segunda-feira, 13 de março de 2017

Livrando-se de todo peso que nos embaraça

Leitura: Hebreus 12.1


O autor aos hebreus nos exorta a corrermos a carreira que nos está proposta. Entretanto, duas coisas nos atrapalham: o peso e o pecado. Do pecado, sabemos que temos que nos livrar. Entretanto, há coisas que são pesos que carregamos, e que nos impedem de correr. Podem até não ser pecado, mas tendem a ele.

Que pesos poderiam ser estes?

Um deles é o desejo exacerbado pelas coisas materiais. Jesus disse que “ninguém pode servir a dois senhores, pois há de amar a um e aborrecer a outro, ou se devotará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e as riquezas” (Mt 6.24). Também determinou que devemos nos guardar de toda a avareza, pois a vida não consiste na quantidade de bens que possuímos (Lc 12.15). Ou seja, em uma época materialista como a nossa, corremos o risco de focarmos demais na aquisição de bens, como casas, carros, roupas, investimentos, e coisas do tipo. Não que elas sejam erradas em si, mas se focarmos exclusivamente nisso, nossa carreira cristã começa a se tornar pesada, pois acabaremos nos dedicando muito pouco para Deus. Paulo diz que os que querem ficar ricos caem em tentação e laço e em profundas concupiscências (1 Tim 6.9). Somos chamados a uma vida simples, com contentamento, pois Deus tem cuidado de nós (1 Pe 5.7).

Outro peso bastante complicado e que atinge a maioria de nós é o cuidado pelas coisas dessa vida. Jesus ensinou seus discípulos que eles deveriam ter cuidado para que os seus corações não se sobrecarregassem com os efeitos da orgia, da embriaguez e dos cuidados deste mundo (Lc 21.34). Na parábola do semeador, o terceiro terreno é aquele em que a boa semente foi semeada entre os espinhos: “Os semeados entre os espinhos são os que ouvem a palavra, mas os cuidados desse mundo, a fascinação das riquezas e as demais ambições, concorrendo, sufocam a palavra, ficando ela infrutífera (Mc 4.18-19). A extrema ansiedade em prover a nós mesmos e a nossa família com os bens desse mundo, ainda que legítimos, podem acabar nos afastando dos caminhos do Senhor. Ainda que precisemos trabalhar e prover o necessário para a vida, temos que tomar cuidado para que isso não sobrecarregue nosso coração, por isso é bom reservar sempre tempo para a oração, leitura das Escrituras, tempo com a comunidade e com a família, não negociando os valores do reino.

Outra coisa que pode pesar muito em nossa caminhada cristã são os sentimentos negativos. Todos nós, em algum momento da nossa vida, sofremos algum tipo de agressão ou decepção emocional. São filhos que cresceram ouvindo coisas terríveis dos pais; cônjuges que se agridem mutualmente; traições, sejam familiares ou de amigos, e coisas do tipo. Isso pode fazer com que, mesmo sem desejar, desenvolva-se em nós muitas amarguras, traumas, tristezas e dores emocionais de todos os tipos, dificultando nosso envolvimento com outras pessoas, inclusive. Essas chagas são tão profundas na sociedade que acabam ocorrendo muitas agressões e até crimes passionais. Por isso, precisamos buscar a cura dessas nossas emoções negativas na presença de Deus, pois Ele pode nos curar de todo o mal e curar nossas emoções de todo e qualquer trauma. Há um versículo muito bonito no Salmo 16.11, em que o salmista expressa sua confiança no cuidado divino: “Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente”.

O último peso de que iremos tratar é o dos relacionamentos. Todos nós somos seres relacionais, e é assim que tem que ser. É muito bom ter família e amigos. Entretanto, pode acontecer de nossos relacionamentos também se tornarem um peso para a carreira cristã, quando passam a entrar em conflito com a vontade de Jesus. Por isso ele chegou a dize que “quem amar seu pai, ou sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim; e quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim, não é digno de mim” (Mt 10.37-38). Ele também chegou a dizer: “se alguém vier a mim e não aborrecer a pai e mãe, mulher e filhos, irmãos e irmãs, e ainda a própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14.26). Ou seja, além de evitarmos a companhia daquelas pessoas que notadamente rejeitam o evangelho e fazem um mal para a nossa caminhada, também não podemos deixar que os relacionamentos legítimos, que não podemos abandonar, venham a ter prioridade acima de nosso compromisso com o evangelho.


