quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O CONHECIMENTO DE DEUS

O CONHECIMENTO DE DEUS

(Introdução à Teologia – Aula 5)



Deus está acima de qualquer conceito, de qualquer definição. As Escrituras nos falam das características de Deus. O estudo acerca da pessoa de Deus nunca irá se esgotar. De certa forma, seremos sempre principiantes neste estudo. Estudamos a Deus para nos tornarmos e para sermos seus imitadores (Ef 5.1), pois assim como Ele é, assim o seremos (1 Jo 3.2), daí, somos co-participantes da sua natureza (I Pe 1.4). Este estudo é somente um resumo, uma introdução à própria pessoa de Deus, para que nos inspire a nos apropriarmos cada vez mais da imagem e semelhança que já temos com Ele.

1. Deus é amor (1 Jo 4.8, 16): Porque Deus criou o Universo? Porque Ele é amor. Porque criou o planeta terra, os seres humanos à sua imagem e semelhança? Porque Ele é amor. Porque não destruiu a humanidade quando esta se mostrou pecadora, inflexível? Porque é amor. Por que Ele escolheu um povo dentre todos os outros para fazer cumprir seu plano acerca da humanidade? Porque Ele é amor. Porque mandou profetas para exortar este mesmo povo quando se desviava do caminho? Porque Ele é amor. Porque ele nos mandou seu Filho unigênito, como nosso redentor e salvador, expressão plena de seu ser, incluindo em tão grande salvação judeus e gentios? Porque Ele é amor. Porque Ele nos envia o seu Espírito, nos selando, santificando, consolando, pelo qual nós clamamos Aba, Pai? Porque Ele é amor. Porque fundou a igreja, pela qual podemos ser edificados, exortados e alimentados rumo ao crescimento em graça, fé e amor? Porque Ele é amor.

O amor é a essência de Deus, sua natureza fundamental revelada nas Escrituras. Por isso que Paulo pode dizer que tudo irá passar, como as línguas estranhas, a ciência, a profecia, bem como a fé e a esperança, entretanto, o amor jamais passará (1 Co 13.8ss). Daí porque somente os nossos atos em Deus ficarão para a eternidade, significando isso que somente aquilo que fazemos em amor jamais perecerá. Daí, o maior e mais excelente de todos os dons é o dom do amor (1 Co 13), e o novo mandamento é o de nos amarmos uns aos outros como Ele (Jesus) nos amou (João 13.34-35) e o resumo da lei, o grande mandamento, é o do amor (Mt 22.37-40).

É sempre bom e salutar fazer um exame de nossas vidas se temos vivido o amor de Deus. Se nossa vida tem expressado este amor, e se há algo em nossas que fazemos sem amor. O amor não é antes de tudo um sentimento, uma emoção, mas uma decisão, um ato, um verbo.

2. Deus é misericordioso (Ex 34.6; Nm 14.18; Sl 23.6; Sl 86.15; Sl 103.17; etc): Ser misericordioso é colocar o coração sobre as misérias alheias, é se compadecer. Deus identifica-se profundamente com a miséria humana, compadecendo-se com sua dor, não tratando-nos conforme merecíamos por conta de nossos pecados. A misericórdia do Senhor parece não ter fim. Por isso, pode-se dizer que “o espírito quebrantado e o coração compungido e contrito Deus não despreza (Sl 51.17). Andar nos caminhos de Deus é andar na misericórdia de Deus (Sl 25.10). Temos que confiar em sua misericórdia (Sl 52.8). Daí, bem aventurados se formos também misericordiosos (Mt 5.7).

O imitador de Deus não é alguém fechado em seu próprio mundo, mas está atento àqueles que necessitam de ajuda e de consolo, alimento, condições para um viver digno; também é alguém que perdoa, que busca a reconciliação em todas as ocasiões, que não julga o seu próximo, que se reveste do amor (Col 3.12-14).

