sábado, 25 de agosto de 2018

Como escolher um texto para pregação?

Houve um tempo em que eu era convidado de vez em quando para pregar na igreja em que congregava, ou na igreja de algum conhecido. Não era tão difícil escolher um tema de antemão. Geralmente era algum que já tinha alguma afinidade, que já tinha meditado algum tempo.
Entretanto, quando a gente assume uma comunidade, a coisa não é tão simples. Isso porque, não dá para ficar pregando somente nas passagens favoritas domingo após domingo.
Bem que eu queria que depois de algum tempo de oração, já viesse um tema na minha cabeça, com a passagem bíblica, esboço e tudo mais! Mas não é assim que funciona, infelizmente (pelo menos, não para mim)!
Assim sendo, tem que existir algum método para escolhermos o texto!
Quem faz parte de uma igreja que segue algum tipo de calendário de leituras, não terá esse problema. A igreja católica, luterana, anglicana, e outras tradicionais já têm prescritas as passagens que devem ser lidas. O padre ou reverendo só terá que ter o trabalho de preparar o sermão de acordo com a leitura do dia! Há outras igrejas neopentecostais que os bispos já anunciam de antemão quais devem ser os temas.
No meu caso, sou de uma igreja independente, não denominacional. Assim sendo, temos a liberdade de escolher o que queremos falar.
Assim sendo, eu recomendo aos pastores que se encontram nessa situação que escolham um livro das Escrituras Sagradas, e preguem sequencialmente, de preferência, nos domingos, os evangelhos. Do começo ao fim, afinal, para isso foram escritos!
Se fizerem assim, não terão a tensão de ter que ficar escolhendo um texto aleatórios todas as semanas! Além do que, haverá um senso de continuidade que fará bem tanto para a congregação quanto para o pregador.
Outra vantagem, é que o pregador é obrigado a enfrentar passagens que provavelmente não escolheria por vontade própria. Ele terá que enfrentar todos os assuntos daquele livro.
Um outro método que outros têm usado é escolherem determinadas temáticas para serem meditadas durante um espaço de tempo, que pode ser de um ou dois meses. Acho bacana também. Já cheguei a fazer uma série de sermões sobre as bem aventuranças.
Enfim, o que eu não recomendo é não ter nenhum método, e ficar estressando semana após semana, em qual texto irá pregar. Ainda mais se tiver um emprego secular, como eu, e não dispôr de muito tempo.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

São João Crisóstomo e seu pensamento sobre as riquezas


João Crisóstomo sobre as riquezas


"Diz-me de onde vem tua riqueza? De quem a recebeste? E aquele de quem ele a herdou? Do avô, dir-se-à, do pai. Será que poderias, remontando às gerações, provar que esta posse é justa? Não poderias comprová-lo porque sua origem e raiz estão necessariamente associadas a uma injustiça qualquer. Por quê? Porque Deus, no começo, não criou, de um lado, ricos, e do outro, pobres... Ele deu a mesma terra a todos. Como é que se explica que, sendo a terra comum a todos, tu possuis uma tão grande quantidade de hectares, enquanto seu vizinho nem sequer possui um punhado? 'Foi meu pai', dizes tu, 'que me transmitiu tudo isso'. - E ele, de quem recebeu esta terra? -'De seus antepassados'. Mas se recuar bem atrás, vamos encontrar necessariamente a origem....


Quando alguém tenta apoderar-se de um bem para torná-lo seu, então, surgem as brigas, como se a própria natureza se indignasse pelo fato de que - enquanto Deus nos reúne os homens de toda a parte - nós nos dividimos por conta de nossas rivalidades, dilaceramo-nos por nossa necessidade de apropriação, reivindicando o teu e o meu - que são palavras congeladas. Neste caso, trata-se de hostilidade e aversão; mas,sem isso, deixa de haver hostilidade e rivalidade. Assim, é sobretudo, este estado de indivisão e não o outro que nos é hereditário, conforme a natureza...


Como é que o rico poderá ser bom? Isso é impossível; somos bons quando compartilhamos com os outros; somos bons quando nada detemos em nossa posse; somos bons quando damos aos outros; com efeito, enquanto detivermos a posse de alguma coisa, não poderemos ser bons".

(sobre a 1ª Epístola a Timóteo - Homilia 12, 4; PG 62, 562-564, apud LELOUP, Yean-Yves. Introdução aos Verdadeiros Filósofos. Ed. Vozes, p. 115-116).


O pensamento patrístico acerca das riquezas é bastante radical. Crisóstomo não parece admitir nenhuma possibilidade em ser rico e ser bom, ou justo. Entende que a raiz de toda a riqueza, em algum momento, irá remontar a algum ato injusto. Particularmente, entendo que podem existir exceções (ainda que raras), e que nem toda riqueza é de origem injusta, embora grande parte das vezes seja. De qualquer modo, o pensamento do grande bispo de Constantinopla serve de exortação para evitar todo acúmulo desmedido e estarmos sempre atentos com a questão do partilhar dos bens.

domingo, 29 de julho de 2018

Do cristianismo ao ateísmo




Há boas chances do ateísmo moderno ser uma espécie de descendente, ou até mesmo de um produto da religião judaico cristã, principalmente do seu aspecto protestante, visto que foi em meio a esta cultura que ganhou maior força e estrutura. Provavelmente possa ter existido na Antiguidade pessoas que não tenham acreditado na existência de um ser superior, entretanto, salvo melhor juízo, não há nada documentado neste sentido.

Existem religiões milenares no oriente, como o budismo e o confucionismo, entretanto, nunca se houve notícia de que tais religiões ou formas de pensamento tenham gerado alguém ou um grupo de pessoas que atacassem diretamente as formas do pensar religioso e negassem radicalmente a existência de Deus (ou de deuses) e das realidades espirituais.

Também na filosofia grega não se tem notícia de algum filosofo ou pensador que tenha negado a existência da divindade, mesmo nas mais gloriosas elucubrações “científicas” do gênio grego. Nem Epicuro, que herdou o atomismo de Demócrito, e que ensinava um certo distanciamento dos deuses em relação aos homens, e cujo pensamento foi objeto dos primeiros estudos filosóficos de Marx, negava a existência de Deus. Sócrates também, apesar de ter contra si a acusação de ateísmo, de forma alguma negava a existência de Deus. Na verdade, sempre quando algum filósofo tinha contra si tal acusação, era justamente por combater certas superstições existentes na sociedade de seu tempo e por ensinarem um tipo que consideravam superior de espiritualidade.

