Resenha da obra "Ortodoxia Humilde", de Joshua Harris e Eric Stanford

Joshua Harris foi pastor na Covenant Life Churcch, bem como membro do Gospel Coalition. Casado, com três filhos, e após anos de ministério anunciou que estava abandonando a sua fé cristã. Escreveu  este livro juntamente com Eric Stanford, quando ainda ativo no ministério. Em princípio, "Ortodoxia humilde" era o último capítulo de uma obra maior, porém, por incentivo de amigos, bem como por sugestão anterior de John Pipper, foi transformado em uma obra à parte. Stanford ajudou a mesclar sermões do autor, bem como preparou os guias de estudo que compõem o livro.

O autor inicia seu livro compartilhando a experiência de um amigo que escrevia livros de ficção com a temática cristã, obra essa sem muita ortodoxia, o que acabou angariando críticas severas de muitos irmãos. Isso fez o autor meditar na necessidade de sermos mais amorosos ao defendermos doutrinas. 

Uma singela definição de ortodoxia é dada no livro, como sendo "o pensamento correto sobre Deus", mencionando-se algumas doutrinas como sendo as corretas e que todo cristão ortodoxo deve aceitar. Ocorre que cristãos ortodoxos, vez por outra, se comportam como chatos, censores da fé alheia.

O autor ressalta a necessidade de se crer nas verdades conforme foram reveladas, mas ensina que elas devem ser compartilhadas com humildade. As alternativas seriam uma "ortodoxia arrogante", ou então uma "heterodoxia humilde" (a pessoa sempre simpática, agradável, que nunca confronta ninguém), sendo que nenhuma destas posturas se apoia no exemplo do evangelho.

O capítulo é encerrado com trechos da segunda epístola de Paulo a Timóteo em que são ressaltadas passagens em que o apóstolo determina que seu discípulo sempre observe a verdade, porém, que seja sempre manso para como todos, apto para ensinar e paciente.

Joshua Harris inicia o segundo capítulo fazendo uma adaptação do relato do publicado e do fariseu. Ele dá o exemplo de um cristão ortodoxo que dá graças a Deus por fazer parte de uma igreja doutrinariamente ortodoxa, e não desses crentes com doutrina água com açúcar, entre outras superficialidades.

Agir de forma arrogante é não reconhecer de que foi alcançado pela graça de Deus. Não devemos usar da verdade para fustigar a vida das pessoas. Isso também não significa se dobrar diante da opinião pública. Devemos ter lágrimas nos olhos em gratidão a Deus por termos sido alcançados, e lágrimas para com o nosso próximo também.

Harris cita o texto em que Josué se encontra com o chefe do exército do Senhor e pergunta de que lado ele está (Josué 15). Com base na resposta ("Nenhum dos dois") o autor argumenta que não é Deus que deve estar do nosso lado. Ele não se compromete com a nossa agenda. Somos nós que devemos nos comprometer com a agenda e a verdade dele. Josué foi levado à adoração ante a resposta que recebeu. A ortodoxia também deve nos levar primeiramente à adoração.

Essa arrogância na defesa da ortodoxia diz mais respeito ao nosso egocentrismo, diz o autor. Quando temos por objetivo o conhecimento sem amor, e sem nos motivarmos à adoração, ainda que sejam coisas boas em si, podem se tornar muito complicadas. Por isso nos tornamos agressivos quando questionados. 

Harris volta a enfatizar no final do capitulo que a correção para com a atitude arrogante não é menos, mas sim mais ortodoxia. Que é preciso ter cuidado também com uma teologia sentimentalista que acha que é arrogante alguém que acredita naquilo que claramente foi ensinado pela Palavra. É a atitude que deve mudar, e sempre que houve uma crítica à alguém, deve se feita com amor, pois tanto ela quanto qualquer um de nós é necessitado da graça de Deus. 

