sábado, 9 de abril de 2011

O cristianismo de Bultmann


Quando comecei estudar teologia evangélica, em 1995, havia um nome que causava mal estar nos seminários. Era o nome de Rudolf Bultmann. Hoje, se você for a Rua Conde de Sarzedas, aqui no Centro de São Paulo, na “rua dos crentes”, em várias lojas poderá encontrar a sua famosa obra “Teologia do Novo Testamento”, entre outras. Entretanto, nas católicas, suas obras já podiam ser encontradas há muito mais tempo.
O mal estar se dava pelo fato de Bultmann propagar aquilo que chamou de “desmitologização” (alguns falam em “demitologização”, outros em “demitização” – a tradução da obra “Jesus Cristo e a Mitologia”, da Fonte Editorial, traz o termo “desmitologização” mesmo) do cristianismo. Talvez outros estudiosos de Bultmann dêem definições diferentes para cada um destes termos, enfim.
O teólogo alemão advogava a idéia de que o mundo mitológico, do qual o Novo Testamento foi escrito não corresponde mais à mentalidade do homem moderno. Mas o mito, em si, não é a essência da mensagem do evangelho, de modo que, cabe ao teólogo “desmitologizá-lo”, pois o mito se lhe tornou uma pedra de tropeço, tornando-o inteligível.
Bultmann erroneamente era chamado de teólogo liberal, mas na verdade, é alguém profundamente influenciado pela corrente filosófica denominada existencialismo; além do que, ele rejeitou a tentativa de se conhecer o perfil puramente histórico de Jesus, que parecia estar bastante em voga na época (afinal, para ele, um era o Jesus histórico, impossível de ser conhecido e ser reconstruído, e outro, o Cristo da fé). De qualquer modo, o método de Bultmann implicava em não conhecer mais como acontecimento histórico qualquer dos elementos miraculosos relatados nas Sagradas Escrituras. Nem milagre, nem nascimento virginal, nem ressurreição (no sentido tradicional do termo, como ocorrência histórica), nem outras coisas. Reconhecer o milagre como acontecimento histórico real equivale a fulminar a fé, visto que, se posso ver o que espero, não preciso ter mais esperança. Ou seja, há uma tremenda radicalidade no “sola fides” de Lutero.
Eu mesmo não concordo com os postulados do referido teólogo alemão. Não sou tão moderno assim.  Entretanto, se pensarmos friamente, Bultmann estava tão somente levando adiante algo que começou com Lutero e a Reforma Protestante. Já disseram muito antes de qualquer teólogo que o protestantismo foi o movimento de mais radical desencantamento do mundo que já existiu no ocidente, e talvez seja verdade.
Pensemos. A Reforma “desmitologizou” a idéia de que a igreja era necessária para a salvação, rejeitando a eclesiologia da igreja primitiva (primeiros trezentos anos), a sucessão apostólica dos bispos, do primado do bispo de Roma, a separação, pelo menos no nível teórico, entre clero e laicato. “Desmitologizou” o sacramento principal da igreja, pois parte de suas vertentes negou a conversão dos elementos consagrados em corpo e sangue do nosso Senhor Jesus Cristo. “Desmitologizou” a virgindade perpétua de Maria, bem como a idéia de intercessão dos santos. Isso, só para ficarmos em alguns exemplos. E isso, estou descrevendo o que acredita o protestantismo conservador (se descrevêssemos a “teologia de Rousseau”, o cidadão de Genebra, teríamos que nos aprofundar nesta lista).
Mas alguém poderá protestar (afinal, somos protestantes) dizendo que os reformadores fizeram isso entendendo que estavam voltando ao cristianismo primitivo. Ocorre que os modernos teólogos liberais (que em boa parte, também são protestantes), por exemplo, quando utilizam-se da crítica histórica e literária, estão na verdade, tentando voltar a um tempo mais recuado possível, antes que, segundo dizem, camadas e camadas de elementos mitológicos fossem acrescentadas ao Jesus dito histórico. Ou seja, é um retorno “ad fontes” ainda mais radical do que os reformadores empreenderam.
Por isso, pode-se (e deve-se, entendo) discordar de Bultmann, criticá-lo (não demonizá-lo), mas não ignorá-lo (como fazem boa parte do seminários evangélicos), pois se trata de um filho da Reforma, um grande luterano, homem de teoria e também de prática eclesial que, para o bem ou para o mal, foi talvez um dos divisores de águas da teologia do século XX. Isso porque, não fez como os liberais que, ao que parece, desprezaram porções enormes das Escrituras, reduzindo o cristianismo à questão moral, nem faz como os fundamentalistas que precisam interpretar tudo ao pé da letra (mas nem por isso, podemos chamá-lo de evangelical). Ele propôs então, uma forma diferente de se procurar interpretar as passagens bíblicas, que, para ele, eram inaceitáveis ao homem moderno. Junte Bultmann à Marx, e temos aí, a teologia da libertação (ou, pelo menos, uma vertente dela).
Entretanto, contra Bultmann, vale sempre lembrar, que a média do homem no mundo inteiro (falando de forma bastante grosseira, confesso), está muito longe de ser o ser humano moderno que o teólogo alemão levou em consideração em seus estudos; logo, os conteúdos bíblicos, para a maior parte das pessoas não é ainda pedra de tropeço (assim como não é para muitos doutores). Daí, o homem moderno preconizado por Bultmann, talvez, ser em alguma medida, um homem hipotético (se bem que dificilmente voltaremos a ter a mentalidade do homem dos tempos bíblicos, em muitos aspectos). Além do que, religião, ao que me parece, sempre envolve um aspecto sobrenatural. Retire-se isso, e, ao que parece, não estaremos mais diante de uma religião, pelo menos, não no sentido tradicional do termo. Algo assim teria condição de atrair pessoas e se perpetuar no tempo? Pode, uma igreja, seguindo os postulados do referido teólogo, sobreviver?

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