Também não temos notícia, pelo menos até o presente momento, se o islamismo, a outra religião monoteísta por excelência, tenha produzido alguma forma de ateísmo sistemático. É provável que não, apesar de não ser totalmente impossível que tenha existido um ateu de origem islâmica aqui ou acolá. Se existiu, tal provavelmente possa ter se dado pelo contato com a cultura européia, mas não como fruto da própria religião em si. Alguém pode argumentar que o fato do Islã ser majoritariamente fundamentalista, não haver liberdade para que exista alguém que chegue a tal reflexão. Entretanto, mesmo nos períodos mais ativos de opressão cristã (quando esta ainda tinha o poder coativo jurídico para condenar os hereges inclusive a morte), já existiam vozes que se levantavam do seio do cristianismo para propor a aniquilação completa da idéia da existência de Deus. É interessante notar que o primeiro ateísmo sistemático e argumentativo parte justamente da pena de um padre. Seu nome era Jean Meslier (1664-1729), e se destacou por ser o primeiro a expor sistematicamente uma linha de argumentos em favor da inexistência de Deus e da falsidade da fé judaico-cristã. Enfatiza o fato da igreja cristã a séculos fazer orações para o fim da miséria, da heresia, da dor, e nunca conseguir o resultado almejado, apesar de na Bíblia haver promessa no sentido de que a oração do crente é sempre atendida. Enfatiza também o fato de as principais promessas das Escrituras nunca são cumpridas. Ataca a religião institucionalizada por perpetuar a miséria e a exploração. Movimentos populares, como jacobinos, comunistas, operários e comunistas chegaram a utilizar os textos deste padre em sua causa revolucionária[1].

Alguns podem querer argumentar que o ateísmo na verdade tem como ponto de partida o desenvolvimento das ciências e não uma reação a alguma espécie de religião. Não parece ser isso que a história tenda a demonstrar. A ciência moderna como tal tende a ser mais positiva, ou seja, não teve o condão e o objetivo de negar a existência de Deus, mas parece sim ter sido usada com tal ou qual propósito por pessoas que de alguma forma assumiram tal ou qual posição ideológica. De qualquer modo, estamos trabalhando com hipóteses e não com proposições absolutas, o que mantém esta discussão extremamente aberta para a solução das questões que aqui se propõem. Portanto, analisemos sucintamente os principais expoentes do pensamento ateu moderno para que possamos, talvez daí, tiramos alguma conclusão.

O ateísmo moderno está fundamentado na vida e obra de, pelo menos quatro autores principais. São eles Ludwig Feuerbech (1804-1872), Karl Marx (1818-1883), Sigmund Freud (1856-1939)
e Friedrich Wihelm Nietzsche (1844-1900).

Interessante notarmos que a maioria destes autores (talvez até mesmo todos, tendo em vista as diversas biografias a seu respeito) teve estreitas ligações com a religião judaico-cristã.

Feuerbach por exemplo, queria se tornar pastor luterano. Estudou teologia em Heidelberg. Foi discípulo de Hegel (outra personalidade que talvez tenha que ser incluída em um estudo mais profundo das origens do ateísmo moderno). Entretanto, em determinado momento optou pela filosofia, e passou a declarar que, em realidade, a essência de Deus não passava da essência do próprio homem, e que, as virtudes deste na verdade eram projetadas para a idéia da existência de um ser superior. Alguns dizem que Feuerbach é um tipo de “João Batista” do ateísmo, pois “preparou o caminho” para os outros três. Para ele, o homem deve parar de projetar-se a si mesmo na divindade, e deve amar ao próximo sem a necessidade de um intermediário (Deus) e só é completo em relação estreita com toda a humanidade. Toda a teologia não passa de antropologia, e, para que o homem não seja mais um alienado de suas mais gloriosas virtudes, deve abolir a religião deísta, e substituí-la por uma espécie de religião humanista.

Karl Marx tem raízes no judaísmo e no cristianismo. Se pai era advogado, e também o jovem Marx foi obrigado a iniciar os seus estudos em Direito, optando posteriormente para o curso de Filosofia. Era de uma família de judeus, mas que, de acordo com algumas biografias a seu respeito, sua família, para que pudesse ter maior prestígio social, converte-se ao cristianismo protestante da Alemanha. Ou seja, Marx tem desde cedo uma experiência bastante pragmática da religião. Não faltam vozes que afirmam que Marx de fato chegou a sinceramente chegou a, em algum momento de sua existência crer na religião judaico-cristã. De qualquer modo, o seu ateísmo também faz uma oposição sistemática a religião, principalmente a judaico-cristã, chegando a acusa-la de ópio do povo, e de que também esta religião não passava de um reflexo, de um aspecto da superestrutura fundamentada em uma base econômica que, de certa forma, determina o modo de ser da sociedade. Marx também teve o seu pensamento influenciado por Hegel, pegando dele o método dialético, mas, ao contrário do idealismo hegeliano, o que movimenta a existência não é a Idéia em si, mas sim os modos concretos de sobrevivência do gênero humano, daí Marx ser um materialista, e não um idealista[2]. Quando da instauração da sociedade comunista, as causas que deram origem ao pensamento religioso estarão vencidas, e portanto, a religião estará superada.

Freud foi criado em meio a uma família judaica ortodoxa, recebendo dela a sua educação. A religião judaica, como sabemos, pela dependência das Escrituras assume uma forma consciente e racional de investigação dos textos sagrados. Dizem alguns que, em sua infância, Freud teve algumas experiências negativas em relação à religião, visto que, havia um certo anti-semitismo por parte dos cristãos da Moravia, local em que cresceu. Há relatos no sentido de que Freud nunca expressou alguma fé em Deus ou na imortalidade da alma; entretanto, suas obras tratam do assunto religioso do começo ao fim de sua carreira, o que o torna, de certa forma, dependente da religião, e talvez até um produto dela. Na mesma esteira de pensamento de Feuerbach, Freud entendeu que Deus é uma criação do pensamento humano, entretanto, enquanto para aquele se tratava de uma projeção do ser sobre a idéia de divindade, este aprofundou o conceito da necessidade psicológica, creditando a força da religião aos desejos mais fortes da humanidade. Entretanto, assim como Feuerbach, Freud provavelmente concordaria com a tese de que “quanto mais pobre o homem, mais rico o seu Deus”. A exemplo dos outros, Freud também pregava a “necessidade da superação da fase religiosa, dando primazia á inteligência sobre a vida dos instintos[3]”. Somente o homem destituído de religião estaria assim deixando a sua infantilidade.

