quinta-feira, 11 de março de 2010

Protestantismo, ortodoxia e liberalismo


É comum vermos uma certa "guerra doutrinária" nos seminários e circulos teológicos evangélicos.

A bola da vez é atacar o que se convencionou chamar de liberalismo teológico".

Entram debaixo desta alcunha desde teólogos neo-ortodoxos como Karl Barth ou mesmo existencialistas como Tillich e Bultmann, que de liberais mesmo, tenho alguma dúvida se algo tiveram...

Aliás, conversando aqui ou acolá, a gente fica sabendo que gente que é considerada liberal por um grupo é considerada conservadora por outro.

Vejamos o exemplo de Dom Robinson Cavalcanti, o grande anglicano brasilerio. No meio evangélico, é considerado um liberal. Se você ler o blog do Júlio Severo, que, salvo melhor juízo, está entre os ultra conservadores, verá muitas críticas ao socialismo de Cavalcanti. Entretanto, se você conhecer boa parte da liderança da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, igreja da qual o mencionado pernambucano foi consagrado bispo, veríamos que por lá ele é considerado ortodoxo, conservador...

Portanto, liberal, conservador, ortodoxo, etc, parece depender um pouco do ponto de vista de quem critica, observa ou defende...

Entretanto, dentro da tradição protestante, quero pensar um pouco sobre esta questão.

Será que há coerência no protetantismo em se assumir uma posição ultra-ortodoxa, atacando outros de ultra-liberais, ou liberais?

Tenho lá minhas dúvidas...

Isto porque, no meu sentir, para a ortodoxia do séc. XVI, o protestantismo deve ter sido considerado um tanto quanto liberal (que foi considerado herético mesmo, isto foi...).

Ora.

Você dizer que a igreja não precisa de clero. Que não existe intermediadores humanos entre Deus e os homens. Que não precisa dos sacramentos para sermos salvos. Que todo crente é sacerdote de si mesmo. Que cada um pode livre-examinar as Escrituras. Que somente a fé salva; que somente a graça basta...

Enfim; se analisarmos cada tese protestante, veremos que, muito possívelmente, ela é uma tese "demitizadora" da doutrina tradicional católico romana!

(se isso for verdade, Bultmann somente continua o que Lutero começou...)

Ou seja, o protestantismo, para o seu contexto, em certo sentido, já nasceu meio liberal...

Paul Tillich, Bultmann, e outros são ultra conservadores, se comparados com Lutero naqueles tempos!...

Obviamente sei que esta não é a única leitura possível do protestantismo. Há quem diga que tal movimento foi uma reação medieval ao renascentismo que estava tomando conta do catolicismo no Ocidente.

Entretanto, acho que ninguém duvidaria que, muitas das doutrinas mencionadas e que foram teses da reforma foram totalmente de encontro com o que se considerava ortodoxia de então...

De qualquer modo, ortodoxias ou liberalismos a parte, alguém que se considera protestante deveria olhar com muito mais ponderação e tranquilidade doutrinas que lhe parecem opostas, tendo em vista que foi o próprio protestantismo que deu ao fiel o direito de livre examinar sua própria fé, característica esta que fez Tillich afirmar que nossa religião foi a primeira a ter o mérito de questionar profunda e cientificamente os seus próprios fundamentos...

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