou que "depois de três dias ressuscitará".

O que impressiona nessa passagem é a determinação e coragem demonstradas pelo Senhor.

Ele sabia exatamente o que iria ocorrer, pois mencionou que seria entregue aos sacerdotes e escribas, sofreria um julgamento injusto, seria  condenado à morte, entregue ao gentios, escarnecido, cuspido e açoitado, e que por fim seria morto.

Viver sob essa perspectiva, de tudo o quanto iria lhe acontecer, deveria ser um fardo muito difícil de carregar.

Talvez alguém possa desdenhar imaginando que para ele seria fácil, afinal, era também o Filho de Deus.

Entretanto, considere o tal a agonia que o Senhor passou, pois iria levar sobre si o pecado de todos nós.

Não sabemos explicar nem podemos compreender o horror pelo qual o Senhor passou, todo santo e puro, ao levar tal fardo, e é a caminho disso que ele estava.

E esse exemplo do Senhor que deve nos inspirar a continuarmos firmemente naquilo que nos foi proposto pelo evangelho. Não podemos e nem devemos recuar, a exemplo do Mestre.

E a morte jamais terá a última palavra sobre aqueles que seguem o seu Mestre, pois depois do terceiro dia, ele ressuscitou.


Jesus, um homem muito corajoso

sábado, 9 de março de 2019

Dificilmente os ricos entrarão no Reino de Deus (Marcos 10.17-31)

Leitura: Marcos 10.17-31

O texto nos diz que um homem correu ao encontro de Jesus, se ajoelhou, e, chamando Jesus de Bom Mestre, o questiona como deveria fazer para herdar a vida eterna (vers. 17).

Jesus pergunta por que chamá-lo de bom, dizendo que "ninguém é bom, senão Deus" (vers. 18).

Os detratores da divindade de Cristo enxergam aqui a prova cabal de que o Senhor era somente humano. Afinal, o próprio Jesus não se incomodou pelo fato de ter sido chamado de bom? Não foi ele quem disse que só Deus é bom?

Podemos entretanto, ver um significado mais profundo na pergunta de Jesus. Ele estava dando uma oportunidade para que aquele homem refletisse profundamente acerca daquele a quem estava dirigindo. É bem verdade que no evangelho segundo Marcos não temos a mesma cristologia altíssima do evangelho segundo João. Porém, poderemos enxergar nas entrelinhas a divindade de Cristo, mesmo em Marcos, mesmo nos outros sinóticos. Jesus é aquele que saber exatamente o que vai no coração dos homens (Mc 2.8).

O Senhor então menciona alguns mandamentos para aquele homem referentes à segunda tábua da lei. Não sabemos com certeza o motivo pelo qual ele trocou o "não cobiçarás" por "não defraudarás". Talvez estivesse demonstrando o pecado daquele homem, que até aqui, neste texto, não fora revelado de que era rico. Defraudar era o pecado próprio daqueles que retinham riquezas injustamente, e que era algo condenado pelas Escrituras (Lv 19.13; Tg 5.4). Também não sabemos com certeza o motivo pelo qual o Senhor não mencionou os mandamentos referentes à primeira tábua da Lei. Talvez, fossem óbvios demais para um judeu. Além do que, quem cumprisse os mandamentos da segunda tábua da Lei, certamente também estaria cumprindo os da primeira, afinal, a lei se resume no amor.

Aquele homem respondeu que tudo aquilo estava fazendo desde a sua mocidade (vers. 20). Jesus não o desmentiu explicitamente. Entretanto, é possível que o autoexame daquele homem não estivesse sendo assim muito profundo. 

Fato é que o Senhor o fitou com amor (poucas vezes os evangelhos mencionam tal amor explícito de Jesus assim por alguém), e disse que faltava àquele homem uma coisa, qual seja, ir, vender todos os seus bens, dar aos pobres e que assim teria um tesouro no céu. E que depois, deveria segui-lo (vers. 21).

Ocorre que o homem ficou bem contrariado com aquela palavra, e foi embora triste, pois era dono de mutias propriedades (vers. 22). Será que esse homem estaria debaixo da condenação de Isaías 5.8?