O início da história de Nietzche também não deixa de causar perplexidade, tendo em vista o rumo que a sua vida tomou. O seu pai era pessoa culta e delicada, pastor luterano, bem como seus avos, sendo que o próprio Nietzche pensou em seguir igual carreira. Era “aluno modelo, dócil e leal, seus colegas de escola o chamavam de pequeno pastor[4]”. Era ainda brilhante em estudos de grego bem como em estudos bíblicos. Entretanto, conforme progredia em seus estudos, ia se afastando do cristianismo até chegar ao momento de proclamar que o cristianismo só havia gerado “conformismo e mediocridade[5]”. Ele desprezou a piedade cristã, pois esta é “deprimente, pois enfraquece as paixões revigorantes que aumentam a sensação de viver[6]”. Declarou guerra aos teólogos, pois “todo aquele em cujas veias corre sangue de teólogo fica logo numa posição falsa diante de tudo e de todos, numa posição que carece de dignidade[7]”. O cristianismo então é irracional, pois “acha-se em contradição com toda a boa constituição intelectual: só pode servir de razão enferma como razão cristã, interessa-se por tudo aquilo que carece de inteligência e pronuncia o anátema, contra o espírito, contra a soberba do espírito são[8]”. Daí a declaração da morte de Deus e conseqüentemente da vida do “super homem”. Ao analisar o pensamento de Nietzche, Urbano Zilles afirma que, para o aclamado filosofo, o cristianismo é uma espécie de platonismo popular, e que fora envenenado por Paulo de Tarso, o judeu que distorceu a mensagem de Jesus, este sim, o único cristão que existiu, mas que levou o cristianismo com a sua morte, e que representou uma espécie de sublimidade patética, mas bem intencionada em sua existência. Deus precisa morrer para que a humanidade possa se emancipar. A morte de Deus será “ocupada pelo nada” (niilismo), e todos os valores serão “desvalorizados” e os valores projetados pela religião, como para ele, não estavam fundamentados na vida, são contra a própria vida. A religião cristã não deixa de ser niilista pois venera o nada como se fosse Deus, mas o niilismo pleno está a caminho, com a morte de Deus. Todo o ser humano “quer ser Deus”, e quando o homem e Deus se separam, aí está a religião. Por isso, o homem deve declarar que “Deus está morto” para que possa surgir um “super homem”. O homem necessariamente passará então pelo niilismo, para após, poder existir a “transmutação de todos os valores”, que serão valores criados a partir do físico, do ser que os cria, e não no metafísico. Entretanto, acredita no “eterno retorno do ser”, sendo que tudo o que foi voltará a ser, tendo em vista que “a finitude da quantidade de energia impede o surgimento do novo, mas o tempo é eterno, sendo este a forma extrema do niilismo, o nada eterno[9]”. De qualquer modo, se Deus está morto, a adesão ao ateísmo e somente uma questão de tempo. No artigo segundo da sua lei contra o cristianismo, Nietzche ainda declara: “Seremos mais duros para um protestante do que para um católico, mais duros para um protestante liberal que para um puritano. Quanto mais próximo se está da ciência, maior é o crime de ser cristão[10]”.

Tudo o quanto aqui foi exposto acerca destes grandíssimos pensadores da humanidade só nos dá uma pequena, e talvez pálida noção de sua opinião acerca do fenômeno religioso. Entretanto, podemos todos perceber que eles pregavam uma espécie de emancipação do homem em face da destruição e fim da religião, principalmente a judaico cristã. Partimos do pressuposto de que tal ateísmo é de alguma forma, possivelmente, produto de uma cultura judaico-cristã. Podemos verificar tal parentesco em algumas características do pensamento destes filósofos.

Podemos verificar na maior parte destes pensadores um espécie de trabalho “apologético” muito parecido com o que fizeram os primeiros padres do cristianismo. Havia uma necessidade nestes de demonstrar, com apoio na filosofia, a superioridade da religião cristã sobre as formas pagãs de pensamento, tanto no campo espiritual como no filosófico. Os atuais pensadores do ateísmo também vão fundo em seu arcabouço teórico para demonstrar, com a apropriação do modo de pensar científico, que o cristianismo também de alguma forma está superado, seja como projeção da humanidade em Deus, seja como ópio do povo (mero subproduto das forças de produção), seja como infantilidade do ser, ou como pura doença. É contra o judaico cristianismo que todos estes pensadores levantam suas armas.

O moderno pensamento ateu também, a exemplo da religião judaico-cristã, uma necessidade bastante “proselitista”. Há a necessidade de se convencer, há a necessidade de se conseguir adeptos, ainda que alguns deles queiram negar tal postura. Os homens precisam ser convencidos de que só irão ser plenos quando pararem de projetar os seus mais nobres valores nesse ser inexistente a que chamaram Deus. Também precisam ser convencidos que durante os séculos as formas de produção é que geraram toda a superestrutura da qual a religião faz parte, e que esta é ainda uma das formas pelas quais o proletariado é oprimido, pois, ópio que é, impede que as coisas sejam vistas como realmente são. O apelo psicológico pode ter um caráter talvez menos agressivo em sua divulgação, mas é igualmente certo de que, a humanidade como um todo só alcançara a maioridade quando da superação do pensamento religioso. Também é preciso convencer de que a religião inverteu os verdadeiros valores, que o cristianismo é a coroação da mediocridade e do ressentimento, e que o super-homem só poderá surgir quando da morte de Deus, que, profeticamente, já se encontra invariavelmente morto.

Ora, ao analisarmos o pensamento ateu moderno, há uma clara referência a uma espécie de “novo nascimento” ou conversão do ser que abraça tal forma de pensamento. É a religião do humanismo em Feuerbach, em que o homem, agora pleno, pode proclamar a religião do humanismo. O amor à humanidade é aceito como expressão de uma vida autêntica, mas é um amor sem Deus. A revolução do proletariado (uma figura do povo escolhido no Antigo Testamento?) levará necessariamente ao homem novo (um novo nascimento conforme preconizado por Jesus?), e com esse, o fim da luta de classes (o paraíso?). Ou então, com o fim da religião teremos a humanidade plenamente madura, ou até mesmo o super-homem, que, finalmente, será Deus para ele mesmo. Interessante que tal homem, antes de se tornar super, passa por uma espécie de crise, muito parecida com a que passaram muitos santos do cristianismo, para que pudessem finalmente abraçar novos valores.

Há também uma esperança escatológica no pensamento ateu. Claro que não dizem que a mera “crença” no ateísmo iria resolver os problemas do mundo, mas o ateísmo indubitavelmente seria uma característica dos seres em um estágio mais desenvolvido. Para Freud, seria a humanidade finalmente madura. Nietzche chegou a profetizar, pela boca de Zarastustra, o fim da religião, e que, sua vinda (representada por um personagem em A gaia ciência) havia ocorrido antes do tempo, mas que Deus já estava morto e que só faltava os homens se aperceberem disso. No marxismo então facilmente iremos encontrar os vestígios de um pensamento escatológico judaico cristão, e que o reino finalmente se concretizaria em um mundo de iguais, com a abolição da propriedade privada e a implantação de uma sociedade plenamente comunista e atéia, visto que, os motivos que fizeram com que o homem adquirisse um pensamento religioso estariam finalmente eliminados.

