sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O cristianismo de Tolstoi (3)



Continuo, nesta oportunidade, postando um pouco do que ensinou Tolstoi, em sua obra "O Reino de Deus está vem vós", editado no Brasil pela Editora Rosa dos Tempos.

Vimos, na postagem anterior, que Tolstoi defende o princípio da não resistência ao mal com violência como sendo um preceito obrigatório para todos os cristãos. Segundo nosso autor, nenhum pensador ou teólogo o contradisse de forma condizente.

Ele agrupou em seu livro cinco objeções ao seu pensamento, que citamos a seguir:

1ª objeção) A violência não está em contradição com a doutrina de Cristo. Tanto é que, o Antigo Testamento, e alguma passagens do Novo, como a expulsão dos mercadores do templo, por exemplo, apoiam, segundo os tais, a idéia de que Cristo não poderia ser contra a violência.

Tolstoi considerou tão ridículo este argumento que nem se deu ao trabalho de refutá-lo, esta que é a verdade.


2ª) Por causa dos malfeitores, é preciso manter a força para proteger os bons. Ele cita o grande bispo e orador João Crisóstomo.

Tolstoi refuta tal pensamento dizendo que é proibido ao cristão julgar quem seja bom ou malfeitor. Afirma ainda que, todos os que utilizam a violência julgam o outro como um malfeitor, justificando assim, atos violentos. E ainda que se identifique claramente o mal praticado, o cristão é ensinado por Cristo a vencer o mal com o bem, ou sofrer, mas nunca a reagir com violência.

3ª) O preceito da não resistência ao mal com violência é obrigatório ao cristão, mas se a ameaça for contra ele. Se a ameaça for a um semelhante, deve opor violência com violência.

A refutação se desenvolve neste caso, afirmando simplesmente que não há tal racionalização na doutrina de Cristo. E que também não é possível identificar precisamente a ameaça de outrém. Jesus proibiu os discípulos de fazerem tal coisa, a de defender alguém que amam por meio da violência, quando, por exemplo, impediu que Pedro utilizasse da espada para proteger ele mesmo, o próprio Jesus, dos guardas que o levaram preso antes do seu julgamento e crucificação, dizendo que, os que matarem pela espada, por elas serão mortos.

Além do que, ao se reagir com violência, nunca se sabe se tal ato acabe por ser mais violento que o ato que supostamente o originou.

Acrescenta ainda que a desculpa da utilização da violência como prevenção é talvez, mais pérfida do que como reação, pois, é sob esta desculpa que as potências continuam a desenvolver armamentos terríveis. Argumenta que toda violência institucionalizada se alicerça em tal pensamento, o da prevenção contra a violência dos outros.

4ª) O princípio da não resistência ao mal com violência deve ser afirmado, mas não absolutizado, pois somente um sectário, como um quaker, um menonita, um valdense, albingense, morávio, etc, conseguirá vivê-lo em sua inteireza, mas não alguém que vive em meio à nossa civilização.

Este raciocínio, segundo nosso autor, pretende dar ao mandamento da não resistência um desculpa para a violação ocasional do próprio preceito, que na verdade, acaba por ser uma violação permanente, ao final das contas.

Diz que muitos religiosos, que defendem tal ponto de vista, não estão dispostos a verem uma exceção para a luxúria ou para o adultério, por exemplo. Porque então, pode haver exceções para a violação do mandamento da não resistência ao mal com violência? Eis aí a incoerência dos cristão, principalmente dos padres! E são estes padres, que tentam arrumar uma desculpa para a violação ocasional do preceito, que na verdade, os violam de modo mais permanente, pois vivem a abençoar os tribunais, os canhões de guerra, e rezar pela vitória nas batalhas.

5ª) A quinta objeção ou estratégia ao pensamento de Tolstoi é não tentar responder a questão, fingindo que ela já foi resolvida.

Toltoi cita o exemplo de um teólogo inglês, "Farrar", em que o tal critica a obra de Toltoi mas não responde a nenhum questionamento seu, e não enfrenta diretamente a questão na não resistência com violência. O mencionado pensador dá ênfase ao fato de Tolstoi não acreditar em milagres, na inspiração divina do Antigo Testamento nem das epístolas, em sacramento, em Trindade, etc, mas nenhuma palavra a não resistência ao mal com violência. E o próprio teólogo afirma que não o poderá responder por falta de espaço em seu artigo. Tolstoi ironiza dizendo que há mais de quinze séculos, ninguém encontrou espaço ainda para criticar a doutrina de Cristo!!!

Descreve ainda o procedimento do estado Russo em recrutar novos soldados para o exército, com a ajuda dos padres para dissuadir aqueles que se negam, por questão de consciência, a pegar em armas.

Os cristãos vivem, ora sob a hipnose do Estado, ora da Igreja, e esta, sempre coloca a sua própria antiguidade, tradição e magistério contra aqueles que se propoem a estudar seriamente a questão. Daí, os cristãos viverem com fé na divindade em Jesus, mas curiosamente, não obedecem suas palavras.

As objeções descritas foram feitas por aqueles que, de algum modo, estão envolvidos com algum tipo de cristianismo. Tolstoi ainda comenta um pouco acerca das objeções que foram feitas por leigos, ou pessoas não comprometidas com a fé.

De modo geral, tais críticas era realmente dirigidas contra a dita doutrinda da não resisência ao mal com violência, como sendo uma doutrina imoral, por supostamente impedir que as pessoas de bem reajam contra seus inimigos que o queiram prejudicar.

Conservadores atacaram Tolstoi, pelo fato de que, se tal doutrina fosse posta em prática, eles não poderiam reagir contra o mal que, segundo os tais, seriam praticados pelos revolucionários.

Os revolucionários também repudiaram sua obra visto que, se a aceitarem, eles não poderiam reagir aos abusos cometidos pelos conservadores, derrubando-os do poder.

Ou seja, Tolstoi desagradou a todos! Tantos os czaristas de direita, quanto os revolucionários de esquerda (curiosamente, Jesus também desagradou tanto os conservadores do poder, como os revolucionários de seu tempo).

Disseram ainda que, se tal doutrina fosse levada a sério, a própria civilização correria risco (também curiosamente, alguém também chegou a afirmar que os apóstolos estavam "virando o mundo de ponta cabeça...).

(com isso, confessam também, a meu ver, que tal civilização está realmente fundamentada na violência)

Tais foram as críticas russas.

Na Europa e EUA, as críticas não foram tão apaixonadas, mas de modo geral, atribuíram a defesa de tal ideia à ingenuidade e ignorância do "místico" Tolstoi, que nada sabia, segundo eles, do mundo moderno, ou ainda, que a própria doutrina de Cristo não poderia ser aplicada nem vivida em nosso atual contexto (pareço escutar os ecos de Nietzsche, que dizia que "o último cristão morreu na cruz..."). Enfim, de modo indireto, parecem mesmo até dar razão a Tolstoi quando tais críticos entenderam que, se os preceitos de Cristo fossem aplicados por todos, "o nosso modo de viver não poderia continuar (p. 66).

Em rápidas palavras, este foi um panorama do segundo capítulo da obra de Tolstoi.


(Fonte da imagem: http://www.logoi.com/notes/tolstoi_interview.html)

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