Muitas outras coisas poderiam ser mencionadas como um peso para a nossa caminhada cristã, que poderemos explorar em outras oportunidades. De qualquer modo, que possamos nos desembaraçar de todas as coisas que tentam atrapalhar nossa vocação.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

“Não haverá penas cruéis” ( CF, Art. 5º, XLVII, “e”).



Não foram poucos os revoltados nas redes sociais dizendo que no Brasil, o trabalhador passa fome, tem necessidade, trabalha duro, enquanto o bandido tem direito a danos morais. Fora isso, os comentários de que bandidos têm que sofrer mesmo, passar fome, e até ser torturado, se for preciso.

Entretanto, constitucionalmente, a coisa não é bem assim. Uma vez que o Estado tem o preso sob sua custódia, também tem o dever de zelar, no que lhe couber, ao bem estar do condenado. A nossa constituição é clara no sentido de que a nossa pena mais severa é a de privação ou restrição da liberdade. E só. Não esta associada a essa pena a permanência em uma situação degradante. Estar em uma cela com o triplo, ou o quádruplo da capacidade não faz parte da pena. Ter que fazer turno para ver quem irá se deitar na mesma cela, não faz parte da pena. Ser espancado, outras vezes violentado por seus pares, ou mesmo morto, não faz parte também. A lei é clara no sentido de que os requisitos de uma unidade celular devem ser salubres (Art. 88 da Lei de Execução Penal). Um dos aspectos da civilidade de um país é o modo como trata seus piores cidadãos, por assim dizer. Em tese, se um país tratar com dignidade os seus condenados, também terá o dever moral de assim o fazer com toda a população de modo geral. Entretanto, no Brasil, todos são tratados com indignidade, pois vivemos um estado de coisas inconstitucional referente a toda essa questão. O modo como tratamos nossos condenados é a manifestação do descaso existente para com toda a população, de modo geral.


A única coisa discutível é o quantitativo do dano moral que foi fixado pelo STF, em decisão majoritária. Dois mil para o preso que estiver em condições ruins. Houve outra proposta, no sentido de ser proporcional ao tempo em que o preso viver em condições insalubres. Parece ser mais lógico, a meu ver, pois dar o mesmo valor para quem ficou um ano ou dez em tais condições não me parece fazer muito sentido. Outra proposta era de uma redução de pena proporcional ao tempo em que o preso estiver em situação degradante. A vantagem dessa situação é que não oneraria ainda mais os cofres públicos. O duro é que, tendo em vista a situação dos presídios brasileiros, provavelmente não faltarão ações para discutirem tais danos morais. De qualquer modo, que fique claro: isso está muito longe de resolver o problema carcerário brasileiro.

Dano moral para presos em situação degradante

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Meritocracia - ter ou não ter, eis a questão

A discussão acerca da meritocracia ser algo bom ou ruim voltou a bombar nas redes sociais após a aprovação de uma jovem, negra, e humilde, em primeiro lugar em um concurso público neste país.

Pedindo ajuda ao Wikipédia, há o seguinte conceito para tal termo:

Meritocracia (do latim meritum, "mérito" e do sufixo grego antigo κρατία (-cracía), "poder")[1]é um sistema de gestão que considera o mérito como a razão principal para se atingir posições de topo. Segundo a meritocracia, as posições hierárquicas devem ser conquistadas com base no merecimento, considerando valores como educaçãomoral e aptidão específica para determinada atividade. Constitui-se numa forma ou método de seleção e, num sentido mais amplo, pode ser considerada uma ideologia governativa.
A meritocracia está associada, por exemplo, ao estado burocrático, sendo a forma pela qual os funcionários estatais são selecionados para seus postos de acordo com sua capacidade (através de concursos, por exemplo). Ou ainda – associação mais comum – aos exames de ingresso ou avaliação nas escolas, nos quais não há discriminação entre os alunos quanto ao conteúdo das perguntas ou temas propostos. Assim, meritocracia também indica posições ou colocações conseguidas por mérito pessoal.

