segunda-feira, 6 de junho de 2011

Jean Jaques Rousseau - o pensador solitário



Rousseau (1712-1778) foi criado em Genebra, cidade de Calvino. Mas logo cedo, após uma infância bastante difícil, fugiu e acabou por tornar-se, por necessidade, católico romano.

Uma de suas obras mais famosas foi “Do contrato social”, um clássico do pensamento político.

Algo interessantíssimo em Rousseau foi que ele reagiu veementemente contra o absolutismo de Jean Bodin, Bossuet e Hobbes, mas também não concordou com o liberalismo de Locke e Montesquieu, mais adeptos de um parlamentarismo representativo.

O que sobrava então? Ele elaborou a questão da soberania popular. Um sistema em que, cada qual, dando-se por inteiramente, por igual, continuasse tão livre, ou mais, do que quando se encontrava no que chamou de estado da natureza. Quando todos se associam, criam um corpo político, soberano, que se expressa pela vontade geral, vontade essa não pode errar, pois ninguém quer prejudicar-se a sim mesmo. Ocioso dizer que Rousseau não acreditava nem no poder despótico dos absolutistas, por ferir a igualdade e a liberdade, nem no representativo, dos individualistas, pois ele dizia que a soberania não é transmissível (na prática, equivale a dizer que um deputado nunca irá representar a minha vontade e ao meu direito, a contento). A lei, neste estado, é expressão da já mencionada vontade geral (que não é a soma das vontades individuais). O único governo legítimo, entendendo tal palavra por aquela associação que preserve o máximo de igualdade e liberdade em uma sociedade, fruto da razão, é o republicano. O governante, neste estado, pode até ser um rei, pode até ser uma aristocracia, desde que a serviço do soberano, que é o povo, pois deste é que emana seu “munus”. Separou assim, governo de soberania (verdadeira novidade na ciência política da época, e que hoje já é algo plenamente aceito no ocidente). Ao fim de seu sistema, esboçou os princípios de uma Religião Civil, necessária para quem quisesse cumprir e viver o Contrato Social. Os fundamentos de sua Religião Civil estão na obra “O Emílio”, ou “Da educação”.

O interessante é que sua obra desagradou muita gente. Na França, foi expedido um mandado de prisão, e sua obra foi condenada à destruição. Coisa parecida ocorreu em Genebra. Rousseau conseguiu fazer o que parecia impossível. Uniu católicos e protestantes contra ele. Em suas “Cartas Escritas da Montanha”, Rousseau discorre dizendo que entendia porque sua obra tinha sido condenada pelos católicos, mas achava estranho tal atitude por parte dos pastores protestantes. Em sua obra “Contrato Social” e “Emílio” ele disse, e em parte, o creio, que ele rechaçou o catolicismo, e só favoreceu o protestantismo (se bem que um protestantismo bem liberal, por assim dizer).

Enquanto escrevo estas palavras (junho de 2011), leio que os deputados de Alagoas aumentaram o seu próprio salário de 9.000,00 para 20.000,00, aproximadamente. E desde meados do século XVIII, Rousseau dizia que os representantes do povo, na verdade, não o representavam, e que todo governo tinha uma tendência a se degenerar. Incrível como, quase dois séculos depois, há a nítida sensação de que não somos realmente representados da forma como deveríamos, e que, na verdade, governa-se para si próprio.

Mas uma das coisas que me chamaram a atenção, e que é motivo desta reflexão, é o fato de que Rousseau, em seu tempo, tornou-se um excelente escritor. Escreveu uma novela famosa, a “Nova Heloísa”, que fez bastante sucesso. E, em determinado momento, o rei da França ofereceu um excelente salário para “bancar” Rousseau. E este, orgulhosamente, recusou, pois não queria ter o “rabo preso”.

Quando lemos a obra “Do contrato social”, verificamos que ele combate alguns personagens, entre eles Grotius e Punfendorf. Juristas de primeira categoria. Mas Rousseau não os desculpava, pois, não obstante a lucidez dos escritos daqueles homens, em determinado momento eles “puxavam a sardinha” para os absolutistas, pois eram bancados por estes. Daí, a recusa de Rousseau em ser bancado pelo rei.

Rousseau foi homem que cometeu algumas falhas, sem dúvida. Algumas, talvez, graves demais para grande parte das pessoas, como deixar que seus filhos fossem criados em orfanatos (segundo boa parte dos que contam sua história). Mas conseguiu no decorrer de seus mais de setenta anos, ser um livre pensador. Sua última obra, antes de morrer, foi “Os desvaneios de um caminhante solitário”.

E isso me fez refletir. Ao que parece, a solidão e a incompreensão sempre parecem acompanhar aqueles que ousam pensar de modo diferente, e sustentam seus posicionamentos até o fim (leia, por exemplo, acerca da vida de Leon Tolstoi, que escreveu bastante em favor do que considerava justo, sendo um pacifista de primeira linha, mas que morreu solitário e doente, sem um sepultamento cristão).

Barbaridades, como as cometidas na Revolução Francesa, por exemplo, foram inspiradas em “Do contrato social” (Robespierre julgava-se discípulo fiel de Rousseau). Ninguém saberia direito como aplicar Rousseau hoje em dia. Mas o “cidadão de Genebra” despertou na humanidade aquela “pulga atrás da orelha”, aquele sentimento de que algo anda errado na sociedade, que ainda podemos ser mais livres e mais iguais do que somos hoje; uma busca de um “dever ser” na política que proporcione maior felicidade a todos. E a conclusão que aprendo da história dele é que, provavelmente, um pensador que queira manter o máximo de sua independência de opinião, acabará por ser, em primeiro lugar, incompreendido, e, em segundo, correrá o risco de ser um tanto quanto solitário, pois seu maior reconhecimento, talvez não venha enquanto vivo estiver.

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