Podemos perceber então que os clássicos do pensamento ateu nos parecem muito com filhos rebeldes, adolescentes, que negam a sua paternidade, mas que indubitavelmente exibem características de seu parentesco. Surgem sempre para superar os seus progenitores, fazendo por si mesmos aquilo que seus pais parecem nunca ter conseguido cumprir. Não dizemos que este tem sido sempre o comportamento de todos os ateus confessos, mas que esta tem sido uma tendência dentro do pensamento e prática ateísta.

Entretanto, apesar de demonstrarmos algumas características do pensamento ateu com seu antecedente religioso, ainda assim, nos falta indagar o porque de ser justamente o pensamento judaico cristão a permitir a possibilidade de um pensamento ateu elaborado e sistematizado. Repita-se, com este trabalho ousamos apenas iniciar uma reflexão acerca deste assunto, tratando-o de forma generalista, sem de forma alguma esgotá-lo, e nem mesmo excluir a possibilidade de estarmos equivocados em nossas conclusões.

O judaísmo rabínico, com seu radical monoteísmo, não deixou de ser uma forma de desmistificação do mundo. Com o judaísmo, temos um Deus que ainda influencia nos rumos da natureza, mas pela primeira vez, o Deus não se confunde com ela nem com as forças místicas que muitos pagãos julgavam existir e move-las. Pelo contrario, é no judaísmo mais desenvolvido que vemos uma completa abstração da idéia de Deus. Deus está fora da natureza. Sobre ela e nunca a ela submetido. Não há forças autônomas de espiritualidade na natureza.

Ocorre que tal judaísmo nem sempre prevaleceu, e quando tal ocorreu, tal se deu de forma bastante restrita, tendo em vista a característica nacionalista de tal povo, além do mais, não tardou para que tal judaísmo, mesmo antes do surgimento do cristianismo, já ser influenciado por elementos vindos do helenismo.

E é deste judaísmo que vemos a maior parte dos elementos que vieram a dar forma ao pensamento cristão institucional. O próprio catolicismo que veio a dominar a Idade Média era repleto de elementos mágicos e míticos, o que vem a refletir até mesmo na forma de ser da igreja romana até os dias atuais. E mesmo quando surgem vozes adeptas de um certo ateísmo, já há mudanças de cunho estrutural e econômico na sociedade que vão possibilitando este tipo de pensamento.

Entretanto, é sem dúvida nenhuma com o protestantismo que vemos uma espécie de secularização da existência que vai possibilitar, no nosso modo de entender, o surgimento de um ateísmo mais elaborado, mais sistematizado. Isto pode ser apontado por diversos motivos. Um deles, provavelmente, foi a rejeição praticamente total de todo o sistema sacramental do catolicismo, que acompanhava o ser desde o nascimento até para depois da morte. Todo aquele mundo “mágico” e místico do catolicismo foi plenamente rejeitado pelo protestantismo, ainda que de forma diferente e momentos diferentes nos diversos locais em que imperou a Reforma. O protestantismo, com a volta do estudo do Livro, contribuiu também para um certo racionalismo, pois deslocou a autoridade da estrutura institucional para a Palavra, o que implicou também no relativismo da estrutura romana, não vista mais como a única verdadeira; pelo menos, não pelos protestantes. Poderia haver diversas formas da verdade se manifestar, indiferente das estruturas institucionais que pudessem vir a ser criadas. Também quando da ênfase à questão da fé, rejeita-se também a tentativa da escolástica, principalmente tomista, em se buscar alguma guarida na relação fé-razão. Não se quer dizer que a razão tenha sido abandonada. Ao contrário disso. O que ocorre na verdade é o fato de que somente através da fé se poderia chegar a um pleno conhecimento das verdades divinas, e a razão, de certa forma, era um modo de organiza-las. Entretanto, ao se fazer tal cisão, não se deixa dúvida de que se passa a ter a opção puramente para a razão, visto que, no protestantismo, muito cedo o povo deixou de estar sob o jugo do clericalismo, sendo historicamente conhecido o fato de que os países que aderiram à Reforma propuseram uma liberdade de pensamento que muito contribuiu para a evolução do cientificismo secular. W. E. Hartpol e Lecky, citados por Lecompte, fazem a seguinte observação acerca do movimento reformista: “Certamente, nunca houve um movimento que, em seus últimos resultados, tenha contribuído tão amplamente como a Reforma para a emancipação do espírito humano de todos os terrores supersticiosos. Formou um grande número de igrejas nas quais o espírito de ceticismo temperado e suavizado, que por muito tempo foi fonte de anarquia, pôde expandir-se livremente e aliar-se ao espírito da ordem. Rejeitou boa parte das concepções dogmáticas e rituais que tinham abafado o campo inteiro da religião, e tornou possível o movimento contínuo pelo qual a teologia evoluiu em direção à moral, desde aquele tempo. Sobretudo, diminuiu o poder do clero e, dessa forma, preparou o caminho para a secularização geral do espírito europeu, marca mais característica da civilização moderna[11]”. É claro que seria um exagero atribuir o secularismo europeu tão somente ao movimento da Reforma, entretanto, conforme já demonstrado, grande foi a sua influência. Usemos para nos explicar melhor de uma linguagem mais evangelical e, de certa forma, agora situada no contexto brasileiro. Grosso modo, pelo menos em um catolicismo popular, diga-se de passagem, o cidadão médio atribui poderes praticamente mágicos à ordem sacramental romana. Existe a questão da veneração/adoração aos santos e às suas imagens, que não deixa de ser uma espécie de mistificação da existência. Tendo em vista a não existência de um pastorado mais efetivo junto às massas, é comum o espírito sincretista do católico mediano, que também acredita no poder dos espíritos, em doutrinas espíritas, orientais, entre outras coisas. Quando tal indivíduo se converte a um protestantismo moderando, principalmente de linha mais histórica, toda essa herança é abandonada. Tudo o que resta ao indivíduo é sua união mística com o Espírito Santo e sua comunhão com a comunidade. Tudo o mais, repetimos, absolutamente tudo o mais deixa de ter algum elemento espiritual per si, de modo que todo o universo passa a ser secularizado. É certo que o protestantismo calvinista atribui um certo espírito de sacralidade ao mundo criado por Deus; entretanto, como se disse, por ser criação divina. Entretanto, quando da perda da piedade do ser protestante, aquela noção passa a ser mera lembrança do passado. Apesar de ser esta uma visão tipicamente do catolicismo brasileiro, não temos motivos que tal era o comportamento do católico médio nos tempos da Reforma européia. Portanto, repetimos, para um protestante, que não esteja influenciado pelos aspectos mais radicais de uma experiência espiritualista como a dos evangélicos radicais da Reforma e dos neopentecostais, tudo o que resta é de fato a sua própria experiência mística com Deus; perdida esta, o caminho ao ateísmo parece ser o mais lógico, visto que, dificilmente se irá voltar àqueles elementos de caráter supersticioso e mágico do catolicismo popular.