Bom. Me parece que estar em determinada posição, não por descendência sanguínea, nem por casta, dinheiro, ou algo do tipo, mas sim pelo esforço pessoal, parece algo lógico e necessário em uma sociedade não estamental e democrática. Seria ruim saber que se perdeu uma chance por conta de alguém ser parente do rei ou coisas do tipo... e tendo em vista a quantidade de cargos comissionados no Brasil, acho que precisamos de mais mérito, enfim...

Ocorre que a dita menina tem um posicionamento mais à esquerda. E para esse grupo, o termo meritocracia é um pecado, uma palavra sob anátema, por isso, ela logo veio a público dizendo que não tem mérito. A esquerda bate na tecla de que meritocracia é um conceito equivocado porque as pessoas não concorrem na sociedade sob igualdade de condições.

De certa forma, essa percepção não está equivocada. De fato, com melhores condições para todos, é menos difícil concorrer (pensando na sociedade como um todo).

De qualquer modo, vamos pensar na situação dessa menina que passou em primeiro lugar no concurso para medicina. Certamente, ela é tão socialmente humilde como milhares iguais a ela. Ela também, muito provavelmente, e conforme depoimento, estudou muito, e muito mais do que a imensa maioria das garotas em situações similares à dela. Ela recebeu apoio para isso? Claro que recebeu, dos familiares, amigos, professores (e, se eu não estiver enganado, mesmo por um programa social da própria USP que lhe concede pontos extras a alunos que sempre estudaram em colégios públicos e que tiveram uma nota mínima no vestibular). Mas há muitos que recebem e não aproveitam. E não adianta receber todo o apoio do mundo e não estudar. Portanto, em uma singela perspectiva meritocrática, essa menina tem mérito, e muito mérito (no bom sentido, para não escandalizar os mais sensíveis), pois superou em muito pessoas que saíram muito a frente dela nessa corrida. Se quiser, podemos trocar pelo termo "esforçocracia".

Portanto, não se deve, creio eu, retirar a questão do mérito em si na sociedade, pois isso seria fazer sucumbir a ideia de esforço pessoal. E ainda bem, penso eu, que vivemos um sistema que, mesmo que de forma muito difícil, permite alguma forma de mobilidade social. Por outro lado, também devemos nos movimentar no sentido de melhorar as condições para que todos possam concorrer em um sentido menos desigual. São conceitos que não precisam estar necessariamente polarizados.

Agora, só para terminar, é preciso perceber que aquilo que o povo da esquerda ataca chamando de meritocracia, e que é defendido pelos conservadores, não é o conceito defendido por aqueles que preferem uma economia de mercado livre, mas isso seria assunto para outro texto.




quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A militarização da sociedade é a solução para o problema da violência?

Eu tenho ouvido de muitas pessoas um desejo por uma maior militarização, aumento de autoridade, combate radical ao crime, e gritos de ordem no que se refere à punição de bandidos e coisas do tipo.

E de fato, a autoridade é necessária. Quando se chega ao fundo do poço da degradação moral, somente o temor pela vida pode fazer talvez com que alguém abandone o crime. A falta de punição dá ousadia aos maus.

Entretanto, é preciso entender que isso, por si só, não resolve de modo algum a questão social. Veja. Ser pobre e miserável não dá a ninguém o direito de ser um delinquente. E a grande maioria dos pobres não o é. Entretanto, um ambiente em que não há educação de qualidade, saúde, lazer, e amor, torna mais propício que uma parcela da população se torne mais vulnerável ao crime, principalmente quando as armas, as drogas, o sexo, a violência, estão ali, tão perto.

Basta olhar para os países com melhor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do planeta e ver o seu índice de criminalidade que perceberemos como as duas coisas estão bastante interligadas.

Portanto, não é um olhar ao passado, a alguma espécie de “paraíso militar” que irá resolver a situação. Precisamos olhar para o que parece ter dado mais certo (ou menos errado), que, a meu ver, são sociedades que melhor resolveram sua questão social, e nem por isso se tornaram ditaduras. Sociedades que forneceram educação, saúde, uma  melhor qualidade de vida aos seus habitantes e que trata com dignidade até seus piores cidadãos. Creio que isso está para além da esquerda ou da direita, ou pode ser uma síntese dos dois, conjugando livre mercado com bem estar social. Agora, o que não podemos sucumbir ao autoritarismo e às soluções supostamente fáceis (ou menos difíceis), pois isso efetivamente não resolveria o problema.