Vejam que somente agora foi revelado no texto que aquele homem era rico. É isso que eu quero dizer com uma divindade implícita no texto de Marcos. Somente Deus poderia saber exatamente o que faltava para aquela pessoa herdar o reino de Deus. Ele tinha que vender tudo. Isso nunca foi uma regra inflexível para todas as pessoas ricas nas Escrituras. Entretanto, para aquele homem, era necessário. Jesus viu isso, e aquele homem falhou em atender aquele que chamou de Bom Mestre.

Então, o Senhor, didaticamente, aproveitou a ocasião para ensinar algo aos seus discípulos, dizendo que dificilmente entrarão no Reino de Deus os que têm riquezas (vers. 23).

Esse ensinamento foi espantosos para os discípulos (vers. 24), pois para estes, certamente um homem rico era muito abençoado por Deus, e sua riqueza era sinal da aprovação divina. Entretanto, o Senhor ressalta que será muito difícil um rico entrar no Reino (algumas versões trazem "os que confiam nas riquezas", mas isso pode ser uma interpolação posterior).

Então o Senhor sentencia dizendo que "é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus" (vers. 25).

Muita gente tentar interpretar de várias formas esse versículo no sentido de se tentar tirar a radicalidade das palavras do Senhor. Mas avaliando calmamente o que nosso Senhor está dizendo, a conclusão é exatamente o que ele disse: dificilmente um rico entrará no Reino, e ponto!

Os discípulos ficaram maravilhados (vers. 26), demonstrando o quanto estavam imbuídos de uma teologia equivocada. Chegam a perguntar quem poderia ser salvo então, afinal, se um homem, que para eles era abençoado por ser rico não seria salvo, quanto mais o restante das pessoas.

E então Jesus iguala todos, dizendo que para o homem, independente de riquezas, é impossível ser salvo, mas que para Deus tudo era possível (vers. 27), ou seja, o Senhor colocou sua confiança inteiramente em Deus. Somente Deus pode salvar.

Foi então que Pedro, talvez o mais ousado dos apóstolos, lembrou Jesus de que eles largaram tudo para seguir ao Senhor (vers. 28), e este respondeu que receberiam cem vezes mais aqueles que fizeram isso por amor ao evangelho, e isso com perseguições, mas por fim, a vida eterna (vers. 29-30), que era o que o homem rico estava procurando. Será que aqui o Senhor não está apontando um caminho para todos nós?

Após o Senhor afirma que muitos primeiros serão últimos e vice versa (vers. 31) apontando a inversão escatológica do reino (do tipo que as prostitutas herdarão o reino antes dos religiosos, os gentios, antes de muitos judeus, pobres, antes de muitos ricos).

Essa foi uma ocorrência espantosa para os discípulos, pois acreditavam que, de algum modo, gente rica era muito abençoada por Deus.

Entretanto, para algumas pessoas, as riquezas se tornam verdadeiros ídolos, de modo que, o pecado da avareza se torna em idolatria (Colossenses 3.5).

A riqueza, nomeada por Jesus de Mamon, era algo concreto, palpável, enquanto que a fé exige confiança n'Aquele que não se pode ver!

Aquele homem rico, embora procurasse viver uma vida eticamente responsável, estava colocando algo acima de Deus em seu coração, ou seja, as suas riquezas.

Quando foi desafiado pelo Senhor a vender e distribuir tudo aos pobres, se entristeceu profundamente. O Senhor o chamou para uma libertação. Para sentir a alegria de repartir. De parar de fazer a busca pela vida eterna uma via individualista, porém, coletiva, abençoadora, pois "bem aventurado é dar do que receber". De ter Jesus como sua única riqueza. Porém, aquele homem era apegado às suas propriedades, de modo que falhou no chamado que recebeu. Nada há no texto que indique que aquele homem adquiriu suas riquezas pelo roubo ou exploração (embora tal hipótese não possa ser descartada), entretanto, em seu coração, Deus não era prioridade.

Que cada um de nós possa avaliar profundamente se tem algo em nossos corações que amamos mais que ao Senhor.

Deus em muito nos abençoe!

O jovem rico
Pixabay




sexta-feira, 8 de março de 2019

Onde está o escravo?