Este foi o mundo dos principais fundadores do pensamento ateu atual. Todos eles viveram neste tipo de sociedade secularizada, em que o cristianismo parece ter se tornado sem muito espírito, talvez extremamente racionalista pela herança principalmente de Kant e Hegel (estes, filósofos protestantes), e a igreja uma espécie de instituição, talvez, descomprometida com as principais promessas que o evangelho parecem fazer em relação à humanidade.

Concluímos, pois, esta reflexão, que nós, herdeiros de uma forma protestante de pensar, temos que nos atentar para não perdermos os aspectos místicos, espirituais e simbólicos de nossa fé. É interessante notar que o catolicismo romano, por exemplo, nas chamadas festas cristãs, promovem muitas festas, teatros populares, missas ao ar livre, verdadeiros episódios de uma certa comoção popular, enquanto que em boa parte das igrejas evangélicas atuais, muitos destes aspectos simbólicos foram praticamente deixados de lado. Devemos também nos atentar para verificar se nossas comunidades têm espelhado um pouco daquela vida abundante que Cristo promete em sua palavra, além do que, verificarmos em nossas próprias vidas se tal experiência tem se verificado. Afinal, é justamente contra o cristianismo secularizado, institucionalizado, que parece se voltar toda critica, consciente ou inconsciente, feita pelos críticos do cristianismo, principalmente pelas promessas mais singelas de justiça e amor que este parece ter feito, mas não se demonstrou muito interessado em cumprir, visto que a institucionalização da religião muitas vezes ocupa o lugar central que deveria ser o da mensagem e do próprio ethos cristão. Conforme já pudemos verificar, todas as propostas feitas pelos pensadores demonstrados, de um ser humano maduro, igualitário, pleno, já foram de certa forma, promessas feitas pelo cristianismo, mas que muitas vezes se perderam no caminho da história.

E àqueles que são ateus, ou se sentem atraídos por algum tipo de ateísmo, fica o apelo para que verifiquem que as mais belas aspirações à humanidade se encontram no evangelho e em Jesus Cristo, este sim, um humanista no verdadeiro sentido do termo, visto ter amado a humanidade com todo o seu ser, e ensinado e vivido o amor como homem algum jamais o fez, e que o ateísmo, ainda que tente se apoderar de uma certa ética superior, talvez não encontre fôlego para vive-la, e nessa tentativa, se verá diante do fracasso, o poderá se ver conduzido à necessidade de um Salvador.


[1] LECOMPTE, Denis. Do Ateísmo ao retorno da Religião. Sempre Deus? Loyola, p. 96/104.
[2] A direita hegeliana buscava uma forma de enxergar em Hegel uma filosofia da qual se concretizava uma forma sublime de se “comprovar” a veracidade da religião, sendo que esta absorve a filosofia. Na esquerda hegeliana, ocorre justamente ao contrário; a religião é absorvida pela filosofia. Feuerbach e Marx foram adeptos desta segunda corrente.
[3] ZILLES, Urbano. Op. Cit. p. 142,
[4] Coleção Os Pensadores, p. VII.
[5] ZILLES, Urbano. Op. Cit., p. 163
[6] NIETZCHE, Friedrich. O Anticristo. p. 41
[7] Ibdem. P. 43.
[8] Idem. P. 91.
[9] Op. Ci. P. 171-174.
[10] Nietzche, Friederich. O Anticristo. Ed. Martin Claret, p. 91.
[11] In History of the Rise and Influence of Rationalism in Europe, citado por LECOMPTE, Denis. Op. Cit. P. 85.


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quarta-feira, 18 de julho de 2018

O cristão e seu posicionamento político

Um cristão pode ser de esquerda? Ou de direita? De centro? Anarquista? Liberal?

Tenho lido em algumas redes sociais que, por exemplo, um cristão não pode ser de esquerda.

Isso porque, a esquerda apoia o comunismo, o socialismo, o aborto, o movimento LGBT, e coisas do tipo. Logo, não pode ser de esquerda.

Mas também já li amigos dizendo que cristãos não podem ser de direita. Não podem apoiar Bolsonaro, Trump, a liberdade de usar armas, a ditadura, o fascismo, etc. Eu mesmo já fui excluído da amizade de alguns por ter em meu perfil amigos que apoiam Bolsonaro.

Tenho também amigos (cristãos) que dizem que cristão não pode ser liberal. Isso porque, o liberal (econômico) só pensa em dinheiro, acumular, é contra a intervenção do estado na economia, não pensa nos pobres, etc. Não pode apoiar também, se for cristão, a o liberalismo moral de cada qual conduzir-se conforme quiser, seja sexualmente, ou ainda, consumir substancias entorpecentes, e coisas do tipo, sem intervenção do estado em seus usos e costumes.

E então, todos atacam todos e acabam dizendo que cada qual não poderia ser cristão e pensar assim, ou assado...

Ora.

Particularmente entendo que alguém pode ser cristão, e, em algum momento de sua vida apoiar alguma dessas visões. Cada qual tem sua própria experiência, visão de mundo, e está em algum estágio de conhecimento diferente da dos demais.

É importante que nós não façamos esterótipos do que significa assumir algumas destas posturas, e nem das visões políticas em si. Ideias mudam com o tempo, assim como pessoas.

Há cristãos que entendem que a esquerda tem maior preocupação com os necessitados, daí, assumem essa postura política. A preocupação com os necessitados é um valor do evangelho.

Há cristãos que entendem que é preciso mais espaço para a liberdade, sem limitações demais impostas pelo Estado, mesmo que para isso, as pessoas estejam sujeitas a fazerem más escolhas e sofrerem com isso. Daí, enxergam nos valores liberais mais proximidade com o evangelho. E a liberdade é um valor do evangelho.

O importante é cada qual ir estudando, questionando e questionando-se para assumir a postura que julgar mais correta á luz do evangelho (aqui, me dirijo aos cristãos), e respeitar se alguém tiver uma visão diferente. Talvez a distinção "esquerda" ou "direita" já não faça tanto sentido, e cada assunto deveria ser discutido "por si" (segurança, saúde, educação, previdência, etc), sem amarras ideológicas do passado.

Algo que vejo com a máxima importância é o fato de que, um verdadeiro cristão pode trazer algum equilíbrio à radicalidade de algumas doutrinas politicas/econômicas.

Por exemplo, um cristão socialista certamente rejeitará o autoritarismo que certas versões dessa visão política pode querer conceder ao Estado. Não me parece que um estado totalitário esteja de acordo com o evangelho. Um cristão cuja visão seja a de um estado mais conservador e liberal (visão essa mais de direita) também se esforçará ao máximo para que a filantropia voluntária se espalhe pela sociedade, e também não deixará de pregar que "o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males". O enriquecimento desmedido e insensível à necessidade alheia não está de acordo com o evangelho.

