sábado, 28 de novembro de 2009

"Sede meus imitadores, como eu sou de Cristo"




"Sede meus imitadores como eu sou de Cristo" (Paulo aos Coríntios, Cap. 11, ver.1)


Paulo, quando escreve aos coríntios, exorta seus leitores a que sejam seus imitadores.

Ocorre que os cristãos contemporâneos cometem dois atos de abuso em relação a esta passagem.

Em primeiro lugar, este versículo é abusado por aqueles que o ignoram completamente.

Vocês já devem ter ouvido falar daqueles que ensinam seu povo a dizerem: "não olhe para vida de homens, mas somente para Cristo, somente para Deus"!

Certamente não têm mal intenção ao dizerem isso. É que o estado de coisas na igreja está tão ruim, que não é difícil um novo convertido se escandalizar com a vida que muitos têm levado. Aí, abstratamente, dizemos: olhem para Cristo, não olhem para os crentes!

Mas ao fazermos isso, ignoramos completamente o sentido do discipulado cristão, visto que Paulo colocava-se, ele mesmo, como paradigma de modelo daquilo que ensinava.

Entretanto, há o outro extremo.

Há igrejas e movimentos que criam um rígido sistema de discipulado, e de treinamento cristão.

São sistemas difíceis de serem explicados em poucas palavras. Tratam-se de formas de treinamento, estudos programados, bem como aspectos práticos em que cada crente se submete.

Neste sistema, cada "discípulo" se torna um imitador de seu discipulador, e assim sucessivamente.

Todos os "discípulos" ficam muito parecidos uns com os outros, nestes sistemas. Repetem os mesmos jargões, fazem as mesmas obras e vão "progredindo" a medida que avançam no sistema.

Há igreja que impõem tal sistema a todos os fiéis. Há outras que não, mas os que não aderem ficam marginalizados. As vezes, tais sistemas são impostos somente às lideranças (daí, não ser incomum vermos na televisão líderes falando igual, e até mesmo com os mesmos gestos que seus líderes).

Os líderes de tais sistemas colocam-se como modelos supremos a serem imitados.

Os que não aderem, estão fora; são rebeldes e insubmissos.

Eles, os líderes, é que sabem o que é cristianismo, e o que é melhor para suas denominações, e, "papalmente", vão ditando as regras a serem seguidas (são mais infalíveis em suas comunidades do que o bispo de Roma na Igreja Católica).

É muito provável que esta forma de abuso seja ainda pior do que a primeira, pois naquela, ainda há uma certa humildade...

Mas afinal, o que podemos depreender do sentido do dito de Paulo, quando exorta que devem os seus leitores serem seus imitadores, assim como ele era de Cristo?

Precisamos conhecer um pouco do contexto da época para ensaiarmos uma resposta para esta questão.

Paulo, em boa parte desta epístola, está tratando da questão das carnes sacrificadas aos ídolos, e que fazia parte do cotidiano da cidade de Corinto. Tal carne era adquirida em açougues, e normalmente consumida na casa de algum parente ou conhecido, e, obviamente, nas festas comunitárias em templos não cristãos, bem como em seus rituais.

Diante desta questão, dois partidos se formaram na igreja de Corinto. Um primeiro partido, chamado costumeiramente de "fracos", pois se escandalizavam quando estas carnes sacrificadas eram comidas em qualquer contexto pelos cristãos. E havia o partido dos "fortes" que, por entenderem que "os ídolos nada eram", poderiam consumir tal carne em qualquer ocasião, mesmo em rituais não cristãos.

Sem adentrar profundamente na questão, Paulo, ao tratar desta questão, determinou que, ao se comprar tal carne no açougue, não se ficasse perguntando sua procedência (os templos constumavam vender o que sobrava), e, de igual modo se comportassem caso fossem comer na casa de um conhecido. Ou seja, não ficassem perguntando a procedência da carne e comesse, após darem graças. De modo geral, Paulo permitiu que se comessem de todo alimento, que fora criado por Deus para alimentar o corpo, tão somente não fazendo isso no contexto de um culto não cristão, para que não se tornassem participantes dos demônios.

Entretanto, Paulo ainda advertiu no sentido de que, caso alguém do grupo "dos fracos" se escandalizasse ao ver um outro consumir de tal carne que sabia ter sido antes oferecida em sacrifício aos ídolos, não deveria ser consumida, "por causa daquele que o advertiu".

Ou seja, mais importante do que comer a carne, ou fazer qualquer outras coisa, é preservar a consciência do meu irmão. Se algo que faço o escandaliza, devo deixar de fazer para não entristecê-lo.

Daí, Paulo dizer:

"Não vos torneis causa de tropeço, nem para judeus, nem para gentios, nem tampouco para a igreja de Deus" (1 Cor 10.32).

E, após dizer que em diversas ocasiões já deixara de fazer coisas a que tinha direito por consideração aos demais, arremata dizendo:

"assim como eu também procuro em tudo ser agradável a todos, não buscando o meu próprio interesse, mas o de muitos para que sejam salvos".

E, depois de tudo isso, o apóstolo dos gentios exortou:

"Sede meus imitadores como eu sou de Cristo".

Ou seja, colocar-se como paradigma a ser imitado, como um imitador de Cristo, não consiste em ser um líder superpoderoso, com ares de arrogância, colocando-se como modelo de perfeição absoluta.

O modelo de imitação que Paulo nos ensina é, na verdade, o contrário disso. É um modelo de serviço, de caridade, quase que de fraqueza (mas que na verdade tem grande força), no sentido de não se buscar os próprios interesses, mesmo que legítimos, mas fazer tudo para com todos, não machucar ninguém. "Em tudo ser agradável a todos" para não criar obstáculos ao evangelho e de que permaneçam nele.

O imitador de Cristo preserva a comunidade unida, pelo amor e pelo serviço, usando de toda a caridade e gentileza, ainda que de maneira firme, mas consciente, pois pensa não em si próprio somente, mas em todo o Corpo.

Nada de triunfalismo! Mas muito de humildade e serviço.

Afinal, não foi isso que Cristo fez, ao abrir mão de seus próprios interesses, da sua glória que tinha com o Pai, e mesmo durante sua vida na terra, para nos salvar?

Portanto, se quisermos ser imitadores de Paulo e de Cristo, devemos ficar atentos aos sentimentos de nossos irmãos, para preservarmos nossa comunidade unidada pelo vínculo da perfeição, que é a caridade, pois somos todos um em Cristo Jesus.

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