3. Deus é santo (Ex 15.11; 1 Cro 16.29; Lv 11.45; Sl 22.3; Is 6.3; etc): dizer que Deus é santo significa dizer que é absolutamente separado, está acima e sobre tudo e todos, absolutamente puro, não havendo a mínima possibilidade de Deus pecar. Daí, todos os que amam a Deus devem buscar também a santidade, sem a qual ninguém verá a Deus (Hb 12.14), pois esta é Sua vontade para nós (1 Tes 4.3). As Escrituras dizem que nós somos santificados em Cristo Jesus e chamados para sermos santos (1 Co 1.2). Ser santo significa ser separados (hagios) daquilo de ruim que está no mundo, os maus desejos da carne, dos olhos, a soberba da vida (I Jo 2.16) para vivermos de forma consagrada a Deus, e nos preenchermos de suas virtudes.

4. Deus é justo (Dt 32.4; Is 45.21; Dn 9.7; Jer 23.6; 1 Jo 1.9; etc): enfatiza o caráter de Deus como justo Juiz, cuja justiça não falha de modo algum. As Escrituras requerem de nós que também sejamos justos, no nosso caso, demonstrado com um caráter e um procedimento de acordo com a justiça de Deus. O Senhor conhece o caminho dos justos (Sl 1.6); abençoa o justo (Sl 5.2); livra o justo de todas as suas aflições (Sl 34.19); sustenta os justos (Sl 37.17); jamais o desampara (Sl 37.25); jamais permitirá que o justo seja abalado (Sl 55.22); recompensa o justo (Sl 58.11), florescerá o justo (Sl 92.12; Pv 11.28); faz o caminho do justo brilhar até ser dia perfeito (Prov 4.18); não deixa ter fome o justo (Pv 10.3); os justos herdarão a vida eterna (Mt 25.46).

5. Deus é bom: há um sentido em bondade que é possível somente a Deus. Ele é “perfeição absoluta e felicidade perfeita em si mesmo” (Berkhof). Foi por isso que Jesus disse que “ninguém é bom, senão um, Deus” (Mc 10.18; Lc 18.18, 10). Esta bondade revela o aspecto moral, mas também metafísico de Deus, no sentido de que somente ele É, e mais ninguém (auto-suficiente, e perfeito em tudo). E Deus é tão bom que esta bondade como que flui, emana de si para toda a sua criação. Ele é a fons omnium bonorum. Ele e a fonte de todo bem, de toda beleza, de toda virtude, de toda alegria, Ele é summum bonum. Ele é “bom para todos, e as suas ternas misericórdias permeiam todas as suas obras” (Sl 145.9). Essa bondade de Deus se expressa no cuidado que tem para com suas criaturas, como o próprio sustentador da vida: Sl 36.6; 104.21; Mt 5.45; 6.26; AT 14.17. Assim, inspirados na bondade de Deus, também nós devemos ser bons para com todos, e principalmente aos domésticos da fé (Gal 6.10). Esta bondade de Deus, que gera vida, que nos dá alegria, uma natureza na qual nos alegramos, deveria, por si só gerar um sentimento de gratidão em suas criaturas para que louvassem Ele, que é a fonte de todo bem.

6. Deus é imutável e o único que tem existência autônoma em si próprio: Deus não muda. Ele é perfeito, não pode melhorar. E por ser perfeito, não pode piorar. O único Ser em si, que não precisa de outro para ser o que é. O único ser completamente independente, completamente livre, por isso, é o único que pode realmente dizer “EU SOU” (Ex 3.14). Completamente fora do espaço tempo, de um modo tal que não conseguimos imaginar (Sl 102.26-28; Is 41.4; Is 48.12; Ml 3.6). Por ser imutável, não envelhece (Sl 93.2), pois é maior que a própria eternidade (Sl 90.2); o único que possui imortalidade (1 Tim 6.16). Seu caráter não pode mudar, não pode ser nem menos nem mais misericordioso, justo, compassivo, santo, fiel, pois nele não pode existir “variação ou sombra de mudança” (Tg 1.17). Nós sempre poderemos mudar, seja para melhor ou pior, mas as Escrituras exigem de nós uma certa “imutabilidade” de propósitos em sermos sempre perseverantes, corajosos, fiéis e amorosos. Estas características sempre poderão aumentar em nós, mas o importante é sempre estarmos no caminho, não mudarmos (Tg 1.4-8). Seus propósitos também não podem mudar, pois ele não é homem para que se arrependa (Nm 23.19; 1 Sm 15.29). O “conselho do Senhor dura para sempre; os desígnios do seu coração por todas as gerações” (Sl 33.11). “Tudo o que Ele determinou na eternidade acontece no tempo. Tudo aquilo que Ele tenha pela sua palavra se comprometido a realizar será infalivelmente feito” (J. I. Packer). Ele determinou na eternidade que viria um Salvador, que esmagaria a cabeça da serpente, e isso invariavelmente realizou. Os “dons e a vocação de Deus são irrevogáveis” (Rm 11.29).

