terça-feira, 25 de junho de 2013

Teologia da Espiritualidade: Doutrina e prática

Aquilo que se crê verdadeiramente está intimamente ligado com aquilo que se pratica. Daí é preciso deixar de lado o erro de se entender que o conteúdo doutrinário de uma determinada crença não afeta sua prática ou o modo como essa pessoa ora. E também o modo como uma pessoa ora pode influenciar o que se crê. Há um antigo brocardo latino Lex orandi, Lex credendi, ou seja, a lei da oração é a lei da fé. A igreja, no decorrer dos séculos, também tomou bastante cuidado com o conteúdo público da oração litúrgica, a fim de se evitar o que era considerado heresia.

De qualquer modo, aquilo que cremos afeta a nossa prática, a nossa forma de orar e viver o âmbito da espiritualidade. Vejamos alguns exemplos de doutrinas na história do cristianismo e que afetou o modo como os cristãos viveram.



O Gnosticismo

Um dos movimentos e grupos que foram considerados antagônicos ao cristianismo dito ortodoxo foi relativo a um movimento denominado gnosticismo, que, em si, também possuíam muitas vertentes.

Os gnósticos entenderam baseados em um modo filosófico de pensamento, que este mundo era criado por um deus mal, inferior. Este mundo não passava de uma prisão, um lugar imperfeito, uma espécie de castigo para aqueles que haviam se desviado da verdadeira gnose (sabedoria). Caberia então aos iniciados na gnose superarem este mundo mal, e se voltarem para a verdadeira sabedoria, para a libertação da alma.

Esse modo de crer afetou, por exemplo, os modos como a natureza e a criação eram vistas. A criação não era boa, pois não era feita por um deus bom. O próprio corpo humano era somente uma prisão para a alma, daí, surgiram diferentes modos de se lidar com ele. O primeiro era a negação completa do corpo, um ascetismo duríssimo, radical, em que o corpo era completamente castigado, formas de vida celibatária eram a regra entre os membros, tudo isso como uma forma da alma se libertar de sua “prisão”. Paulo chegou a combater tal tendência quando escreveu aos colossenses. A segunda forma de lidar com o corpo, feita por outro grupo gnóstico, era degradá-lo da pior forma possível, afinal, ele não valia nada mesmo, entregando-se à promiscuidade e ao desejo, negando inclusive a própria possibilidade do pecado através do corpo. A primeira epístola de João combate este tipo de pensamento.

Como a natureza em si era ruim, bem como o corpo, os gnósticos não aceitavam que o próprio filho de Deus havia se encarnado em um corpo humano, pois este era mau. Por isso, muitos dos denominados evangelhos gnósticos negavam a realidade da encarnação, dizendo que Jesus tinha somente uma aparência humana. Isso, conforme dito afetava completamente a espiritualidade na prática, pois Jesus passava a não ser mais visto como um ser humano pleno, a ser imitado no dia a dia, mas sim somente como um mestre da sabedoria, que vinha para ensinar a libertação da própria alma. O gnosticismo nunca deixou de ter suas influências sobre os próprios cristãos, bem como sobre determinadas práticas do cristianismo, que castigavam duramente o corpo.

A resposta dos teólogos cristãos para esse tipo de crença foi a de há somente um Criador, que Ele é bom e extremamente poderoso, e que, a natureza em si mesma não é má. Daí, os cristãos orarem até hoje o dito credo apostólico Creio em Deus Pai, todo poderoso, Criador do céu e da terra. Ou seja, toda a criação é boa, e isso afeta muitos movimentos no cristianismo no sentido de que, se a natureza em si é boa, pois feita por um Deus bom, ela deve ser preservada.

O corpo, para os cristãos, também faz parte da boa criação de Deus. E se o corpo em si é bom, o próprio filho de Deus ratificou e abençoou a criação, encarnando-se e tornando-se um conosco. A ideia de que o corpo é bom liga de maneira fundamental o próprio cristianismo com o judaísmo, o próprio Novo Testamento com o Antigo Testamento, pois o gnosticismo, inclusive, rejeitava as escrituras vétero testamentárias, propondo sua exclusão da Bíblia.


