segunda-feira, 28 de junho de 2010

Protestantismo e individualismo



"Daí, alguns já terem dito que um protestante tentar combater o individualismo é como tentar sair do chão puxando os próprios cabelos..."
Semana passada tive uma aula excelente com um professor de sociologia evangélico que nos falava acerca do individualismo moderno, passando pelo Renascimento até a Revolução Industrial, entre os pareceres de diversos doutos acerca do assunto. O individualismo, em seu sentido mais radical e doentio, todos na sala concordaram, é um mal a ser combatido.

Foi quando lhe perguntei (sou um aluno meio chato) o que o protestantismo poderia ter a ver com o individualismo moderno; e, em uma sala lotada de alunos protestantes, o professor disse-me, brincando, que eu o havia colocado em maus lençõis... De qualquer modo, fez umas poucas citações de alguns que entenderam a participação do movimento protestante na formação espiritual da sociedade moderna, mas que não daa para entrar em muitos detalhes naquele momento.

Alguns alunos experientes espantaram-se um pouco da associação protestantismo/individualismo, pois nunca haviam pensado no tema.

Bom.

Nada fácil este assunto...

É difícil saber até que ponto o protetantismo é a causa do individualismo moderno, ou um produto dele. Há tantas visões acerca da Reforma Protestante que em pequenos ensaios só dá mesmo para fazermos pequenos cortes.

Fato é que, em algum sentido, o protestantismo realmente contribuiu para o desenvolvimento de uma visão mais individualista no campo religioso.

Isto porque, a própria teologia protestante é uma teologia que, etapa à etapa procura afastar os intermediadores, e colocar o ser sozinho, diante de Deus, e perante uma escolha, em sua situação existencial.

No mais popular que acabou-se por captar da teologia protestante, entre outros dados, é o fato de, por exemplo, não haver mais a necessidade da intermediação da igreja no processo de salvação do indivíduo, pelo menos não de uma igreja institucionalmente definida e limitada. Talvez nunca se tenha dito com tanta confiança de que é a fé, a fé individual que salva, e deu-se um direito gradativamente conquistado para o livre exame das Escrituras, sem a necessária intermediação da tradição. Dispensou-se gradativamente inclusive a participação nos sacramentos para a salvação.

Ou seja, em outras palavras, nada mais era necessário; somente a fé individual no Salvador.

Daí, alguns já terem dito que um protestante tentar combater o individualismo é como tentar sair do chão puxando os próprios cabelos...

Estavam os reformadores, de certa forma, no centro de uma guinada que o mundo moderno deu rumo ao antropocentrismo e ao secularismo. O protetantismo tanto pode ser um produto daquele mundo, bem como uma reação a ele, o que, de certa forma, não deixam de ser coisas parecidas. Alguns dizem que a Reforma foi uma forma de destruição da cristandade, outros, que somente com o protestantismo que esta mesma cristandade pode sobreviver.

De qualquer modo, seja como base, seja como produto do individualismo ocidental, fato é que somos uma religião mais individualista que o catolicismo romano. Basta ver que quase ninguém, nenhum bispo, nenhum padre ousa sair de sua igreja para fundar uma outra igreja católica. Um teólogo católico nunca diz "eu penso assim ou assado" quando fala em nome de sua igreja; nem sequer pode professar uma teologia que já não tenha sido, de certa forma, aprovada pelo todo (ou no catolicismo romano, pelo menos declarada pelo papa). Já no protestantismo, isso é um acontecimento natural. Com o advento do pentecostalismo mais recente, penso até que as próprias indentidades denominacionais que traziam alguma unidade para os diversos ramos protestantes se desfizeram, dando início a uma impressionante variedade de comunidades eclesiais de todos os tipos possíveis. Intuitivamente, muitos líderes pentecostais já notaram o problema, de modo que endureceram o discurso sobre a submissão dos fiéis á seus líderes e obediência à hierarquia; algo um tanto quanto estranho no discurso protestante tradicional (digo isso, não como crítica, mas como constatação de um fato).

Fica portanto, pelo menos no nível sociológico, um pouco difícil mesmo ser protestante e fazer uma crítica radical ao individualismo, por mais que seja dificil admitir.

Entretanto, como um destes estranhos paradoxos da vida, penso que há algo que pode militar em nosso favor.

Não obstante a multiplicação eclesial que sempre caracterizou o protestantismo, temos, em nossa história, uma bonita e atraente tradição comunitária que geralmente falta a outras expressões de fé cristã, e que pode mitigar o individualismo que foi projeto sobre ou a partir de nossa fé.

Nossas comunidades podem vir a ser uma extensão nossas famílias. De modo geral, nelas, todos nos conhecemos pelo nome uns dos outros, frequentamos as casas uns dos outros (a exceção dos novos grupos neopentecostais, mas isso é outro assunto). Os pastores são pessoas como nós, com suas famílias, seus filhos, sem embates, e não alguém do distante clero (por exemplo, o pastor que me discipulou foi o mesmo que fez meu casamento, e que foi no hospital visitar minha família quando minha filha nasceu). Há uma pessoalidade em nosso discipulado e vivência cristã, e penso, meus irmãos, que é isso que não podemos perder, esse sentido de comunidade.

Em um nível mais amplo, é bom que estejamos todos unidos, pregando uns nas igrejas dos outros, celebrando nossa vida cristã uns com os outros, expressando um verdadeiro ecumenismo evangélico. Em minha comunidade, que é pentecostal, pregam pastores batistas, presbiterianos, assembleianos entre outros (no protestatismo, há maior honra é de quem prega, diferente do catolicismo, que a maior honra é do que preside a celebração eucarística); quando podemos, realizamos eventos com outras denominações. Ou seja, em outras palavras, como não temos uma super estrutura burocrática que mantenha a unidade institucional, temos a oportunidade, de, não a partir de uma estrutura heterônoma, mas a partir de nós mesmos, rejeitarmos o caminho do individualismo, para, em nossas comunidades sermos aquele tipo de pessoas dos quais Jesus falou que, se amarmos uns aos outros, seremos reconhecidos como seus discípulos.

Por isso, prezados irmão evangélicos, temos este desafio de florecermos naquelas comunidades em que fomos gerados em Cristo, para, pela fé que opera pelo amor, construírmos famílias de relacionamentos em sociedades que, não obstante superlotadas, estão refletas de pessoas solitárias, vítimas e algozes do individualismo que assola nossos dias.

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