domingo, 23 de junho de 2013

Teologia da Espiritualidade: em busca de significados


 (cuida-se do esboço da aula "teologia da espiritualidade" que ministrei em um curso de três aulas)


EM BUSCA DE SIGNIFICADOS PARA O TERMO ESPIRITUALIDADE.


Noções básicas de espiritualidade:


Há muitas espiritualidades no mundo. Se formos nos referir à espiritualidade no âmbito de alguma religião, já termos aí dezenas de espiritualidades diferentes. Existe uma espiritualidade cristã, muçulmana, budista, judaica, hinduísta, entre tantas outras. Alguns entendem que é possível se falar em uma espiritualidade mesmo fora do âmbito das religiões (o que talvez seja algo que mais se busque hoje em dia, pois muitos não querem compromisso com uma instituição religiosa). Se ficarmos somente no âmbito da religião cristã, também teremos uma variedade incrível de espiritualidades. Por exemplo, há uma espiritualidade tipicamente católica romana, sendo que, dentro deste segmento do cristianismo, há uma variedade muito grande do modo como se vive a fé. Existe, por exemplo, a espiritualidade franciscana, a carmelita, a dominicana, a jesuíta, a carismática, a progressista, cada qual com determinadas ênfases e práticas, unidas por uma compreensão comum de cristianismo. E com a espiritualidade protestante não é diferente, pois existem muitos grupos distintos, como os metodistas, presbiterianos, batistas, pentecostais, luteranos, anglicanos, cada qual com suas peculiaridades. E mesmo dentro das citadas denominações, há variações de espiritualidades. De modo que, é muito difícil sistematizar um conteúdo acerca deste tema.

De qualquer modo, não iremos nos furtar de meditar um pouco acerca deste fascinante assunto, primeiramente de maneira geral, e em seguida, dando maior ênfase ao âmbito da fé cristã propriamente dita.

Vejamos, primeiramente, algumas definições amplas na tentativa de meditarmos um pouco acerca do significado do termo espiritualidade:

(A espiritualidade) “Refere-se a uma busca por uma vida religiosa autêntica e satisfatória, envolvendo a união de ideias específicas de determinada religião com toda a experiência de vida baseada em e dentro do âmbito desta religião[1]”.

(A espiritualidade é) “A busca de um significado transcendental para a vida, e os meios de obtê-lo, independente ou não de se seguir uma religião específica”.

(A espiritualidade é) “A busca de significados absolutos para a vida”.

“Espiritualidade é aquilo que se faz de prático com aquilo que se acredita”.


Noções de Espiritualidade cristã


Embora haja muitas variantes de vida cristã, podemos tentar traçar algumas noções que talvez sejam comuns a todas elas, ou pelo menos, à maioria. Vejamos uma destas tentativas:

“A espiritualidade cristã propriamente dita é a vida orientada a Deus, por intermédio de Cristo, no poder do Espírito Santo, com o auxílio dos meios de graça, e em meio a uma comunidade celebrante”.

Veja que nesta noção de espiritualidade, o próprio conceito de Santíssima Trindade está envolvido, de modo que teologia e prática, intelecto e vida estão intimamente relacionados. Vejamos algumas outras definições para a espiritualidade cristã:

“Espiritualidade cristã refere-se à busca por uma existência cristã autêntica e satisfatória, envolvendo a união das ideias fundamentais do cristianismo com toda a experiência de vida baseada em e dentro do âmbito da fé cristã[2]”.

“Espiritualidade é uma experiência viva, o esforço de aplicar elementos relevantes do depósito da fé cristã para a orientação de homens e mulheres, com vistas ao seu crescimento espiritual, o desenvolvimento progressivo de sua pessoa que floresce em percepção e alegria proporcionalmente maiores[3]”.

Há algumas passagens nas Escrituras, notadamente na pena do Apóstolo Paulo, que nos falam acerca de viver como homens espirituais, sob a vontade do Espírito Santo, em todos os âmbitos de nossa existência, e em oposição à viver de forma carnal: Rm 8.1-11; Co 2.6-16; Gl 5.16-26; 1 Ts 5.16-23.

A Bíblia Sagrada não traz uma teoria sistematizada acerca da espiritualidade cristã, e sim os seus conteúdos. Na verdade, a Escritura não traz um estudo sistematizado acerca de nenhum de seus conteúdos, cabendo este trabalho para a teologia.

O termo hebraico “Ruah”, por exemplo, (vento, sopro, fôlego, espírito) inspira a espiritualidade, no sentido de que o seu significado possui uma dupla dimensão, quais sejam, “a força da vida individualizada e o poderio de Javé que atua especialmente sobre o seu povo como dom profético e como sabedoria personificada[4]”.

O estudo sistematizado e universitário da espiritualidade parece ter tido início entre os dominicanos, jesuítas, franciscanos e carmelitas (cátedra de ascética e mística). O catolicismo possui uma rica história contemplativa, bem como grande proximidade com a tradição do deserto, além de contar com diversas ordens religiosas que vivem conforme a vida monástica. Também os ortodoxos possuem uma rica tradição contemplativa, praticamente desconhecida no ocidente. Entretanto, nos últimos anos, muitos escritores protestantes, mesmo entre nós brasileiros, têm procurando resgatar esta rica tradição espiritual no meio evangélico[5].

Antigamente, era comum a utilização do termo “experiência mística” para a espiritualidade. A vida mística diz respeito à “iniciativa de Deus que faz com que a pessoa participe de seu mistério”. É um estado de vida espiritual em que Deus se manifesta à pessoa de modo sensível – a intensidade do sentimento da presença de Deus é tão clara que o místico tem totalmente a certeza de que Deus está nele[6]. Mística foi o termo utilizado por alguns autores para se referir ao relacionamento direto e pessoal com Deus, e o místico era justamente quem realizava esta experiência[7]. Hoje, por conta de outros usos que a palavra “mística”, “mistério” e “místico”, muitos entendem que tais nomes não devem mais ser utilizados, preferindo a utilização do termo “espiritualidade”.

Após o iluminismo, infelizmente, houve uma ruptura, ou uma separação entre o envolvimento subjetivo do sujeito (espiritualidade) com a matéria de estudo propriamente dita, havendo na verdade, até um antagonismo. É o risco de existir intelectuais da fé sem espiritualidade, e pessoas espirituais sem conteúdo. Evágrio Pôntico, um dos grandes escritores espirituais da antiguidade, dizia que o “teólogo é aquele que ora”, ou seja, alguém que tem um conhecimento subjetivo da própria pessoa de Deus, pois, a teologia é o discurso acerca de Deus. E a partir do momento que Deus não é uma realidade objetiva verificável (empírica), quem discursa acerca de Deus deve discursar a partir do próprio Deus.

A continuação para esta postagem é Teologia da Espiritualidade: doutrina e prática.



[1] McGrath, Alister E. Uma introdução à espiritualidade cristã. p. 20
[2] Ibdem.
[3] GANS, George. Inagtius of Loyola. p. 61 apud McGrath, Alister E. Uma introdução à espiritualidade cristã. p. 23
[4] MONDONI. Danilo. Teologia da Espiritualidade Cristã, p.14.
[5] Como por exemplo, Ricardo Barbosa, Osmar Ludovico, Ronaldo Cavalcante, entre outros.
[6] MONDONI. Danilo. Op. cit, p.20.
[7] Não raras vezes, o místico despertava a desconfiança da hierarquia eclesial, tendo em vista este relacionamento direto com Deus, muitas vezes parecendo prescindir, na prática, da instituição religiosa.

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