A divindade do Cristo e do Espírito Santo


Durante os primeiros séculos do cristianismo, houve grande confusão e debate acerca destes dois temas. Havia quem defendesse que Jesus Cristo era Deus, igual ao Pai, da mesma substância e essência. Mas houve também quem contestasse tal visão, dizendo que Jesus era de um nível inferior de divindade, ou seja, uma criatura. Assim sendo, diziam que, nem sempre o Filho existiu, e Deus, nem sempre foi Pai.

Crer de uma forma ou de outra afeta a espiritualidade, a forma como oramos. Se crermos que Jesus é um com o Pai, de igual substância e essência, oraremos de determinada forma. A mesma honra que daremos ao Pai será dada para o Filho. Entretanto, se entendermos que Jesus é uma criatura, jamais poderemos adorá-lo, como adoramos ao Pai.

A mesma coisa acontece com o Espírito Santo. Há quem entenda que o Espírito é ente despersonalizado, e que também não é divino, sendo reduzido a um tipo de energia divina. Os que creem deste modo, jamais poderão adorar o Espírito, cantando-lhe louvores. Também não entendem que poderão se relacionar com o Espírito, pois Ele não tem personalidade, conforme esta crença. Mas o mais dramático de tudo, é que jamais poderão desenvolver uma consciência de que se relacionam com Deus, pois, se o Espírito Santo de Deus não é Deus, eles com Deus nunca estarão, e logo, não possuem em si a natureza divina. Já, aqueles que acreditam na divindade do Espírito, lhe prestam a mesma honra, homenagem e adoração que prestam a Deus Pai, e entendem que é o próprio Deus que os guia em sua jornada diária, pois neles habita e o transformarão cada dia mais a imagem divina.

Ante tais questões, podemos verificar que a própria crença, ou não, na Santíssima Trindade, irá afetar a espiritualidade, a forma de orar e de se comportar de determinados grupos. A doutrina da Trindade leva, conforme entendemos, a uma ideia de comunidade, de comunhão e de proximidade de Deus, orando-se ao Pai, pelo Filho, no poder do Espírito Santo. Uma crença monoteísta radical pode levar a uma espiritualidade cuja crença estará no “Totalmente Outro”, e totalmente distante, levando talvez a uma prática mais centrada na submissão do que na comunhão.

A resposta então, que os cristãos da antiguidade deram a esta questão pode ser resumida no credo Niceno Constantinapolitano, em que são confessadas a crença na Santíssima Trindade. Mas há expressões que se autocompreendem cristãs também, mas que não aceitam, até os dias de hoje, a divindade do Filho, nem do Espírito Santo.


A teologia da prosperidade

A teologia da prosperidade é um modo de leitura das Sagradas Escrituras que acompanhou o que é chamado hoje de neopentecostalismo, mas que não deixou de afetar muitas igrejas pentecostais históricas e até mesmo outras denominações dentro do protestantismo, e talvez até mesmo do catolicismo romano. Não existe um compêndio, ou uma teologia sistemática da prosperidade, daí, para conhecê-la, é preciso saber acerca das doutrinas e das práticas que são promovidas por quem nela acredita.

Há quem creia baseado nesta teologia, que a pessoa fiel a Deus se torna sujeito de direito em relação à divindade. Suas orações passam a ser quase que como comandos, no sentido de que o próprio Deus estaria obrigado a agir de determinado modo se algumas condições fossem cumpridas. Alguns chegam a dizer, inclusive, que um cristão não pode padecer enfermidade, pois todas elas foram levadas por Jesus na cruz. O resultado dramático de tal crença, é que muitos deixaram de realizar, “pela fé”, um tratamento médico regular, trazendo graves consequências sobre si, causando inclusive a morte de muitos. Há até notícia de que, muitos de seus líderes, quando precisam de algum tratamento específico, escondem o fato de seus fiéis.

Estes são alguns exemplos, enfim, para demonstrar que, aquilo que a pessoa crê determina o modo como ela irá agir, sua espiritualidade, a forma como ela ora. Parece que há hoje em dia uma impopularidade no estudo de doutrina, e um caminhar no sentido de se dar preferência a modos práticos de se viver a fé. Entretanto, não é possível  viver uma fé e uma prática vazia de conteúdos, e, ainda que inconscientemente, sempre há uma crença por de trás de uma determinada prática religiosa.


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