Reza a tradição que era uma quinta feira.

Jesus e seus discípulos iriam celebrar a Páscoa.

Caminharam bastante até chegarem em uma casa.

Era costume naquele tempo ter algum criado, servo, escravo, para lavar os pés dos viajantes.

E olha que não tinham tênis, sapatos….

Os pés estavam empoeirados, sujos de areia, barro, talvez até esterco, enfim.

E os pés tinham que ser limpos.

As mesas daquele tempo não eram muito altas não, como hoje. Os pés não ficam “lá embaixo da mesa”.

Ficam meio que perto da comida, enfim.

Imagina o cheiro ruim…

E a galera chegou na casa.

Fico pensando no constrangimento.

Olhares procurando algum servo, algum escravo, para lavar os pés de todos.

Começaram a olhar um para o outro.

E agora?

Onde está o escravo?

Quando olham para o lado, o próprio Jesus, se cingiu somente com uma toalha para lavar os pés de todo mundo.

Constrangimento geral.

O Pedrão disse: “o meu não, não lava de jeito nenhum”.

Na cabeça do Pedro, líder não era para essas coisas.

O Senhor disse que se Pedro não deixasse, não teriam nada em comum.

Exagerado, o príncipe dos apóstolos disse: “me lava todo então”

Tudo não precisava, pois a Palavra que eles aprendiam já estava fazendo isso.

E assim, o Mestre foi lavando os pés de um por um.

E disse: se eu, que sou o Senhor e Mestre de vocês vos laveis os pés, vós também devereis lavar os pés uns dos outros.

Jesus, para nossa tradição, é o filho de Deus encarnado.

Aquele que deixou a sua glória para nos salvar.

A encarnação em si já foi um ato de esvaziamento.

E sua vida encarnada seguiu a mesma direção.

Jesus nos deixou o único caminho possível para a convivência e para a paz.

O caminho do serviço abnegado e do amor de uns para com os outros.

Jesus lava os pés dos discípulos

quinta-feira, 7 de março de 2019

Um jeito de receber Jesus

Atualmente, quando alguém nos procura perguntando como deve fazer para receber Jesus, geralmente lhe ensinamos algumas metodologias.

Uma delas é fazer a oração do penitente, dizendo que se arrependeu de todos os pecados e que agora está recebendo Jesus em seu coração.

Após, encaminhamos tal pessoa para ser batizado, e, enfim, participar do cotidiano da igreja, comungando da ceia do Senhor, e se envolvendo em algum trabalho.

Se formos católicos ou ortodoxos, também teremos nossos métodos, catecismos, credos, etc.

Isso tudo é ótimo, porém, há outra forma, conforme o próprio Senhor ensinou.

Houve uma certa ocasião em que os discípulos de Jesus discutiam entre si quem era o maior dentre eles.

Você poder ler em Marcos 9.33-37.

Discussão importante, né?

Só que não!

Ao perceber tal discussão, Jesus perguntou para eles do que se tratava o papo.

Ninguém respondeu nada. Houve silêncio. Provavelmente ficaram envergonhados por discutirem algo tão banal.

Jesus, obviamente, sabia do que se tratava.

Tanto que os advertiu que, quem quisesse ser considerado o primeiro no reino do Pai, teria que se fazer servo de todos.

E como se não bastasse, ele ainda chamou uma criança, a tomou em seus braços, e ensinou aos seus discípulos: "Qualquer que receber uma criança como esta, em meu nome, a mim me recebe; e qualquer que a mim me receber, não recebe a mim, mas ao que me enviou".

Então, como receber Jesus em sua vida?

Recebendo uma criança em nome dele!

A criança aqui é o símbolo da fragilidade.

Receber é acolher, dar amor.

Quantas crianças precisam de tal amor, não é mesmo?

Banais são as discussões sobre quem é o maior.

Importante mesmo é receber uma criança em nome de Jesus.

Pois assim fazendo, recebemos não somente a criança, mas também Jesus.

Não somente Jesus, mas também o Pai.

E o caminho do encontro para com Deus se torna uma simples criancinha.

Como receber Jesus em sua vida

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