No mais, que Deus nos ajude a construir uma sociedade menos injusta e mais solidária. 



terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Deve existir um local sagrado para os evangélicos?

Recentemente houve uma polêmica em um município de Santarém, referente a realização do carnaval em um local conhecido como “Praça da Bíblia”.

Cuida-se de uma localidade em que aparentemente são realizados cultos evangélicos, e talvez outras atividades que o Conselho de Pastores local denominou de culturais.

Se as publicações que relataram o assunto forem fidedignas, cuida-se de um local em que os evangélicos consideram sagrado, de modo que os pastores locais protestaram contra a realização da festa carnavalesca naquela localidade.

Particularmente, não tenho o condão de desrespeitar eventuais sentimentos das pessoas envolvidas, mormente porque, ao que parece, se entendi direito, o povo evangélico ajudou a reformar a dita praça. Entretanto, não me parece lógico, do ponto de vista do nosso atual modelo jurídico e político, separar um local público e proibir atividades que não sejam de cunho de determinada religião. Existe um sistema jurídico em que entidades privadas, após as devidas providências diante da prefeitura, poderão utilizar do espaço público para fins pacíficos.

Por outro lado, mesmo no aspecto teológico, tenho minhas dúvidas se para o protestantismo determinados lugares podem ser considerados sagrados. O movimento protestante foi um dos mais radicais no que se refere à dessacralização do mundo. Ou seja, não há mais templos sagrados (e sim locais de culto), nem homens sagrados acima de outros (todos são), nem imagens sacras, ou coisas do tipo. Nem a Bíblia Sagrada tem alguma importância enquanto capa de couro e folhas de papel.

Por isso, tentar separar um local público sob essa perspectiva de sua suposta sacralidade me parece carecer de sentido, tanto político quanto teológico, com o devido respeito dos que pensarem ao contrário.


Polêmicas em torno do carnaval a ser realizado na Praça da Bíblia

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Smartphones deveriam ser produzidos pelo Estado?

É comum, no metrô, trens, ruas, pontos de ônibus, ver as pessoas carregando seus telefones celulares. São pessoas de todos os níveis sociais. Mesmo as mais humildes conseguem ter o seu aparelho (ainda que não seja tão barato assim).

Agora, imagine se o estado começasse a produzir "smartphones", e considerasse a posse de tal aparelho como um direito de cada cidadão. Ou seja, o estado passaria a utilizar parte da sua receita para produzir o dito aparelho um para cada um de nós. 

O aparelho teria que ser igual para todos, pois não poderia violar o princípio da isonomia (igualdade), a não ser que diferenciasse por idade, atividade, coisas do tipo.

É muito provável que parte da população não viria a se contentar com tal aparelho fornecido pelo estado, e quisesse um de melhor qualidade, tendo que se socorrer da iniciativa privada.

Diante de tal quadro, as empresas privadas que produzissem tal tipo de aparelho teriam que fazer com uma qualidade melhor que os produzidos pelo Estado para atrair o interesse do consumidor. Isso provavelmente iria encarecer o produto, ainda mais levando-se em consideração que a empresa privada estaria concorrendo com o Estado, que, estaria oferecendo o mesmo produto "gratuitamente".

E aí, aqueles que comprassem os "smartphones" privados, estariam pagando duas vezes. Tanto o valor pelos aparelhos que adquiriram da iniciativa privada (um valor bem alto, provavelmente), bem como pagando impostos (ou taxas, enfim) para que o estado produzisse o aparelho estatal.

Pensando por um momento, será que não é algo parecido que acontece com tudo o mais em que o estado acaba querendo bancar (pelo menos na realidade brasileira)? Com a saúde, a educação, a previdência social, etc? Quem não se contenta com um serviço oferecido pelo estado, não acaba buscando o mesmo serviço na iniciativa privada? E, por conta disso, não acaba pagando o mesmo serviço duas vezes, por assim dizer?

