Logismoi

Theosis

Logismoi são pensamentos, ou mais precisamente, paixões.

Os padres do deserto fizeram a experiência de si mesmos, e sistematizaram os logismoi, que podem ser traduzidos por paixões (pathos).

Daí, o exercício (ascese) do monge é chegar ao estado de apatheia, que não é necessariamente apatia, mas sim ausência de patologias. Patologias estas decorrentes das paixões. Em assim sucedendo, ele alcançaria a pureza de coração (puritas cordis).

Os oito pensamentos mais constantes catalogados pelos padres, e mais precisamente, por Evágrio Pôntico foram:

1) gula (gastrimargia)
2) luxúria (pornea)
3) cobiça (philarguria)
4) ira (orgè)
5) tristeza, depressão (lupè)
6) acidía (acedia)
7) vaidade (kenodoxia)
8) orgulho (uperephania)

Através da pratike o monge buscava se purificar destes pensamentos, ou logismoi.

Esta sistematização foi feita no Oriente cristão, sendo que tais pecados eram, na verdade, expressão da  patologia da alma. A pessoa comete estes atos porque, na verdade, estão doentes. Daí, precisam de cura (therapia). Ajudava neste processo, um mentor espiritual, o abba (pai). Não era visto tanto do ponto de vista jurídico, como posteriormente ocorreu no Ocidente (por aqui, se tornaram os sete pecados capitais).

Todos aqueles logismoi devem se tornar:

1) moderação
2) amor casto
3) generosidade
4) delicadeza
5) alegria
6) consciência espiritual (fervor)
7) magnanimidade
8) humildade

A finalidade deste processo é a theosis, ou seja, a divinização. É a ideia de que, o ser humano se torna co-participante da natureza divina, ou seja, "divino por participação". Há uma famosa frase de Atanásio que dizia que Deus havia se tornado homem para o que homem possa se tornar deus (sempre por participação).

Particularmente, sou um apreciador dos padres do deserto, do movimento monástico, seja oriental ou ocidental. Entretanto, ao praticar tal tipo de espiritualidade, creio que uma pessoa deve tomar o cuidado para não ficar muito "ensimesmada", ciente dos seus próprios movimentos interiores e comportamentos, esquecendo da dimensão relacional e social do evangelho. É preciso sempre estar associando fé e prática, espiritualidade e ação social.

Comentários

  1. Parabéns pelo artigo. Não acredito que alguém, ao praticar este tipo de espiritualidade, possa ficar "ensimesmado". Não obstante que nesta lista alguma coisa possa ficar de fora do exame de consciência, a inobservância destes pensamentos é que, sim, nos leva ao egoísmo. Os padres psicólogos de hoje os chamam de doenças espirituais, mas os padres do deserto falavam que estes "logismoi" eram, na verdade, demônios, em sentido estrito mesmo.

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    1. Tem razão, Victor!
      Se alguém assim se purificar, será muito útil para os que estiverem em seu redor; para isso, tem que ser uma busca autêntica.
      Muito obrigado por ler o artigo.

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  2. Tem algum livro que aprofunde esse assunto?

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    1. Maria.
      Tem sim (desculpe a demora em responder).

      Tem um livro chamado "Como encontrar a felicidade" do Abade Christopher Jamison, da Editora Martins Fontes.

      Tem também o livro "Hesicasmo" de Yves Leloup, da Editora Vozes.

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