Em "O arrependimento começa por mim", terceiro capítulo de sua obra, Harris começa mencionando o exemplo de Justin, autor do blog "Between two worlds", e a humildade com que trata os que o atacam em seu site. Justin sustenta que "a humildade leva à ortodoxia e a ortodoxia leva à verdade". Depois, Harris cita o exemplo bíblico do rei Josias, que após descobrir o livro da lei, humilhou-se a si mesmo ao invés de procurar culpados pela situação do reino. Diz que a ortodoxia "não deveria ser um cassetete para atacar as pessoas" e menciona que deveríamos gastar mais energia para obedecer a Palavra e ser reformados por ela do que para criticar os que a difamam. 

Uma das formas que Harris testemunha que o ajudam a se tornar humilde é tentar viver a verdade em sua inteireza. Também ensina que o fato de outras pessoas não viverem a verdade não me é desculpa para ignorar os mandamentos de Deus, como no caso de Moisés, que ao invés de falar com a rocha, irritado com a petulância do povo, acabou batendo, e por isso foi disciplinado por Deus. Testemunha que, muitas vezes, novos convertidos como ele havia sido, deveriam passar um tipo de "fase de jaula", pois ao mesmo tempo que se tornam felizes por descobrirem mais a verdade, correm o risco em seu zelo, de saírem ofendendo as pessoas que pensam diferente, bem como de se sentirem superiores. Leciona, mencionando Trevin Wax,  que não tem problema ter uma mente crítica, que investiga a verdade, mas que não se deve ter um espírito crítico que destrói e despreza.

No último capítulo, o autor chama a atenção para o fato de que não devemos assumir determinadas ideias motivados por aquilo que irão pensar de nós, mas que devemos buscar sempre a aprovação do Senhor. Relata o que considera três erros daqueles que vivem não para agradar a Deus. O primeiro deles seria viver para agradar a geração passada; o segundo, de cruzar a linha para fazer coisas e impressionar a cultura contemporânea, ainda que seja com a intenção de ganhar pessoas; e o terceiro, é o de se isolar culturalmente e querer agradar somente "os de dentro". Para não cometermos tais erros, devemos nos atentar à Palavra, manejando-a bem, como mencionado em 2 Timóteo 2.15, e fazer tudo para a glória de Deus e também com amor profundo às pessoas. Termina exortando seus leitores a se lembrarem que no céu, só haverá um totalmente certo, que é Deus. Todos os demais estarão errados em muitíssimas coisas, e que em algum sentido, todos teremos muitas coisas por nos desculpar. Veremos finalmente que não foi sábio brigar tanto por coisas secundárias, mas também veremos que as verdades essenciais se cumpriram. Ao final, o autor argumenta que ser humilde em sua ortodoxia não significa a aderir a algo que "dá certo", mas sim a algo que é o correto a se fazer. E por mais humildes que sejamos ,a verdade do evangelho ainda assim será ofensiva a muitos.                          

O autor está correto em toda a sua tese de que não se deve ser arrogante ao se defender o evangelho, e tudo aquilo que se creia em torno da Palavra. A prática já não é tão fácil. É necessário aprender a ter suas próprias ideias rejeitadas, e também respeitar o direito do outro a ter uma opinião diferente da sua. Algo que chama muito a atenção foi o autor da obra ter abandonado a fé cristã. Será que ele se tornou tão humilde a ponto de colocar em dúvida suas próprias convicções, algo que na própria obra recomendou que não se fizesse, mencionando inclusive Chesterton? Questões referentes à fé calvinista, da qual pertencia Harris, poderiam ser questionadas também, tendo em vista que esta teologia não admite que alguém que tenha sido verdadeiramente convertido abandone a fé. Será mesmo que alguém que verdadeiramente abraçou na vida a fé cristã não pode deixá-la?

Enfim, mesmo que o próprio autor não tenha permanecido na fé, a mensagem dessa obra é muito boa, e faremos bem se a assimilarmos.





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