terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Revelação Geral e Revelação Especial de Deus

Deus está acima de qualquer conceito, de qualquer definição. O estudo acerca da pessoa de Deus nunca irá se esgotar, e nele, seremos sempre principiantes. As Escrituras nos falam das características de Deus. Estudamos a Deus para nos tornarmos seus imitadores (Ef 5.1), pois assim como Ele é, assim o seremos (1 Jo 3.2), daí, uma vez salvos e regenerados, somos co-participantes da sua natureza (I Pe 1.4). Este estudo é somente um resumo, uma introdução à própria pessoa de Deus, para que nos inspire a nos apropriarmos cada vez mais da imagem e semelhança que já temos com Ele. Isto porque, cada pessoa se torna parecida com aquilo que adora, e nós queremos nos tornar parecidos com Aquele que nós adoramos.

Mas o que torna possível o conhecimento de Deus? É o ato d’Ele se revelar (1 Co 2.6-16; Gal 1.11-12; Mt 11.25-27). Isto porque, para nós, Deus não se confunde com o Universo. Pensemos no seguinte exemplo. Imagine que o universo fosse uma bela e grande casa. Para as pessoas que entendem que Deus se confunde com o universo, é como se “Deus fosse toda a casa e a casa toda fosse Deus”. Então, para conhecermos Deus, bastaria conhecer cada parte desta casa. Ou seja, criador e criatura seria uma coisa só. Tal ideia é conhecida como Panteísmo. Entretanto, para os cristãos, Deus é o criador “da casa”, e não a casa em si. Estudando a “casa” (ou o universo), teríamos uma ideia das características de seu criador, mas não o conheceríamos por completo. Poderíamos dizer que tal “arquiteto” é criativo, inteligente, detalhista, poderoso, etc., mas ainda assim, não o conheceríamos totalmente. Para o conhecermos melhor, ele teria que “entrar na casa” e se apresentar. Pois bem, é isso que cremos como revelação, ou seja, o ato de Deus se revelar às suas criaturas, demonstrando quem Ele realmente é, seu caráter, sua Pessoa. Cremos que Deus, em Cristo Jesus, “entrou na casa”, ou seja, se manifestou em nosso universo, nosso mundo, para revelar-nos quem é Deus (João 14.9), e que ainda hoje, Cristo, por intermédio do Espírito Santo, nos revela quem Deus é. Pela fé entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem (Hebreus 11.3). Definitivamente, Deus não se confunde com a casa!

Entretanto, ainda que possamos não concordar com a ideia de que Deus possa ser TOTALMENTE conhecido pelo estudo da criação, isso não significa que NADA d’Ele possa ser conhecido. Muito pelo contrário. Isso porque o próprio apóstolo Paulo ensinou que, pela criação, Deus revelou algo de si: Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas criadas. Tais homens são por isso, indesculpáveis (Romanos 1.20). Então, no raciocino do apóstolo Paulo, por conta de tal conhecimento de Deus expresso nas coisas criadas, a idolatria é indesculpável (Romanos 1.23) bem como a perversidade moral (Romanos 2.14-15). Ou seja, por conta do conhecimento de Deus expresso nas coisas criadas, ninguém teria desculpa para ser, seja idólatra, seja alguém moralmente pervertido.[1] A essa revelação de Deus, os teólogos chamam de REVELAÇÃO GERAL[2], que é o ato de Deus revelar-se por meio da criação, igualmente, a todas as criaturas.

Mas ainda que possamos conhecer alguns atributos de Deus pelas coisas criadas, ainda assim, este conhecimento é insuficiente para O conhecermos PLENAMENTE, daí a necessidade daquilo que os teólogos cristãos chamam de REVELAÇÃO ESPECIAL, qual seja, a Revelação de Deus por intermédio de profetas eleitos por Ele, como Abraão (Gen 12.1), Moisés (Êxodo 3.2), Samuel (I Sm 3.4), Isaías (Is 6.1), Jeremias (Jer 1.5) e especialmente pelas pessoas de Jesus Cristo e do Espírito Santo de Deus, conforme demonstrado nas Sagradas Escrituras. Como ensina J. I. Packer: O que então está contido na atividade de conhecer a Deus?... podemos dizer que o conhecimento de Deus envolve primeiro, o ato de ouvir a Palavra de Deus e recebê-la como interpretada pelo Espírito Santo em relação à nossa própria pessoa; segundo, notar a natureza e o caráter de Deus revelados em sua palavra e obra; terceiro, aceitar seu convite e obedecer suas ordens; quarto, reconhecer e se alegrar no amor que Ele tem mostrado, aproximando-se dessa forma de nós, atraindo-nos para a sal divina companhia[3]. Como disse o autor de Hebreus: Havendo Deus, outrora, falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo seu Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo (1.1-2). E o próprio Filho que ensinou, quando falava acerca do Consolador: Quando, porém, vier o Consolador, que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que dele procede, este dará testemunho de mim (João 15.26). E ainda: quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará as coisas que hão de vir (João 16.13).

A revelação de Deus à humanidade é uma obra da Santíssima Trindade[4], pois Jesus disse: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim (Jo 14.6). E do Pai ele diz: ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia (Jo 6.44). E do Espírito ele diz: Ele me glorificará porque há de receber o que é meu, e vo-lo há de anunciar (Jo 16.14). E de Deus ainda se diz que deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade (1 Tim 2.4).

Portanto, para conhecermos a Deus, há a necessidade da fé em Cristo, nosso Senhor e Salvador (Jo 12.44-45), guardarmos sua palavra (Jo 14.23) de um estudo atento e disciplinado das Escrituras (2 Tim 3.16), iluminados pelo Espírito Santo de Deus (1 Co 2.13-14), no contexto de uma Igreja que celebra e proclama o evangelho (Rm 10.14) e realiza os meios de graça (Rm 6.3; 1 Co 10.16). É um conhecimento pessoal, relacional, existencial, que envolve todo o nosso ser (Mateus 22.37), inesgotável (Oséias 6.3), e que se consumará na eternidade (1 Jo 3.2). Portanto, conheçamos e prossigamos em conhecer o nosso Deus, pois para isso fomos criados, para a glória d’Ele mesmo!
 
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[1] Para ter uma compreensão melhor do raciocino, bom meditar em Romanos 1 e 2.



[2] Leia também Salmo 19.1-2.



[3] op. cit, p. 29



[4] Termo que parece ter sido utilizado pela primeira vez por Tertuliano de Cartago, no sec. II.




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