terça-feira, 11 de agosto de 2015

O pai amoroso

A parábola do filho pródigo, narrada em Lucas 15.11-24, nos expõe as características de um pai amoroso.

O relato é bastante conhecido. Cuida-se de um pai que tinha dois filhos, sendo que o primeiro pede a antecipação de sua herança. O texto nos diz que o pai "lhes repartiu os haveres" e que o jovem filho foi embora, e "torrou todo dinheiro". Após ter que comer juntos com os porcos, "caiu em si", e resolveu retornar, dizer ao seu pai que estava arrependido, e pedir para ser tratado como um dos empregados do ancião.

O pai recebe o moleque de volta, corre até ele, o beija, o abraça, o restaura, faz uma festa por tal retorno, O irmão mais velho (aquele que não foi embora mas que também recebeu sua parte da heranaça) e o velho procura apaziguá-lo.

Podemos ver algumas características neste relato que nos mostram o que é um pai verdadeiramente amoroso.

Primeiramente, vemos que o coração de um pai amoroso precisa estar preparado para as eventuais tristezas que seus filhos possam vir a lhe causar. Nada neste relato diz que aquele homem não era um bom pai. Deve ter sido uma grande decepção ouvir do filho mais novo o pedido de antecipação da herança. Era como se o filho quisesse que o pai já tivesse morrido. Mas igualmente decepcionante foi o silêncio do mais velho. Isso porque, este também recebeu sua parte, que era bem maior por ser primogênito (Lc 15.12)  e não disse nada. Se ele fosse o cara todo certinho que depois afirmou ser, deveria ter se oposto a tal situação. Não. Ele ficou em silêncio. Deve ser muito difícil para um pai ver que seus filhos escolheram um mau caminho para trilharem.

Um pai amoroso, mesmo contristado, saberá dar a necessária liberdade para que seus filhos tenham suas próprias experiências. Foi isso que o pai fez. Aquele rapaz não era mais crianças. Não havia mais lições teóricas a serem dadas. Ele quer "sua parte"? Que a tenha! Ele quer ir embora? Que se vá! Não adianta ficar segurando, impedindo. Quando temos verdadeira liberdade, revelamos quem nós verdadeiramente somos.

O pai amoroso não importa em se humilhar em nome de seu amor. O texto nos diz que, quando o pai o viu de longe, correu em direção ao filho. Ele poderia ter pensado: "ele que se foi, ele que volte se humilhando"! Que nada! O velho correu até o moleque. Os homens naquele tempo utilizavam túnicas, como se fossem saias. Alguns especulam que para sair correndo, o homem teve que "levantar a túnica" até os joelhos, mostrar as canelinhas, e sair correndo na frente de todos. Um respeitável homem se humilhando (sendo humilde) para receber o perdido filho. Outros especulam que o pai precisa ir até o seu filho para impedir que este, ao entrar na aldeia, fosse agredido pela população local, pois o que ele fez foi muito mal visto pelas pessoas.

Aquele pai mostra afeição publicamente ao seu filho. O texto nos diz que ele "o abraçou e o beijou". Hoje em dia a gente ouve falar que os pai antigamente não expressavam muita emoção pelos seus filhos. Bom, eles não leram este texto, pois em tal relato de quase dois mil anos, aquele homem expressou publicamente sua alegria em receber o filho de volta. Ele restaurou seu filho ao seu status original, lhe colocando o anel da família. E deu uma festa para carimbar de vez, diante do público, que estava tudo bem entre eles novamente.

Finalmente, o pai amoroso procura apaziguar todos os conflitos familiares que surgirem. Isso porque, o filho mai velho ficou mau humorado. Este rapaz não se importava com seu irmão mais novo. Acha que ele tinha mesmo era que ter se danado. Também não se importava com seu pai, afinal, recebeu sua parte na herança, ficou quietinho, e morando na casa do pai, usufruindo do benefício de não ter que arcar com os custos de uma vida independente. E ele ainda se achava merecedor, pois ciumento que era, observou que nunca tinha ganhado um cordeiro para comemorar, não em família, mas com os seus amigos. O pai amoroso simplesmente lhe respondeu que "tudo que é meu é teu", ou seja, poderia ter pegado se quisesse. E ressaltou que era preciso fazer aquilo pelo mais novo, pois ele estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado.

Uma lição bem bacana foi a ensinada, salvo melhor juízo, por Rubem Alves. Aquele pai não soma débitos. O filho mais novo achava que devia algo, mas o pai o recebeu de volta sem nada cobrar. E o filho mais novo achava que tinha crédito, mas o pai disse que tudo já era dele. Ou seja, o pai amoroso não soma débitos nem créditos. Ele simplesmente ama.

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