segunda-feira, 13 de junho de 2011

Lausanne 3 e a questão da unidade da igreja

Mas por que é tão difícil manter a unidade? Lausanne 3 não respondeu a essa pergunta; porém, nos deu algumas pistas. Como diz Vaughan Roberts, “a unidade de Cristo não pode ser criada, é uma ação do Espírito. Por meio da verdade do evangelho, do Espírito, somos o Corpo de Cristo. Deus pede que vivamos de maneira digna da vocação a que fomos chamados. As divisões não são por diferenças teológicas, mas por orgulho[1]”. Outra pista foi dada pelo teólogo Ronald Sider em uma conversa informal: “O que eu gostaria de ver como resultado deste congresso é um equilíbrio maior de cooperação financeira entre todos nós[2]”.


Mas porque é tão difícil manter a unidade? Lausanne 3 (o terceiro encontro mundial dos evangélicos) não respondeu esta pergunta.

Mas porque é tão difícil responder esta pergunta?

Porque a questão da unidade é tão complicada para o protestantismo?

Quando se fala em unidade, o que se quer dizer com isso?

São questões profundas, penso eu, mas que infelizmente, não sei se um dia teremos respostas satisfatórias à estas questões.

Particularmente, eu esboço uma tese, um começo de conversa sobre esta questão.


Porque é que igrejas, grupos e movimentos que dizem ter nas Escrituras Sagradas a sua regra de fé e prática têm tanta dificuldade de ter unidade?

Se todos os evangélicos e protestantes dizem seguir a mesma fonte de regra e fé, qual seja, a Escritura Sagrada, por que há tantas estruturas eclesiológicas diferentes e divididas?

Temos batistas, com o sistema congregacional, presbiterianos, com o governo de presbíteros, temos luteranos episcopais, anglicanos episcopais, pentecostais, geralmente episcopais também, e a cada dia surgem sistemas dos mais variados, com apóstolos, patriarcas, e cada vez mais divididos.

Novamente, se pergunta. Porque tantas diferenças se seguimos as mesmas Escrituras?

Um esboço de resposta penso ser o seguinte:

É que a questão eclesiológica da igreja não veio resolvida no Novo Testamento.

É uma questão, na minha opinião, em aberto, em construção.

Por isso que grupos que dizem ter nas Escrituras sua única regra de fé e prática têm tanta dificuldade de manter a unidade e uniformidade de estrutura.

É perfeitamente possível sustentar o dogma da infabilidade das Escrituras, e chegar a conclusões teológicas diferentes no que diz respeito à questão eclesiológica, principalmente no que diz respeito ao sistema de governo das igrejas. Daí porque, temos batistas, presbiterianos, episcopais, cada qual, com sua própria eclesiologia.

Mas quando foi resolvida a questão eclesiológica da igreja, então?

Bom, não sei se foi resolvida, mas foi relativamente mais delimitada pelos chamados Pais da Igreja.

Já no início do séc. II, o partido considerado ortodoxo, como o de Policarpo, Inácio, Irineu, Cipriano, entre outros, elegeram o sistema episcopal de governo, com a chamada sucessão apostólica como autenticidade de uma eclesiologia verdadeira. Obviamente, não era a única visão, mas foi a que acabou prevalecendo durante os primeiros quinze séculos do cristianismo.

Falar sobre este sistema episcopal demandaria muito tempo e espaço, mas é só ler estes escritos que mencionei. Veja, que estamos falando de uma unidade estrutural, institucional.

De qualquer modo, a idéia é basicamente assim: os apóstolos ordenaram bispos, e estes bispos, ordenaram outros, e assim sucessivamente. Esta é a chamada sucessão apostólica. Estes bispos espalhados pelo mundo se reúnem em algumas ocasiões, expressando a catolicidade da igreja. O bispo então é o representante da igreja local na igreja universal e vice versa. Quando algum bispo sustenta algo diferente do que a igreja católica decidiu, é um herege. Quando se divide da comunhão dos bispos, é um herege. Para a igreja católica apostólica romana, o líder visível de tais bispos, é o bispo de Roma. Para a ortodoxia, o Patriarca de Constantinopla, para os anglicanos, o arcebispo de Cantuária. Entretanto, tanto ortodoxos quanto anglicanos reconhecem a liderança honorífica do bispo de Roma sobre todos.

A reforma praticamente desprezou a eclesiologia patrística, e, quase quinhentos anos depois, me parece que o protestantismo não resolveu o seu problema eclesiológico. Enquanto o Estado protestante tornava sua religião obrigatória, proibindo as demais, era possível manter uma única igreja em uma mesma base territorial. Mas agora, desprendida a religião do Estado e vice versa, isto se tornou impossível.

Portanto, em seu nível empírico, institucional, eu entendo que a discussão da unidade da igreja passa pela eclesiologia e pelo sistema de governo. O protestantismo não resolveu seu problema eclesiológico, por isso, jamais resolverá o problema da unidade. Quinhentos anos depois da Reforma, os líderes evangelicais de todo mundo não sabem o que responder sobre esta questão, o que demonstra o fracasso da Reforma nesta questão. As pistas dadas no artigo exposto pela revista ultimato são bons conselhos morais, espirituais, mas não resolverão nada no que se refere a uma possível unidade institucional, sendo apenas paliativos, bons até, mas insuficientes, além de provavelmente, alguns deles estarem equivocados. É o preço que pagamos para ter o que consideramos liberdade de pensamento e de iniciativa. O livre exame, o direito de discordar.

Entretanto, é sempre bom lembrar que as Escrituras que dizemos seguir é fruto da unidade da igreja. É uma obra da catolicidade da igreja para a unidade do livro. Nós, protestantes, fazemos o contrário. Partimos da unidade do livro para a divisão das igrejas (nem se pode dizer catolicidade, aqui no caso). Daí, ser uma falácia dizer que o protestantismo tenciona voltar a um tipo de eclesiologia da igreja primitiva, pois, se tal eclesiologia fosse o que somos hoje, nem o cânon das Escrituras teríamos, o que espelha nossa profunda e eterna dependência do catolicismo dos primeiros mil anos.

Sugestões para uma possível resolução do problema da unidade? Bom. Isso é difícil de resolver. Mas minhas sugestões são para que, as denominações que historicamente se dividiram voltem a conversar uma possível volta à unidade, ainda que não consigam fazer tal coisa estruturalmente. Os metodistas no mundo e no Brasil têm feito isso há muitos anos. Os metodistas, no final do século dezenove, nos EUA, estavam divididos em dezenas de denominações, mas conseguiram se reunir em aproximadamente três maiores, tornando a Igreja Metodista Unida a maior denominação protestante do país. No Brasil, têm feito o "dia do Coração aquecido", que reune as maiores igrejas de tradição wesleyana do país. Assim também os anglicanos e luteranos. Igrejas que se dividiram, ainda que pequenas, deveriam identificar o motivo da divisão, sanar, e voltar a se unir. Outro passo é evitar novas divisões. Penso que não precisamos criar de duas a três denominações novas por semana. Ações conjuntas, diálogos, tudo isso é bem vindo. Tudo isso, feito em oração, direção do Senhor da unidade, pois foi Ele que orou: “oro para que todos sejam perfeitos em unidade, assim como eu sou um com o Pai, para que o mundo creia que o Pai me enviou”.


[1] Afirmação profundamente equivocada. As divisões são por orgulho, mas também por diferenças teológicas.
[2] Coisa difícil de acontecer;

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