quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Eunucos pelo Reino de Deus

Lá estava ele, o rapaz, boa gente, educado.

Levava sua vida como qualquer outro cidadão deste país. Nem mais, nem menos inteligente que a maioria de nós.

Estudioso, trabalhador, etc.

Entretanto, muitos o recriminavam por ele ser homossexual.

Eu o conheci em uma livraria (frequento muitas livrarias).

Papo vai, papo vem, não sei porque cargas d'água, entramos neste assunto e ele me confessou ser homossexual.

De cara, já falou que nunca sofrera um trauma realmente sério na vida.

Disse-me que sua família era católica fervorosa. Que todas as quartas feiras se reuniam para rezar com alguns amigos. Que seus irmãos (num total de dois) não tinham o mesmo "problema" que ele. Diz que se sentia recriminado.

- De onde este pessoal pensa que a gente surge? Será que eles acham que a gente surge do espaço?

Ele me compartilhou ainda mais. Me disse que não se sentia mais bem em uma igreja que não o aceitava do jeito que ele era. Mas que não queria ir para estas igrejas evangélicas de pastores e público homossexual, pois entendiam que tais igrejas eram guetos. Queria ir para igrejas, comunidades "normais", em que houvesse pessoas de todos os tipos.

Fui um bom ouvinte. Fique com uma dúvida danada do que dizer para aquele homem... Entendi que não era o momento para pregações.


(...)

O Pastor Daniel estava pregando um belíssimo sermão na igreja.

Em meio a pregação, ele falou sobre as diversas vocações que estamos todos diversos. Disse que um dia pregava em uma igreja, em que um dos irmãos era uma benção.

Entretanto, este irmão que era uma benção, era homossexual.

Após o culto, aquele rapaz foi, a pedido de um ancião da Igreja, se aconselhar com o Daniel. Após contar tudo, o pastor lhe perguntou:

- Você é homossexual mesmo?

- Sim, pastor.

- Você não gosta de mulher de jeito nenhum?

- Não, pastor, de jeito nenhum!

O pastor pensou, pensou... pediu sabedoria a Deus. O que dizer para aquele rapaz, que já estava há tanto tempo naquela igreja, e se mostrava uma benção.

- O Senhor me dá uma palavra!

- Que Palavra, pastor?

- Mateus 19.12. Você está sendo chamado por Deus para ser um eunuco por amor de seu nome.

Então o pastor começou a lhe falar sobre as imensas possibilidades de servir a Deus de forma desimpedida. O pastor entendeu que aquele rapaz de modo algum iria gostar de mulher. Entretanto, que ele poderia dar muito para Deus, e receber muito de Deus através da sua vocação e serviço.

O rapaz lhe ouviu com muita atenção, com muita expectativa. Conforme ouvia, seu coração ira se enchendo de alegria e de emoção. O Espírito Santo nele parecia confirmar todas aquelas palavras.

O tempo se passou, e aquele rapaz continua a servindo Deus na igreja, e é uma benção na comunidade.

(...)


Meu amigo "L" diz ter passado por maus bocados.

Evangélico desde adolescente. Nunca escondeu sua dificuldade em relação a sua sexualidade.

Quantos apelos ele respondeu. Quantas vezes foi até a frente, chorando, chorando, com aquele batalhão de irmãos e pastores, orando por ele, expulsando o espírito disto, o espírito daquilo. Fazia aqueles compromissos, votos, campanhas, etc. Como nada mudava, sentia-se cada vez mais mal.

Até que, em determinado momento de sua vida, conheceu os episcopais.

Estes, os episcopais anglicanos, têm uma teologia muito diversa. No Brasil, possuem aquilo que Paul Tillich chamou de substância católica e uma teologia protestante. Nesta igreja,aprendeu a conviver com sua sexualidade. Sua forte herança evangélica nunca lhe permitiu ter uma relação homoafetiva. Hoje, ele é um postulante das sagradas ordens, membro ativo daquela igreja, não fez voto de celibato, mas tudo indica que caminha para isso. Ele é muito inteligente, tem uma produção e conhecimento teológico considerável, tanto da vertente protestante quanto católica do cristianismo, além de prestar um excelente serviço em sua comunidade.

Onde eu quero chegar com estas histórias? Não sei bem ainda.

Eu poderia ainda falar de mais alguns que passaram pelo meu caminho no movimento evangélico. Tinha um que frequentou comigo a Assembléia de Deus Betesda, muitíssimo boa gente, que inclusive, participou comigo em uma missão no Nordeste. Uma benção. Mas a última notícia que tive foi de que "voltara para as ruas, voltara para aquela vida"... Conheci um outro, notadamente homossexual, que também não ficou muito tempo em nossa comunidade, uma pena... Acho que nossas igrejas não estão muito bem preparadas para acolher este grupo... Além do que, sei que há membros enrustidos em igrejas conservadoras. Não de ouvir falar; eu sei mesmo!

Tudo isso é muito complicado, e eu sei que há histórias diferentes destas, muitas outras...

(...)

Bom. Um tempo atrás, encontrei novamente aquele meu colega que trabalhava naquela livraria.

Ele ainda estava angustiado com toda aquela situação, até que eu acabei por indicar-lhe um padre anglicano para que ele se aconselhasse. Este padre, pessoa a quem admiro profundamente, é homossexual declarado, entretanto, fez voto de celibato. É um dos mais ativos párocos anglicanos que conheço. "Vai lá conversar com ele", eu lhe disse.

E ele foi. E ele gostou. Os anglicanos, não obstante o discurso bem liberal, não se tornou um gueto, um reduto somente para cristãos homossexuais. Será que eu errei em não lhe ter pregado, naquele momento, a reta doutrina? Sei lá. Só sei que ele já ouvira falar muito sobre a tal reta doutrina e acabei achando que, menos pior do que perdê-lo do cristianismo, era melhor ganhá-lo, ainda que em uma opção cristã alternativa. Se errei, peço a Deus perdão.

Há muitas e muitas coisas que podemos pensar refletindo nestas histórias. Todas verdadeiras, em que eu não inventei nada.

Uma das coisas que medito é que, no meio ultra-evangélico, penso, temos sufocado, durante séculos, a possibilidade da manifestação e atuação de membros celibatários, homossexuais ou não. Estes acabam tomando um "status" inferior, pois não fazem parte do honroso grupo dos casados. Assumimos a radicalidade do outro lado, ao ponto de não permitirmos pastores que não sejam casados, com pouquíssimas exceções.

Pensemos nisso. Breve, novas histórias e meditações.

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