terça-feira, 7 de maio de 2013

Neemias e a exploração do povo judeu




E considerei comigo mesmo no meu coração; depois pelejei com os nobres e com os magistrados, e disse-lhes: Sois usurários cada um para com seu irmão. E convoquei contra eles uma grande assembleia (Neemias 5:7).



Neemias liderou o terceiro grupo de judeus que retornou à Jerusalém, após terem sido feito cativos por Nabucodonosor. Os anos se passaram, e, agora os reis persas estavam permitindo, gradualmente, que os judeus voltassem e reconstruíssem sua cidade amada. O primeiro grupo havia voltado com Zorobabel, e o segundo, com Esdras.


Ocorreram muitas dificuldades para todos eles antes de reconstruírem Jerusalém. Uma delas, enfrentada por Neemias, foi a descrita no capítulo cinco de seu livro. Os judeus pobres estavam sendo explorados pelos seus irmãos mais abastados. Primeiramente, tiveram que pedir emprestado para comer. Depois, hipotecar suas próprias propriedades, perdendo-as em seguida. Depois, estavam dando seus filhos e filhas como escravos. Os pobres se queixavam e lamentavam por sua situação.


Ante tal quadro, Neemias, após ouvir as queixas do povo, convocou uma grande assembleia, reunindo os nobres e os magistrados. Confrontou os exploradores, e desafiou-os a que parassem a exploração, devolvessem as propriedades espoliadas, parassem de escravizar os seus irmãos. Lembrou-os que a lei de Moisés proibia o que estava acontecendo. Eles concordaram com tudo o que Neemias, governador de então, havia proposto, foram chamados os sacerdotes, e fizeram um juramento em relação a tal questão. Após, deixaram de explorar seus irmãos, e devolveram suas propriedades e bens.


Algumas meditações vieram ao meu coração após ler tal passagem.


A primeira delas é que, a autoridade governamental precisou interferir na regulamentação econômica daquela sociedade em favor dos mais desfavorecidos. Conforme depreendemos do texto, houve um grupo de explorados e um grupo de exploradores. À medida que a vida avançou em Jerusalém, um grupo se fortaleceu cada vez mais, e outro se empobreceu. As propriedades, as rendas do grupo mais frágil foram se transferindo para o grupo opressor. Sem a intervenção do governador, aquele grupo enfraquecido se tornaria cada vez mais escravizado. Eu entendo que esse texto bíblico nos autoriza a compreender que, uma sociedade economicamente desregulamentada (entenda-se, liberal) tende a reproduzir este tipo de situação. O Estado precisa interferir em favor do mais pobre, caso contrário, sua situação estará reduzida a ser espoliado em seus bens, e explorado em sua força de trabalho, tudo o que lhe restou. O economicamente desfavorecido ficará sempre à mercê de quem o explora.


A segunda, decorrência lógica da primeira, é que, conforme entendo, pode-se depreender analogicamente que as Escrituras Sagradas não defendem o que conhecemos hoje por liberalismo econômico, ou seja, a noção de que o Estado não deve interferir na economia. Digo por analogia, pois ainda era cedo para se falar em capitalismo naquele momento histórico, entretanto, as forças exploratórias, no meu entender, operavam conforme uma logica capitalista. Isso não quer dizer que não há uma liberdade econômica contemplada nas Escrituras, mas sim um cuidado para se evitar a demasiada concentração de renda e o empobrecimento da maioria. O ano do perdão pode ser mencionado com um exemplo legislativo da época que visava corrigir algumas distorções. Mas a Escritura não ratifica um estado superpoderoso que interfira até nas questões mais íntimas da vida. Daí, entendo também que o estado não deve regular todas as questões econômicas, não permitindo nenhuma liberdade, mas conforme já explicitado, deve corrigir as distorções demasiadas. Daí, há a necessidade, a meu ver, de existir sempre uma potencialidade interventiva do governo nestas questões econômicas.


Em terceiro lugar, creio que este texto nos ensina também que a redistribuição de renda, o fim da opressão, a não exploração do necessitado são temas sagrados explicitados na Sagrada Escritura. Os sacerdotes foram chamados para ratificar a aliança entre Neemias e os nobres, e foi feita a promessa, diante de Deus, que tal exploração não voltaria a ocorrer. Estes também devem ser temas das igrejas que se dizem cristãs, dos políticos cristãos, pois o nosso mundo é cercado de tais coisas. Tais temas, infelizmente, fazem parte da pauta de muitos grupos que talvez já não nutram mais nenhuma simpatia pelo cristianismo, isso talvez pelo fato dos cristãos talvez terem abandonado, ou nunca terem aderido a tal discurso.

Em quarto lugar, o governo que cobra tal postura dos exploradores, tem que ter autoridade moral para tanto. Neemias tinha autoridade, pois, conforme o texto nos explicita, ele nunca explorou ninguém, não vivia uma vida luxuosa, e abriu mão até de alguns direitos que os governadores da época tinham. Isto tudo, em favor do desenvolvimento da nação. Ele era um homem de autoridade moral. Infelizmente, muitos dos que chegam ao poder com um discurso popular, ou de justiça social, acabam que se deixando corromper pelas riquezas, e se tornam tão ricos quanto àqueles que queriam combater. Perdem toda a autoridade moral.

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