Alguém poderia dizer: mas se o estado não fizer, muita gente ia acabar ficando sem. Entendo tal preocupação.  Acho que esse é o cerne da questão. Ou seja, se o estado não prestar determinados serviços sociais, será que boa parte da população ficaria sem conseguir os mesmos serviços da iniciativa privada? Se a resposta for negativa, de fato, precisaremos sempre tentar sustentar um estado de bem estar social, mesmo que parte da população continue pagando por serviços que não usufrua (pelo menos não diretamente), a não ser que a qualidade de tais serviços melhore a ponto de ninguém precisar se socorrer da iniciativa privada. Se a resposta for positiva, ou seja, se de fato, tais serviços forem melhor oferecidos e de maneira mais barata pela iniciativa privada, os liberais capitalistas estão com a razão, de modo que temos de fato que diminuir o estado para um maior benefício social.


That's the question!

E aí? O Estado deve ou não produzir smartphones para toda a população?



segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A tributação das igrejas

Historicamente, as igrejas construíram creches, escolas, orfanatos, universidades, hospitais, entre outras entidades de benefício social.

São religiosos que abrem, em boa parte, casas de acolhimento para ajudar viciados, moradores de rua, entre outras situações.

São também as pequenas igrejas que se encontram na periferia, frente a frente, com a situação dos mais marginalizados da sociedade. A grande maioria dos membros das igrejas é composta de pessoas humildes. No convívio eclesiástico pessoas são ajudadas em seus embates sociais, e isso entra muito pouco nas estatísticas e contabilidades oficiais.

Por conta dessas e outras evidências, ninguém parecia questionar muito a questão da isenção tributária das religiões, enquanto entidades de interesse social. Entretanto, após notícias em série de “espetaculações” da fé, enriquecimento desmedido de determinados líderes, um grupo declarado de ateus, de maneira bem inteligente e convincente (muito provavelmente mais à esquerda do espectro político, pois se fossem liberais não fariam uma proposta dessas – a não ser que estejam de muita má-fé) propõe que as igrejas sejam tributadas. E muitos pastores de respeito também apoiam a medida, por uma questão de justiça social (pastores geralmente mais à esquerda do espectro político).

Particularmente, entendo que há muito pouca justiça na tributação coercitiva promovida pelo Estado. IPTU, ICMS, ISS, IR, Cofins, etc. todo membro de igreja já recolhe tais impostos, impostos a todos os cidadãos. Entendo que o agigantamento desmedido do estado tende a levar a uma diminuição das liberdades individuais e aumenta a burocracia, o desperdício, a corrupção, entre outros males (pelo menos no Brasil, isso é patente).

Entendo que tal medida prejudicará principalmente as igrejas pequenas, e a maioria das igrejas históricas, além de muitas outras religiões, que irão preferir ficar na informalidade. As demais contam com um batalhão de advogados, contadores, etc. 

Esses líderes que se enriquecem desmedidamente deveriam ser de algum modo tributados, fiscalizados, e que suas igrejas prestassem contas de todos os valores que entram e saem a seus membros, que estes tenham poder de voto nas assembleias, como ocorre nas igrejas históricas, e que de quebra, possuem muito menos escândalos, e quando ocorrem, em muito menor escala. Tais líderes realmente merecem uma campanha publicitária negativa dos que com eles não concordam e o povo precisa aprender, nem que for às duras penas, a não ser explorado por esse tipo de charlatão. Mas se ainda assim, preferirem aderir a tal forma de religião, é o preço que pagamos por manter a liberdade na sociedade.

De qualquer modo, tenho a sensação de que não demora para tal proposta passar em um futuro não distante (até mesmo porque, religiosos praticantes costumam ser menos engajados politicamente). Parece haver uma mentalidade social mais no sentido de que se “eu estou pagando”, o “outro tem que pagar também”. Se tal proposta passar, preparemo-nos para burocratizar um pouco mais nossas pequenas comunidades eclesiásticas, ou optar por viver na clandestinidade, que já tem sido o caminho de muitos em nossa sociedade, em qualquer segmento social.



sexta-feira, 25 de novembro de 2016

O dia da mulher evangélica

O governador Geraldo Alckmin sancionou o dia da Mulher Cristã Evangélica no Estado (sim, no estado todo) de São Paulo. A autoria do projeto de lei foi do deputado Adilson Rossi (PSB).

