sábado, 30 de junho de 2012

Panorama do Novo Testamento: O Evangelho de Mateus

EVANGELHO SEGUNDO MATEUS

Considerações gerais



- sempre colocado em primeiro lugar nas mais antigas listas do Novo Testamento;

- é o mais “judaico dos evangelhos”, e provavelmente foi escrito para cristãos de origem judaica, porém, de fala grega;


- este evangelho pressupõe que seus leitores conheçam o Antigo Testamento, devido às inúmeras citações que dele faz (há mais de cem citações);

- alguns entendem que este evangelho é como que uma ponte entre o Antigo e o Novo Testamento;

- provavelmente, este evangelho enfrentou o problema do “antinomismo” e do “legalismo;

- preserva grandes blocos de ensinos de Jesus (Carson);

- apresenta o relato do nascimento virginal e dos primeiros anos de Jesus da perspectiva de José (diferente de Lucas, que apresenta a perspectiva de Maria). E o nascimento e primeiros anos de Jesus estão vinculados às profecias antigas (1.23; 1.5; 2.15);

sempre foi aceito em todas as listas de livros considerados inspirados;



Autoria



- formalmente, este evangelho é anônimo, pois não traz o nome do seu autor;

- a tradição antiga é unânime em atribuir a autoria à Mateus;

- Eusébio (H.E. III. 39.16) cita Papias (por volta de 130 d. C.): “Referente a Mateus (Pápias) diz o seguinte: ‘Mateus ordenou as sentenças em língua hebraica (aramaica?), mas cada um traduzia como melhor podia’”.

- entretanto, tal versão em hebraico de Mateus nunca foi encontrada;

- os estudos modernos chegaram a conclusão de que Mateus utilizou como fontes textos que estavam em grego (ex: evangelho de Marcos; fonte “Q”)

- Mateus (“dom de Deus”) aparece em todas as listas dos doze apóstolos: Mt 10.2-4; Mc 3.16-19; Lc 6.13-16; At 1.13)

- Neste evangelho, Mateus é mencionado: Mt 9.9; Marcos menciona Levi, filho de Alfeu (2.14) e Lucas menciona Levi (5.27);

- Talvez Mateus fosse irmão de Tiago, filho de Alfeu (Mt 10.4; Mc 3.18; Lc 6.15; At 1.13).

- Alguns entendem que “Leuin” (Mc 2.14; Lc 5.27) poderia ser traduzido por “levita”, e não Levi. Então, teríamos aqui um “publicano” da poderosa classe dos sacerdotes.



Data e Local de Origem



- não pode ter sido escrito depois de 107, pois Inácio de Antioquia o cita quando escreve sua carta à Esmirna.

- para a data de seu início, tem que se levar em consideração de que provavelmente não é mais antigo que Marcos; portanto, Mateus não pode ter sido escrito antes de 60 d.C.;

- os pais da igreja defendiam que tinha sido escrito na Palestina, por conta de entenderem que tal evangelho tinha sido escrito primeiro em aramaico (5.22; 6.24; 27.6). Antioquia também tem sido cogitada, por ter grande população judaica, mas ao mesmo tempo haver grande expansão missionária, além de ter tal evangelho ter sido mencionado pela primeira vez nos escritos de Inácio de Antioquia.



Propósito



- demonstrar que Jesus era o Messias esperado, o Filho de Deus e Salvador; o cumprimento dos escritos do Antigo Testamento;

- demonstrou a transição da esperança judaica de um Messias político e guerreiro para um Messias que foi um servo sofredor (Hale);

- muitos estudiosos entendem que Mateus também tem um propósito litúrgico no seu evangelho (pensamento igualmente válido para o evangelho de Marcos). Liturgia significa “ação do povo”, e Mateus é o um evangelho que, a princípio, parece, segundo tais estudiosos, ter sido escrito para a adoração e leitura pública. Alguns indicam que havia um paralelo com o calendário judaico, mas a sua substituição pela narrativa da vida, morte e ressurreição de Cristo expressa no evangelho. Por exemplo, o sacrifício de Cristo está ligado ao momento litúrgico da Páscoa judaica; a transfiguração seria lida na “festa das luzes” (festa que comemorava a restauração do Templo), sendo Jesus o novo templo em que a luz de Deus era derramada; a festa dos Tabernáculos comemorava a colheita, e as parábolas de Jesus sobre a colheita refletiria tal período; o Yom Kippur é o dia do perdão judaico, e neste período seriam lidas as curas em que Jesus declara o perdão dos pecados; o Rosh Hashanah é o ano novo judaico, em que o povo era chamado para o arrependimento, e neste período seria lido as passagens do início do evangelho em que João Batista e Jesus chamam ao arrependimento. Mateus ainda acrescentaria o período do Pentecostes, em que se celebrava o recebimento da lei. Neste período, era lido o Salmo 119 em uma celebração que duraria 24 horas, e tal salmo era divido em oito partes. Entretanto, na “sinagoga cristã” era lido o Sermão do Monte, que segundo alguns, também é divido em oito parte, começando pelas oito bem aventuranças. Assim como Moisés subiu em um alto monte e recebe a lei, assim também Jesus, do monte, dá sua interpretação dela.