7. Deus é onisciente: significa dizer que nada pode fugir ao escrutínio de seu conhecimento. Deus não pode ser pego de surpresa. Por não existir sucessão de tempo na vida de Deus, pois é Eterno, Ele vê toda a “linha do tempo” como um eterno HOJE, passado, presente e futuro, os vêem todos ao mesmo tempo e tudo de uma só vez. Por isso Ele é chamado de o princípio e o fim de todas as coisas (Is 48.12; Ap 1.8). O ser humano vê a aparência, o exterior, e é extremamente falho em seu juízo e julgamento. Entretanto, Deus não falha, pois não vê como vê o homem; mas vê o coração (1 Sm 16.7). Daí, Deus requerer de nós a pureza de coração (Sl 24.4; Mt 5.8). Geralmente, crescemos temendo a onisciência divina, achando-nos devassados em nosso íntimo, mas não precisa ser assim, pois Deus, em seu amor, bondade e misericórdia, conhece nossa fraqueza, nossas dores e falhas. Temos em Deus um amigo que quer o nosso bem e nos transformar em seu amor; não um grande Observador, que quer o tempo todo nos julgar, apontar o dedo sobre nós. A onisciência divina é um convite para sermos pessoas íntegras, entre intenção e ação, visto que isso é melhor primeiramente para nós mesmos. Temos que nos dar conta de que estamos sempre na presença d’Aquele que nos conhece intimamente, mais do que a nós mesmos, eliminando de nós todo traço de falsidade, de trevas e de dubiedade. É um convite, enfim, para sermos verdadeiros, pois Ele é a verdade (Sl 17.3; Sl 19.14).

8. Deus é onipresente: “Ele transcende todas as limitações espaciais e, contudo, está presente em todos os pontos do espaço com todo o seu Ser” (Berkhof). Deus está acima do espaço e ocupa todas as partes deste com todo o seu Ser. Não significa que uma parte de Deus está em um determinado espaço e outra parte d’Ele em outra. Ele está presente em todos os espaços, em todos os lugares; entretanto, por espaço nenhum pode ser contido. Também não significa que Deus está presente no mesmo sentido em todas as suas criaturas. “Ele não habita na terra do mesmo modo como habita no céu, nem nos animais como habita no homem, nem na criação orgânica como na orgânica, nem nos ímpios como nos piedosos, nem na Igreja como em Cristo” (Berkhof). Tudo em Deus está contido, mas ele mesmo é muito maior do que todas as coisas que Ele contém. Deus está presente em cada parte do universo material e espiritual. O fato de Deus estar para muito além de todas as coisas também é chamada de imensidão de Deus, que denota a sua transcendência a todas as coisas criadas. Nada pode conter Deus (1 Reis 8.27; Is 66.1; At 7.48). É impossível se ausentar da presença de Deus (Sl 139.7-10; Jer 23.23-24). Isto significa que não importa onde estamos, ou o que fazemos, estamos sempre na presença do Senhor, seja no trabalho, na igreja, em nossas casas. Por isso, nossa vida tem que ser um culto a Deus constante, nossa vida é o palco onde Deus sempre estará presente, e tudo o quanto fizermos, que seja para sua glória (I Co 10.33. Temos em Deus um companheiro constante; alguns não querem se dar conta disso. Pelo seu Espírito, podemos ser considerados filhos, amigos, companheiros de Deus.

