quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Bendita espiritualidade judaica

Há quem diga que o pensamento grego influenciou certos tipos de espiritualidade cristã. Alguns mestres me disseram que a espiritualidade grega era dualista, ou seja, fazia uma grande oposição entre corpo e alma. O corpo, de modo geral, visto como algo ruim, e a alma, como algo bom.

Como o corpo era ruim, tinha que ser mortificado em um radical ascetismo, para que a alma, esta sim boa, pudesse se desenvolver. Outros gregos, apesar de aceitarem tal raciocino, “gastavam” o máximo o corpo para que a alma pudesse ser liberta, enfim.

Há quem diga que algumas formas de cristianismo sofreram este tipo de influência, a ponto de serem extremamente radicais com o corpo, ascéticos, cultivando somente um tipo de espiritualidade interior, tanto é que o ideal de vida virtuosa parece ter se tornado a vida do monge, ou seja, o ideal celibatário.

A espiritualidade judaica, ao que me parece, não compartilhava deste ponto de vista.

Os judeus parecem não ter conhecido esta divisão entre corpo de alma de forma tão radical, o que parecia existir era a unidade radical de ambos formando o ser humano todo, ou seja, uma unidade psicossomática.

Isso faz com que não houvesse tal oposição entre corpo e alma, não dava para cultivar um sem o outro.

Daí, isso me faz parecer que era uma espiritualidade mais amiga do mundo físico, pois constantemente na literatura hebraica temos o elogio da própria natureza como manifestação de Deus, e a celebração do corpo.

Ora, parece não haver na literatura monástica nada parecido com o livro de Cantares (sem analogias, é claro), ou o elogio à fidelidade no casamento com este: Seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua mocidade, corça de amores e gazela graciosa. Saciem-te os seus seios em todo o tempo; e embriaga-te sempre com as suas carícias (Prov. 5.18-19).

Ou seja, é uma espiritualidade que gosta de abraço, de beijo, de seios, da boca, de carícias, da natureza, de abraço. Tenho o máximo respeito por obras como “Filocalia”, ou o dito dos padres antigos, mas ao que tudo indica, eles não davam o devido valor à dimensão do corpo conforme vemos em muitas passagens do antigo testamento. Penso que o ideal que devemos buscar como cristãos é o do controle do corpo, não da sua negação.

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