como em todos os evangelhos, Mateus tem um propósito didático. Há cinco seções em Mateus construídas em torno dos discursos do Senhor (HALE, Broadus David. Introdução ao Novo Testamento, p.92):



I – O Reino: Sua Natureza e Características (4.12-7.28)

Narrativa Introdutória (4.12-25)

Discurso: O Sermão da Montanha (5.1-7.28)

II – A apresentação e Propagação do Reino (8.1 – 11.1)

Narrativa Introdutória (8.1 – 9.34)

Discurso: Missões (9.35 – 11.1)

III – A inauguração do Reino (11.2 – 13.53)

Narrativa Introdutória (13.54 – 17.21)

Discurso: as parábolas acerca do Reino (13.1-53)

IV – A relação de Jesus para com o Reino (13.54 – 17.21)

Narrativa Introdutória (13.54 – 17.21)

Discurso: O Espírito Interno do Reino (17.22 – 19.1)

V – A última apresentação formal do Reino à Nação Judaica (19.2 – 26.1)

Narrativa Introdutória (19.2 – 23.9)

Discurso: Escatologia (24.1 – 26.1)



Em face da demora da parousia, houve a necessidade de se difundir os ensinos de Cristo para vivê-los neste mundo. Mateus contém instruções sobre: evangelismo, ética, missões, disciplina, adoração, escatologia, apologia, etc.

- há também um propósito kerigmático e apologético em Mateus, em que é retratada a rejeição de Jesus por parte dos judeus. Jesus traz o verdadeiro entendimento do que deveria ser o verdadeiro judaísmo, mas que o verdadeiro reino de Deus é espiritual. Talvez houvesse alguma esperança de tentar convencer o maior número de judeus a entenderem quem foi Jesus (esperança essa que parece ter sido abandonada no evangelho de João).

- Exposição do Reino de Deus: usado quatro vezes em Mt (11.28; 19.24; 21.31,43). Mateus usa mais o termo “Reino do Céu”, utilizado 32 vezes (cf. Mt 4.17 - Mc 1.15 e Mt 5.3 e Lc 6.20). O termo “reino” é mencionado mais de 60 vezes, sendo que há diversas advertências acerca dele: é dos humildes de espírito (5.3); Jesus desafia a buscar o reino em primeiro lugar (6.33); os que quiserem entrar deverão obedecer ao Senhor (7.21); é exigido tudo o que uma pessoa tem (13.44-45); quem quiser entrar nele deve se tornar como criança (18.1-4); neste reino, os últimos serão os primeiros, e os primeiros, os últimos (20.1-16); os que quiserem fazer parte deverão apresentar os frutos esperados (21.43). Jesus e João Batista disseram que o reino estava próximo (3.2; 4.17), mas Jesus também disse que o Reino já é chegado (12.28). Mas o reino também tem uma futura consumação, e os discípulos têm que estar sempre preparados para o seu aparecimento (16.27; 24.42-51; etc). E há promessas para aqueles que abandonarem tudo por Jesus (19.27-30).


Obs: estas aulas são esboços que utilizei para ministrar um curso sobre Panorama do Novo Testamento, na Igreja S. O S. Jesus e em outras instituições. Tais esboços não seguem um padrão totalmente acadêmico, podendo estar sujeito a falhas deste ponto de vista. Eventualmente, alguma citação possa ter sido despropositadamente não mencionada. A Bibliografia utilizada está mencionada no primeiro estudo desta série.

Leia também:
Introdução aos evangelhos
O evangelho de Marcos
O evangelho de Lucas
O evangelho de João
Atos dos Apóstolos

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