Um cristão mais simpático ao liberalismo, poderá, na sociedade, aderir a uma postura mais caritativa, filantrópica, o que talvez minimize os efeitos de um capitalismo selvagem.

De minha parte, tenho chegado no momento, à conclusão de que nenhuma sociedade pode prosperar sem liberdade econômica. Liberdade de comprar, vender, negociar, ter livre iniciativa, concorrência, além dos direitos clássicos como de liberdade política, religiosa, filosófica, etc. Essas liberdades dos liberais. Até Cuba já irá admitir em sua constituição o direito de propriedade privada!

Entretanto, também entendo que não é possível uma sociedade sem alguma organização estatal (ou seja, não vejo no momento nenhuma possibilidade para o anarco-capitalismo). Vejo a necessidade de um estado que arrecade e redistribua renda a fim de diminuir as desigualdades e proporcione condições minimamente dignas de existência. Isso me aproxima dos direitos de segunda geração (já seria o suficiente para ser classificado pela escola austríaca como socialista). De qualquer modo, não vejo com bons olhos o estado como um grande gestor, onipresente, onipotente, que assuma o controle de tudo. O estado tem sido um grande arrecadador, em muitas áreas ineficiente, pois conforme monografia do Mises (que a meu ver, não deveria ser completamente rejeitado), não realiza bem o devido cálculo econômico. De qualquer modo, penso que há setores estratégicos que talvez não devam ser entregues totalmente ao capital privado, seja nacional ou estrangeiro, por uma questão de soberania nacional.

Ou seja, resumindo, penso que há de sempre buscar um equilíbrio entre a liberdade dos liberais e o estado interventor, que proteja os mais fracos.

Em tudo isso, completo dizendo que por mais elaborado um sistema, o mais importante é a integridade dos homens que o conduzem. Corrupção corrói terrivelmente qualquer sistema. Honestidade, integridade, ética, bondade, amor, não podem ser substituídos por nenhuma forma de sistema. Haverá sempre por traz de todo sistema um conjunto de crenças, de decisões fundamentais que fará com que uma sociedade se conduza ou não de maneira mais eficiente. Daí, nós nunca deveríamos deixar de labutar pela reforma ética de cada cidadão em busca do bem comum, e abominar a ação pervertida de todos aqueles que tomam para si o que é de bem comum.

O que penso que não precisamos fazer é o tempo todo nos agredir, nos julgar, nos ofendermos mutuamente. A humanidade já deveria ter evoluído o suficiente para resolver seus conflitos de forma pacífica e paciente. Manter mecanismos para que a cada mudança de rota, não seja necessário o derramamento infinito de sangue. Daí, a meu ver, mecanismos dialogais são imensamente necessários para a condução das questões políticas e sociais, e que cada qual saiba viver debaixo das regras do jogo, ainda que por um momento, nem tudo esteja como gostaria. 






sábado, 30 de junho de 2018

Aprendendo com os erros do Rei Amazias

Leitura: 2 Crônicas 25

“Fez ele o que era reto perante o Senhor, porém, não com inteireza de coração” (2 Cro 25.2).

Amazias, neto do Rei Joás, e pai de Uzias, parece ter começado relativamente bem o seu reinado, embora cometendo alguns erros.

Ele contratou soldados israelenses para combater ao lado de Judá, por um grande valor em prata (vers. 6); porém, foi advertido por um profeta que o Senhor não se agradava de Israel, e que não era para os levar para batalha (vers.7). Ele deu ouvidos ao profeta e despediu os mercenários contratados, que muito se iraram e causaram prejuízo por onde passaram (vers. 12).

Amazias então, com seu exército, conseguiu vencer uma grande batalha, porém, inexplicavelmente, prestou adoração aos seus deuses (vers. 14).

Irado, o Senhor envia outro profeta ao rei para o advertir, porém, desta vez, Amazias não dá ouvidos, sendo isso a sua ruína (vers. 16).
Depois, por conta de sua soberba, desafia o rei de Israel para “medir armas”, uma espécie de duelo entre exércitos. O rei israelita ainda dá uma chance para Amazias desistir, entretanto, tal acontecimento vinha do Senhor, e acabaram se enfrentando (vers. 20).

Judá é totalmente derrotado, Amazias humilhado, o muro de Jerusalém é quebrado, e a casa do Senhor saqueada (vers. 21-24).

Ao final de seu reinado, Amazias sofre uma conspiração, e é morto (vers. 27).

O que podemos aprender com essa história?

Amazias, embora tenha servido ao Senhor, não o fez com inteireza de coração. Essa informação joga luz sobre todo o texto.

Quem não serve ao Senhor com inteireza de coração, está sujeito a cometer alguns erros.

O primeiro erro de Amazias foi contratar mercenários israelitas. Ora, Israel há muito estava desviado dos caminhos do Senhor. Se Amazias tivesse consultado ao Senhor, certamente seria desestimulado a contratar tais soldados. Por conta de seu erro, o rei acabou desperdiçando quase quatro toneladas de prata, e ainda sofreu certo prejuízo, pois os soldados descontentes acabaram por cometer algumas arruaças por onde passaram. Assim também, se nós não servirmos ao Senhor com inteireza de coração, estaremos sujeitos a cometer muitos erros.

Outro erro de Amazias foi o de ter cometido torpe idolatria, e isso é inexplicável. Geralmente, eram os povos derrotados que prestavam, naqueles tempos, adoração ao deus do povo vencedor. Amazias, inexplicavelmente, passa a adorar outros deuses. Aqui, vemos que o rei não tem a dimensão exata do Deus que ele servia. Talvez ele achasse que iria fortalecer o seu reino adorando também outros deuses, como se o Deus de Davi precisasse de aliados. Talvez Amazias não tivesse dimensão do verdadeiro monoteísmo bíblico. Enfim, fato é que foi um erro terrível.

Outro erro de quem não serve ao Senhor com inteireza de coração, é que acabará por não ouvir mais a voz de Deus. O Senhor, pela sua misericórdia, ainda enviou outro profeta para advertir Amazias de seu erro e leva-lo ao arrependimento. Mas esse dispensou o profeta, fazendo deste pouco caso.

Contra aqueles que fecham os ouvidos à sua Palavra, o Senhor envia a “operação do erro” (1 Tess 2.11). O Senhor move o coração do rei para onde quiser (Provérbios 21.1), e no caso, a própria soberba de Amazias o levou a desafiar o rei de Israel, sendo derrotado em batalha. Há pessoas que insistem em seu erro; e uma vez não se arrependendo, o Senhor os entrega às suas próprias paixões (Rm 1.24; 26).