Não vai virar feriado. É uma homenagem em reconhecimento da importância das mulheres evangélicas para a família, igreja e sociedade. É claro que reconheço tal importância, entretanto, penso em alguns motivos para que não existisse esse tipo de lei:

1 – Se criarmos o dia da mulher evangélica, o que impede de criarmos o dia da mulher católica, budista, espírita, muçulmana, ateia, agnóstica, entre outras? Porque diferenciar um tipo das demais? TODA e QUALQUER mulher, que for boa cidadã, tem incalculável importância para a sociedade, enfim.

2 – Mais uma vez a mistura da religião com a laicidade do estado, que a meu ver, deve ser evitada. Existem inúmeras religiões hoje. Iremos criar uma lei para cada qual?

3 – Acredito que isso possa ofender um pouco o sentimento das minorias. Se eu fosse um evangélico em um país muçulmano, não sei se iria me sentir muito confortável com o dia da mulher muçulmana. E também acharia bobagem brigar para ter o direito a tal coisa.

4 – O governador faz lei para todos. Porque toda a sociedade tem que homenagear um determinado seguimento social? Quem tem que reconhecer a importância da mulher evangélica, todos os dias, é o seu marido, filhos, família, etc. A sociedade reconhece bons ou maus cidadãos.

5 – Mais uma vez, a política se imiscui na igreja, entre os evangélicos, podendo se tornar manipulação. Claro, criar um dia desses e sancionar, certamente deve ter lá seus interesses políticos.

6 – Aumenta o descrédito dos políticos e da política, pois convenhamos isso não muda a vida dos governados. As pessoas podem pensar coisas do tipo: “não tinha nada mais importante para fazer não”? E aí a coisa fica meio banalizada, enfim.

7 – Eu particularmente não acho um bom testemunho evangélico para a sociedade. A ideia básica que os demais passam a ter é que os evangélicos assumem o poder, de modo geral, para defender os seus próprios interesses.

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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O conflito católico/protestante pode ser considerado sempre ruim para o cristianismo?

Não temos dúvida de que guerras por motivos religiosos sempre trazem um grande flagelo, como a conhecida guerra dos trinta anos (que não era, diga-se de passagem, somente religiosa).

Após a Reforma Protestante, e os conflitos que daí se seguiram, a maior parte dos países se dividiu também religiosamente, entre católicos e protestantes.

Séculos depois de tais acontecimentos, seguiu-se um grande esfriamento da religião. Por exemplo, ninguém pode negar que a religião católica na Espanha, Portugal, França e Itália está em franco processo de decadência. Também na Inglaterra, Holanda, países nórdicos, predominantemente protestantes em sua história, as igrejas estão fechando as portas.

Qual seria o motivo de tanto esfriamento da religião na Europa?

Claro que, em um primeiro momento, os livros irão nos ensinar que, após o renascimento, reforma e iluminismo, o velho continente entrou em um processo de laicização impossível de retroceder.

Entretanto, gostaria de acrescentar um item que pode contribuir para essa questão.

Todos esses países europeus, em maior ou menor grau, mantiveram uma religião oficial em seus territórios, seja católica ou protestante.

Isso fez, a meu ver, com que a religião “descansasse” na proteção estatal. Algumas dessas igrejas até recebem dinheiro diretamente do Estado, por via de impostos.

Talvez não tenha havido (ou houve muito pouca) dialética, competição religiosa.

Isso talvez tenha feito com que a religião esfriasse. Havia uma primeira geração de crentes fiéis, mas depois cada qual se acostumava com sua própria tradição, até que o fervor religioso se esfriava totalmente.

Entretanto, naqueles locais em que protestantes e católicos conviveram e disputaram, parece não ter sido assim. Vejamos o exemplo norte americano. Naquele país, cada religião teve sua própria oportunidade de florescer, caminhar com suas próprias pernas, sem ajuda predominantemente do Estado. Parece-me que por isso, naquele país predominantemente protestante, a igreja católica seja tão poderosa, e a igreja ortodoxa seja também bastante pulsante. O Brasil e a América Latina de modo geral seguem o mesmo exemplo atualmente.


