sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Quem veio primeiro: A Igreja ou as Escrituras?


Uma das perguntas mais interessantes na teologia é: as Escrituras geram a igreja, ou a igreja é gerada pelas Escrituras?

De um lado, temos o posicionamento dos católicos. Eles dizem que é a Igreja que determina o que é ou não a Bíblia.

De outro lado, estão os protestantes, que dizem que na verdade, são as Escrituras Sagradas que geram a igreja.

Vamos analisar um pouco dos dois argumentos.

A igreja gera as Escrituras: havia muitos escritos que reivindicavam para si a inspiração divina. Foi preciso um longo tempo de reflexão por parte da igreja, geralmente realizada por seus líderes para definir o que era ou não inspirado. Uma vez que a igreja definiu o que era ou não sagrado, fim de papo. Isso foi feito pelos líderes sucessores dos apóstolos, com o auxílio do Espírito Santo.

As Escrituras geram a igreja: ora, o antigo testamento já existia antes de existir igreja cristã. Jesus e os apóstolos alicerçaram sua pregação com base no antigo testamento. Assim, a igreja foi gerada pela pregação da Palavra já existente, interpretada agora por Jesus e seus discípulos. Parte dessa pregação foi escrita e recepcionada pela igreja. Entretanto, a igreja não define que tais escritos são sagrados, e sim os reconhece como sagrados. Não é a autenticação da igreja que torna tais escritos sagrados. Logo, a igreja foi fundada pela Palavra, e não a igreja definiu o que é ou não a Palavra.

Se analisarmos em um sentido formal, o posicionamento católico é bastante lógico, praticamente imbatível. Jesus deixou um grupo de líderes, que deixou outro grupo de líderes que se encarregou de dizer o que era ou não literatura inspirada. O posicionamento protestante aqui pode acabar caindo em uma contradição, qual seja: se a lista de livros que compõe a Bíblia é infalível, logo, o grupo que escolheu tal lista é infalível também, seja ele o de um concílio católico ou protestante. Mas aqui, já estaríamos caindo na teologia católica, que reconhece uma autoridade maior do que a do texto bíblico.

Para fugir de tal argumento, Calvino simplesmente disse que a Bíblia é um milagre de Deus, realizado pelo Espírito e que seria um tipo de blasfêmia dizer que foi o homem que determinou o que era inspirado ou não. Simples assim. Lutero, antes de Calvino, foi mais ousado. A lista em si não é infalível. O que é infalível é o evangelho, e ele está contido nas Escrituras. Nem tudo na Bíblia é evangelho, e o evangelho é Cristo. Logo, precisaríamos procurar um tipo de “cânon dentro do cânon”. Isso é bem bacana, bem difícil, e quase nenhum evangélico contemporâneo tem noção destas coisas que Lutero escreveu. Acredito que, quem retomou de forma bastante contundente tal argumento foi Karl Barth, um neoconservador, que era demonizado por muitos nos meus tempos de seminário.

O fato é que o protestantismo abusa um pouco da sua teologia. Ora, as Escrituras, se olharmos na história, são um produto de toda a igreja. A igreja toda, no oriente, no ocidente, em Roma, Éfeso, Constantinopla, África, dialogou durante os séculos a fim de se chegar a um consenso do que seria ou não as Sagradas Escrituras. Logo, as Escrituras são a produção da igreja universal para uma obra única. É um produto na pluralidade para a unidade. Entretanto, muito da caminhada evangélica tem ocorrido em um sentido contrário. Vai do produto da unidade, qual seja, as Escrituras, para a divisão. Nem digo pluralidade, digo divisão, pois geralmente os evangélicos se dividem em grupos que já nem mais entram em acordo entre si. Por isso escrevi, que do ponto de vista formal, o argumento católico é bastante lógico.

Entretanto, creio que o protestante não precisa desanimar por isso. Acredito que precisamos realmente fazer o movimento que Lutero vislumbrou. Um movimento esse fundamentado e centralizado no evangelho. Levar realmente as Palavras de Cristo e dos seus apóstolos para todo o mundo, ensinando o evangelho, deixando tudo o que não é mais necessário da antiga aliança, e também não sobrecarregando demais o evangelho com o que não for necessário. E também aumentar o diálogo entre as diversas denominações, inclusive com os católicos, a fim de que nossas divisões não causem mais escândalo no mundo.

Quem veio primeiro. A igreja ou a Bíblia?

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