E infelizmente, para aqueles que não servem ao Senhor com inteireza de coração, correm o risco de terem um destino muito parecido com o de seus antepassados que também não serviram ao Senhor. O pai de Amazias, Joás, foi morto em uma conspiração após cometer atos abomináveis diante do Senhor (2 Cro 24.25). Amazias, infelizmente, teve o mesmo destino (vers. 27). Alguns chamam isso de maldição hereditária. Não sei. Mas o fato é que Amazias teve o mesmo destino de seu pai. Se tivesse sido fiel ao Senhor, isso não teria acontecido. Se acaso tivemos um histórico familiar complicado, o melhor a fazer é permanecermos fieis ao Senhor, sempre, para que tais coisas não se repitam em nossa vida.

Há muitas histórias tristes nas Escrituras. A de Amazias é mais uma delas. Que o Senhor nos ajude a aprender acerca destas histórias, para não cometermos os mesmos erros.

Que o Senhor nos abençoe!

No amor de Cristo;

Carlos Seino

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Deus é injusto?

No evangelho de João há um relato em que Jesus vai diante do chamado poço de Betesda.

Nestas localidade havia muitos enfermos, incontáveis.

Segundo o relato, Jesus curou apenas um, e os demais ficaram como estavam.

Muitas outras passagens existem assim na sagrada escritura...

O que dizer diante de tal fato? Deus é injusto por curar alguns, e outros não?

Alguns dizem: Deus é soberano, faz o que quer e ponto. É a resposta mais simples. É a resposta do crente.

Outros dizem: Deus não existe. Bobeira perder tempo com isso! Ou se existir, não é desse jeito que essas escrituras narram. É a resposta do ateu, do agnóstico.

Há que diga: Deus não pode ser injusto, curar uns e outros não. Logo, estes relatos são míticos, e querem comunicar outra coisa, mas não a possibilidade de cura. Eles, apesar de crerem em Deus, querem "limpar sua barra" e justificar sua crença de forma inteligente. Logo, elaboram uma teoria no sentido de que Deus não interfere neste mundo de forma nenhuma, e que estamos por conta de nós mesmos. Os que assim creem são mais difíceis de serem classificados, e acho que eles preferem assim mesmo.

Quem dá a primeira resposta não quer muito diálogo. Já está seguro do que diz, e não está a fim de discutir.

Quem dá a segunda resposta, já se posicionou de alguma forma. 

Quem dá a terceira, me parece que se encontra em uma crise de fé um pouco maior. 

Muito bem, o que penso?

A segunda resposta, não vou discutir. A pessoa já negou tudo, não há base comum.

Penso que quem dá a terceira resposta se afastou um pouco da tradição bíblica, não tardará, e rejeitará todos as doutrinas (ou dogmas) históricos acerca de Cristo, da Trindade, dos milagres, da ressurreição física, etc. Respeito tais teólogos, mas não sigo esse caminho (já tentei, confesso, mas achei muito árido). 

Penso também que não basta dizer Deus é soberano e ponto. Precisamos ir um pouco além disso.

Dentro da tradição bíblica, existe a ideia de queda do ser humano, pecado original, ou seja, pecado das origens. Isso afetou profundamente todo o modo como a humanidade se relacionou com Deus, nos deixando com uma tendência muito ruim, que em linguagem teologicamente técnica pode ser descrito como "totalidade da depravação humana" Isso não significa que o homem seja tão mau quanto pode ser, mas que frente a um Deus santíssimo, está irremediavelmente perdido.

Nesta perspectiva, Deus poderia ter acabado com a humanidade desde o momento em que esta pecou. E Ele continuaria sendo quem Ele é, com todos os seus atributos.

Mas Ele assim não o fez, e vem durante todos estes séculos, permitindo a existência humana, ao ponto de querer resgatá-la. E o mais exuberante ato de amor foi dar o melhor de Si, ou seu próprio Filho, para redimir toda a humanidade.

Ou seja, o que quero dizer é que, se Deus quisesse, poderia ter colocado um fim na história humana desde o seu início. E se ele agisse somente baseado em sua justiça, é isso que poderia ter feito. Entretanto, como está escrito, a misericórdia triunfa sobre o juízo. Logo, se continuamos por aqui, TODOS nós vivemos e existimos por misericórdia divina, pura graça, dom imerecido, não importa que uns recebam um pouco mais, outros menos. E todos nós vivemos em um mundo em que há determinada esfera de liberdade para cada um de nós, e vamos vivendo, ora nos machucando, ora nos ajudando, e todos nós sofremos as consequências do que outros a nós fizeram e vice versa, sem necessariamente isso ou aquilo ser culpa divina.

De fato, isso não significa que tenho todas as respostas. Do porque alguns são curados, outros não. Mas, se posso dizer assim, é precisamente neste ponto que prefiro colocar uma "pitada" de agnosticismo. Confessar minha ignorância e continuar caminhando. Isso faz parte da fé, confessar que não entendo tudo, mas CONFIAR que há um Senhor sumamente amoroso, e bom (como nos dizem as Sagradas Escrituras) e justo, que seja com sua providência, seja com sua permissão, conduz e conduzirá a história de um modo tal que eu não posso conceber. Mas em tudo isso, se as Escrituras forem verdadeiras, também me consolo com o fato de que o Senhor não é um Deus distante, mas em nós, que sofre em nós, e que, no Filho, Aquele que tudo deixou, se esvaziou, e se tornou um de nós, feito pecado sem ter pecado, e foi o que mais sofreu e padeceu com toda a condição humana, e padece até os dias atuais por meio de seu corpo, que é a igreja. 


Sobre a (im) parcialidade de Deus

sábado, 19 de agosto de 2017

Deus realmente matou o Filho como condição para nos perdoar?

É uma alegação constante feita aos cristãos, no sentido de que, se Deus é bom, ele poderia simplesmente perdoar, e não ter que “matado” o Filho, por assim dizer.

Tal acusação demonstra um desconhecimento acerca do que os cristãos, de modo geral, pensam acerca de seu Deus.

Deus não matou o Filho. Deus “estava em Cristo” reconciliando consigo o mundo (2 Co 5.19). O Pai e o Filho são um (João 10.3). Os cristãos são monoteístas, creem em um único Deus, mas sustentam que esse mesmo Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. Três pessoas, um único Deus. "Ah, mas isso é muito complicado", alguém pode dizer! E é mesmo! Acho que foi C. S. Lewis quem disse que não acreditaria em uma religião que ele mesmo pudesse inventar.

Então Deus não matou o Filho. Esse voluntariamente se deu em resgate por muitos (Mateus 20.28). Assim sendo, a cruz foi um ato de amor realizado pelo Pai e pelo Filho, pois o que uma pessoa da Santíssima Trindade realiza, o faz em conjunto com os demais.

O Pai não matou o Filho. Quem matou o Filho fomos nós. O Pai O entregou, e Ele voluntariamente aceitou, para nos dar a vida eterna. Levou sobre si as nossas dores e o castigo que nos traz a paz estava sobre ele!



