sexta-feira, 12 de março de 2010

Se o exame é livre, porque a intolerância?...



Há um certo paradoxo no protestantismo.

Paradoxo este daqueles complicados de entender, daqueles em que, um mesmo fenômeno apresenta tantas contradições em um mesmo aspecto que é de deixar qualquer um meio tonto, ou atônito...

Um destes paradoxos do protestantismo é: como um movimento que, de certa forma, esteve na vanguarda do chamado individualismo no Ocidente (isto, tanto no bom como, talvez, no mau sentido) possa desenvolver características, as vezes, tão intolerantes?

Explico.

O protestantismo é, em tese, o ramo da cristandade que tem o menor espectro dogmático de todos; ou seja, comparado com o catolicismo romano e com a ortodoxia do oriente, há pouquíssimas crenças absolutamente obrigatórias no protestantismo.

De modo geral, no protestantismo as crenças tradicionais na Santíssima Trindade, mais as teses protestantes do "Somente a Cristo", "somente a Graça", "somente a fé" e "somente a Escritura" são, de modo geral, são as crenças que toda a comunidade que se vê devedora da Reforma deveria acreditar. Tudo o mais é secundário. Tudo o mais é "adiáfora".

Entretanto, o que se vê na prática é um pouco diferente disso.

Geralmente se faz um cavalo de batalha por questões secundárias.

As igrejas evangélicas se fecham de tal modo em seu conteúdo doutrinário que qualquer discordância faz com que o grupo dissidente, ou mude de igreja, ou funde a sua própria comunidade. Aí, outro grupo dissidente se forma e assim sucessivamente.

O problema de cada nova comunidade, é que cada qual sente a força bem de perto de sua liderança máxima; e, quanto menor a comunidade (em termos globais, mesmo que tenha milhares de membros, uma igreja ainda é uma pequena comunidade), menor o espaço para a pluralidade. E como é comum nos grupos humanos, ainda mais evangélicos, a possibilidade de discordância, o fenômeno das divisões se repete indefinidademente. Mas o estranho é que, não obstante, novos grupos se formarem por intermédio de opiniões diferentes, fato é que, em muito, acabam se assemelhando, mostrando o futuro que, de fato, aquilo que as separou não era tão primário assim...

Então, o protestantismo apresenta o estranho fenômeno de ter uma gama dogmática não tão grande e opressora, como no meu entender é a do catolicismo (com todo respeito aos meus irmãos católicos, lá não se pode discordar em nenhum ponto da igreja), entretanto, é no protestantismo que se sente o peso maior de sua liderança, e, no meio eclesial, geralmente, pouco espaço para manobra. Há comunidades históricas que se dividiram pelo estilo de música que se toca na igreja, pela reforma ou não do hinário, vestes, conservadorismo moral, etc; são os mais variados motivos.

Então, um movimento que tanto apregoou a liberdade de consciência, estará logrando êxito em savalguardar esta mesma liberdade de seus próprios membros?

Se o protestantismo é tão "curto" e "simples", doutrinariamente falando, porque geralmente apresenta tanta intolerância? Acho que são perguntas como estas que os evangélicos, de modo geral, precisam meditar e responder.

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