9. A ira de Deus: pelo fato de Deus ser amor, misericordioso, bom, compassivo, alguns se espantam com descrições bíblicas acerca da ira de Deus (Sl 90.7; Na 1.6; Jo 3.36; Rm 12.9; Ef 2.3; Col 3.6; Ap 6.16; Ap 16.19). A ira de Deus não é como a nossa, sujeita a falhas, caprichos, orgulho, perversidade. Não. A ira de Deus é uma santa e justa reação d’Ele a todo o mal, ao pecado, à perversidade. “Toda indignação de Deus é justa” (Packer). A ira de Deus será a revelação do justo juízo de Deus (Rm 2.5-9). Estar sob a ira de Deus, em determinado momento, torna-se uma opção voluntária de cada pecador (João 3.18-19). “A essência da ação de Deus na ira é dar aos homens aquilo que escolheram” (Packer). Os que não tiveram os seus pecados removidos conhecerão a face irada de Deus. “O inferno é inferno, não pela ausência de Deus, mas justamente porque Deus também está ali presente, sendo lugar de expressão de sua ira” (Paul Washer). Sua ira será derramada sobre os vasos de ira. As Escrituras ensinam-nos a não temer mal algum, nem humano, nem espiritual, mas a temer Aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma quanto o corpo (Mt 10.28, Lc 12.5). Só há uma forma de nos livrarmos da ira de Deus: “sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele (Jesus) salvos da ira” (Rm 5.9). Jesus é quem nos livra da ira vindoura (1 Tess 1.10).

10. A graça de Deus: a graça é o sumo amor de Deus dado àqueles que não mereciam ou não fizeram nada por merecê-la. Na graça de Deus, é expresso o seu amor, a sua bondade, a sua misericórdia, entre todos os outros atributos. É pela graça que somos salvos, e que recebemos o dom da fé, recebendo todas as coisas necessárias à salvação, bem como toda a potencialidade para a prática do bem e das boas obras (Ef 2.8-10). Foi pela graça que Jesus nos foi dado para termos a redenção pelo seu sangue, e a remissão de nossos pecados (Ef 1.6-7). A graça de Deus se mostra salvadora a todos os homens, ninguém está excluído dela (Tt 2.11). A graça é segundo a bondade e a misericórdia de Deus (Tt 3.4-7). É pela graça de Deus que nós somos justificados por Deus (Rm 3.24). A graça de Deus superabundou para que todos os pecados condenados pela lei fossem perdoados (Rm 5.20) e agora, a graça reina pela justiça para a vida eterna (Rm 5.21), sendo que os que estão debaixo da graça estão libertos do pecado (Rm 6.14). A graça, é inclusive, o fundamento da eleição divina (Rm 11.5-6). É pela graça de Deus que somos enriquecidos com toda sorte de bens espirituais (Jo 1.16; 2 Co 8.9; 2 Ts 2.16).

Pela graça de Deus, significa que você foi absolutamente amado pelo Pai. Que Deus deu o melhor de Si para nós, que foi seu próprio Filho, e também o seu Espírito Santo. Seu amor máximo, imutável, imerecido, indescritível nos foi dado pela Criação, mas principalmente pela Redenção e Salvação. Você não precisa fazer nada para ser aceito, pois já foi aceito. Não precisa provar nada a Deus, pois Ele sabe todas as coisas. Não precisa merecer a salvação, pois ela foi dada de graça. Deus não é um tirano que precisa o tempo todo ser aplacado, satisfeito. Em Cristo, Deus fez tudo por nós. E é a graça de Deus que nos transforma e nos potencializa a fazermos todo o bem, daí, não podermos também nos gloriar em nada que não seja na cruz de Cristo, onde foi demonstrado o amor de Deus por nossas vidas. Esta é a boa notícia do evangelho! Fomos absoluta e absurdamente amados por Deus, em Cristo Jesus, e nos foi dado o Espírito, pelo qual clamamos Aba Pai, e amamos os irmãos.


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