Pixabay

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Os humilhados serão exaltados

Mas esvaziou-se a si mesmo        (Filipenses 2.7)

A epístola aos filipenses é conhecida como a carta da alegria, pois se trata de um dos documentos mais pessoais do apóstolo Paulo para aquela igreja que ele fundou.
Muito provavelmente é uma carta escrita de uma prisão em Roma, em que Paulo agradece todo apoio que recebeu daquela igreja.

A carta é cheia de elogios àqueles irmãos, entretanto, no início de seu segundo capítulo, temos a impressão de que, mesmo naquela igreja havia desentendimentos na comunidade.
Paulo pediu então algumas coisas difíceis de serem cumpridas, entre elas, que cada qual considerasse o outro superior a si mesmo e não olhasse somente para os seus próprios interesses, mas cada qual também para o que era do outro.

E ele determina que entre os irmãos haja o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus, do qual “esvaziou-se a si mesmo”.

Muito se tem discutido do que exatamente Cristo se esvaziou. Uma coisa é certa. Ele se esvaziou da glória que possuía com o Pai antes do mundo ser criado (João 17.5). Entendemos que ele não deixou em nenhum momento de ter sua natureza divina, mas que deixou sua glória a fim de se tornar um de nós.

E após se esvaziar, se encarnar, e tomar a forma humana, ainda viveu vida de servo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz, que era a mais terrível execução imposta naquele momento histórico, da qual um cidadão romano não poderia sofrer.

Assim sendo, Paulo, para resolver um problema de relacionamento comunitário, dá o exemplo máximo de humilhação que alguém já possa ter sofrido. E se Jesus se humilhou assim por cada um de nós, é pouco que nós nos humilhemos também uns aos outros, e sirvamos uns aos outros.

Por maior que seja a humilhação que eu e você possamos passar, será sempre nada comparado ao que Jesus passou.

Ainda falando de Cristo, Paulo diz ainda que após sua morte, foi ressuscitado, exaltado pelo Pai, tendo recebido o nome que está acima de todo nome.


Penso que esse exemplo é dado pelo apóstolo também para incentivar os irmãos, no sentido de que, aquele que se humilhar, um dia também será exaltado por Deus.


quarta-feira, 3 de maio de 2017

Dos atos realizados pela Igreja

Há muitas funções realizadas na igreja que se pretende cristã, e elas estão intimamente interligadas umas com as outras. Vejamos:

ADORAÇÃO

A adoração significa glorificar a Deus por conta de seus grandes feitos e atributos, o que pode ser feito por intermédio de nossas orações e louvores a Ele dirigidas. São atos voltados exclusivamente para o Senhor, mas que edifica também os crentes. O Senhor deve ser o centro de toda a adoração e dos atos dos fiéis (Romanos 11.36; 16.27; 1 Coríntios 10.31; Efésios 3.20-12; Filipenses 4.20; 1 Tim 1.17; 3.16). Pensando de maneira ampla, fora das fronteiras eclesiásticas, pode ser vista como um estilo de vida.


O louvor, como um ato de adoração, era uma prática comum no antigo testamento, como podemos ver no livro de Salmos.

Podemos nos perguntar se há alguma forma “mais santa”, ou “mais correta”, relativa à adoração. Devem ser utilizados elementos simbólicos? E gestos corporais? Independente da resposta que se dê, tudo deve ser feito com decência e ordem (1 Co 14.40).


COMUNHÃO

É a fraternidade/amizade/amor/afeto vivida entre os irmãos. “Koinonia” signifca manter as coisas em comum. Um desafio muito grande nestes tempos individualistas. Existe a fim de estreitar os laços de amor entre os membros, glorificando a Deus por conta disso, e proclamando ao mundo o evangelho por meio de um estilo de vida.

São inúmeros os textos no Novo Testamento com a expressão “uns aos outros” (Efésios 5.19; Colossenses 3.13-16; Gálatas 6.2;Tiago 5.16), sendo que até mesmo o sofrimento e alegria são compartilhados (1 Co 12.26).

Um fato muito importante na comunhão é que seremos reconhecidos como discípulos pelo amor que tivermos uns para com os outros (João 13.34-35). Além do que, a unidade entre os irmãos foi motivo de oração da parte de nosso Senhor (João 17.20-21).


EDIFICAÇÃO

É mútuo amadurecimento/crescimento/aperfeiçoamento no/do corpo de Cristo que tem como alvo os seus membros.

É a finalidade dos dons dados aos membros (Efésios 4.11-16) – note que nessa passagem, todos os dons são aqueles voltados para alguma forma de proclamação/instrução. Foi algo notável durante a Reforma Protestante, por exemplo, a função educacional da Igreja.

Toda a atividade comunitária deve ser voltada para a edificação, notadamente o falar ( Efésios 4.29). Os dons espirituais são voltados para a edificação (1 Coríntios 14.4-5, 12, 17, 26). Os dons são praticados em comunidade, pois somos membros uns dos outros (Romanos 12.4-8).

EVANGELISMO:

É o ato de proclamar o Evangelho, voltado para os "de fora". 

Foi o último mandamento descrito do evangelho de Mateus (28.18-20) – pregar o evangelho para todas as pessoas é a função principal de todo membro da Igreja. Para isso foi dado o poder do Espírito, para testemunhar (Atos 1.8).

Todos os membros da igreja devem estar engajados na tarefa de auxiliar na expansão mundial do evangelho, orando, contribuindo e indo. É preciso evitar a tendência de “olhar somente para o próprio umbigo” da igreja local. Imagine se no Brasil inteiro, cada um que se diz cristão contribuísse com “um real” que fosse para missões transculturais, que maravilha seria. Educamos hoje nossos filhos para serem bons profissionais, mas é muito raro alguém educar o filho com o desejo de que seja um missionário. É bem possível que a maioria de nós hoje, no fundo, prefira que isso não aconteça.


CARIDADE/AÇÃO SOCIAL:

É o ato de ajuda material, emocional e espiritual aos aflitos, tendo como alvo principalmente aos de dentro, estendendo-se aos de fora da comunidade. 

A religião pura e sem mácula é ajudar os necessitados (Tiago 1.27), sendo que a ausência de caridade mostra a invalidade da fé (Tiago 2.15-17). A caridade é um coração verdadeiramente aberto ao irmão (1 João 3.17-18) sendo que na igreja primitiva não tinha nenhum necessitado entre os irmãos(Atos 4.32-35).

Será que essas atividades têm ocorrido em sua comunidade? Em caso negativo, de que modo você poderia contribuir para que sejam implementadas? Entendo que é o ideal que todas essas coisas aconteçam na comunidade, pois isso trará um equilíbrio entre todas as atividades. Mãos à obra, então!



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