Isso me faz pensar que um ambiente pacificamente laico que permita certa dialética e disputa religiosa é bom inclusive para as igrejas. Isso não significa que a religião terá a mesma “glória” do passado (se é que aquilo poderia ser chamado de glória. Particularmente, entendo, por exemplo, que os últimos papas dos meados do século XX para cá são muito mais respeitáveis do que seus antecessores medievais). Fato é que, a liberdade parece trazer benefícios para todos.

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Lidando com o argumento "ad hominem"


Fonte: Vida Cristã

Digamos que um ateu e um crente estejam empreendendo a seguinte discussão:

Ateu: particularmente, entendo que não há bases sólidas para se crer em Deus. Não é possível provar empiricamente a sua existência. O ônus da prova cabe a quem alega.

Crente: você não passa de um incrédulo, irracional, bobalhão!

Ou então, o contrário:

Crente: particularmente, entendo que há mais bases para crer do que para ser incrédulo. Primeiramente, precisamos verificar que nada surgiu do nada nesse mundo. Tudo é derivado de uma causa primeira.

Ateu: você não passa de um cego, que tenta impor sua cegueira para todo o mundo! Fanático!

Ou então uma conversa de cunho mais político entre o João e o Marquinho:

João: sou favorável a um estado mais interventor, a fim de que possa socorrer aqueles que são materialmente desprovidos.

Marquinho: seu petralha, comunista!

E assim sucessivamente...

O que podemos notar em comum em todos esses diálogos? É que o segundo dialogante não debate a ideia do primeiro, e sim faz um ataque à sua pessoa.

Esse é o famoso argumento “ad hominem”, em que se desvia do assunto para atacar a pessoa.

Como lidar com esse tipo de argumento?

Dou uma sugestão.

Na primeira vez que te xingarem, você não revida, e procura mostrar educadamente para a pessoa que não é você que está em discussão, mas sim o assunto abordado.

Se ainda assim persistir, se tal pessoa continuar ofendendo você, sugiro que você bloquei o perfil dela. “Se afaste”, por assim dizer.

Entretanto, se já da primeira vez a pessoa te atacar com grosseria e radicalidade, talvez seja melhor romper ali mesmo. Não será de grande valia manter o contato com alguém que já parte para as ofensas pessoais assim logo de cara, sem te conhecer. Se ela faz assim em um primeiro contato, o que poderia fazer depois? Geralmente esse tipo de conversa não leva a lugar algum. Ao servo do Senhor não convém contender, mas ser apto para ensinar, brando para com todos e paciente.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A fidelidade de Deus na vida do patriarca Abraão



O texto nos narra o chamado de Abrão, sua peregrinação e desvio para o Egito, quando mente, entregando sua mulher para Faraó, a fim de preservar a sua própria vida. Quais lições podemos aprender com esse texto?


1 – O chamado de Abrão foi um chamado para a renúncia: lhe foi dito que deixasse sua terra, sua parentela e a casa de seus pais, e que fosse para uma terra que lhe seria anunciada. Assim também, na vida cristã, somos chamados a renunciar a tudo o quanto temos para seguir o Mestre (Lc 14.33). Muitas vezes o chamado envolve realmente em deixar fisicamente muitas coisas para trás. Mas na maioria das vezes, realmente é uma questão de mudança de prioridades. Nossa prioridade agora é a vontade de Deus para nossas vidas.

2 – O servo chamado de Deus deve construir altares em sua caminhada. Abrão construía altares por onde quer que passava (vers. 7,8). Assim também, em nossa caminhada, procuramos estabelecer momentos de comunhão e intimidade com Deus. Não precisamos mais construir altares, como naqueles tempos, pois o nosso Sumo Sacerdote está no céu, e é Jesus. Mas precisamos, simbolicamente, construirmos momentos sagrados em que oramos e damos ações de graças a Deus. Abrão deixava um rastro de adoração por onde passava. Assim tem que ser também em nossa caminhada.

3 – Diante de situações difíceis, cuidado para não buscar soluções que podem colocar em risco sua vocação. Diante de um quadro de fome, Abrão decidiu ir para o Egito e pediu para Sarai mentir, dizendo que era sua irmã, a fim de que não fosse morto. Interessante que aqui notamos pouca fé naquele que se tornou o pai da fé. Deus já havia aparecido para ele em algumas ocasiões, e mesmo assim, Abrão preferiu acreditar em suas próprias decisões. O Egito é um símbolo do mundanismo, nas Escrituras. E Abrão entrega sua mulher, que seria justamente a depositária da promessa que haviam recebido, de que sua descendência seria grande na terra. Abrão entregou para o Egito aquela que seria essencial para sua vocação. Séculos mais tarde, Jesus de Nazaré, após quarenta dias de jejum, teve fome, e foi tentado a transformar pedras em pão. Jesus ficou com as pedras. Abrão preferiu pão. Perceba ainda que, enquanto estava no Egito, Deus não apareceu nenhuma vez para ele, e lá, também não construiu nenhum altar.

4 - Quando um servo de Deus se desvia de seu chamado, corre o risco de deixar de ser uma benção e passar a ser maldição. Deus havia dito a Abrão: “sê tu uma benção” (vers. 2). Mas durante a estadia do patriarca na casa de Faraó, esse foi amaldiçoado. Lembra um pouco a história de Jonas, quando leva tempestade para um navio enquanto fugia de seu chamado. Tão diferente será a postura de José, anos depois, em que abençoa todo o Egito. Assim também cada um de nós, enquanto em fidelidade a Deus, temos que ser benção na vida das pessoas ao nosso redor.


5 – Mesmo diante de erros cometidos por Abrão, Deus não o abandona. O Senhor puniu a casa de Faraó, e esse acaba libertando Abrão, mas não sem antes lhe dar uma bela lição de moral. Ora, um servo de Deus, quando longe de seu chamado, leva lição de moral até do ímpio. Mas Deus, por fidelidade primeiramente a Si, bem como ao propósito que estabeleceu, por sua soberania, na vida de Abrão, o liberta, a fim de que ele possa continuar a sua caminhada. Deus é sobremodo misericordioso e bom. Mesmo quando erramos, ele não desiste de nós. Claro, é sempre melhor não abusar. Mas podemos confiar na bondade divina!


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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O vício em álcool e a liberação das drogas

Há muitas pessoas que defendem, com algum grau de sensatez, a liberação das drogas.

E há motivos para isso, sendo talvez o maior deles o fato de que, em havendo a liberação, a violência decorrente do tráfico irá acabar (por exemplo, as máfias norte-americanas surgiram quando por lá proibiram o comércio de bebidas alcoólicas).

Entretanto, me ocorreu um pensamento, acerca de uma eventual liberação. Algo não fundamentado cientificamente (que eu saiba).

Em nossa atividade eclesial, não é incomum nos depararmos com pessoas que têm determinados vícios na vida, notadamente o álcool. Hoje em dia, ouso dizer, todas as famílias possuem alguém próximo com tal vício. E o álcool é uma droga liberada, sabemos todos, com efeitos devastadores quando não o vicio não é moderado.

Ocorre que, geralmente, pessoas viciadas em álcool dificilmente aceitam que precisam de ajuda.

Demora muito para “cair a ficha”. Presenciei pessoas perderem a vida por conta deste vício, mas sem jamais admitirem a necessidade de ajuda. Ou então, primeiramente, elas perdem tudo, família, emprego, para caírem em si. E muitas vezes, nem assim.

Entretanto, quando uma pessoa é viciada em crack, cocaína, ou algo do tipo, parece que mais rapidamente ela admite que tem um vício. Não que o tal automaticamente vá pedir ajuda. Ela somente admite que é viciada. Mas talvez a diferença não seja pequena, pois, admitir um problema pode ser o início de sua resolução.

A minha dúvida é: será que pelo fato do álcool ser uma droga liberada, leva a este efeito psicológico na vida das pessoas, no sentido delas terem mais dificuldade de admitirem que são viciadas? E se for realmente assim, será que uma eventual liberação das demais drogas não pode causar um efeito similar?

O vício em álcool e a legalidade
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