A natureza da missão da igreja, no pensamento de John Stott

John Stott, participando de algumas conferências mundiais, relata em sua obra “Missão Cristã no mundo moderno” que havia dois grupos que discordavam entre si.

O primeiro, a quem denominou de “evangélicos”, entendia que missão seria somente pregar o evangelho e conseguir o maior número possível de convertidos. Não havia interesse em transformar o mundo, pois este era irremediavelmente mau. Alguma transformação, no máximo pelo exercício de alguma influência cristã na sociedade por parte dos convertidos.

Já, o segundo grupo, a quem denominou de “ecumênicos”, entendia que missão era justiça social, trazer a paz de Deus sobre a terra. A ideia seria apoiar aquilo que Deus estivesse fazendo no mundo por intermédio de algum grupo de pessoas que nem precisava ser da igreja (e geralmente não é). Então, por exemplo, se alguém estivesse combatendo o racismo, era dever da igreja apoiar tal grupo. Entretanto, tal grupo não tinha mais nenhum interesse no evangelismo.

Contra o primeiro grupo, Stott tece a crítica no sentido de que há uma visão muito limitada de Deus, e uma rejeição clara que do que ele define como “mandato cultural”, que é justamente a ideia de que o cristão deve atuar no mundo que Deus criou e se esforçar para que este seja administrado da melhor forma possível para o Criador, o que significa batalhar por estruturas justas, bem como na promoção de dignidade para todos.

Contra o segundo, é justamente pelo fato deste ignorar o mandato de pregar o evangelho. Além do que, Stott considerava que essa ideia de trazer a shalow de Deus para o momento presente acabava por ignorar um pouco o aspecto escatológico desta noção de paz. Também considerava ingenuidade achar que todo e qualquer movimento revolucionário pudesse ser considerado como uma atividade de Deus no mundo.

A resposta que Stott dá para tais questões é considerar que a Missão cristã envolve tanto a pregação do evangelho, quanto a responsabilidade social. E ambas são coisas independentes entre si, no sentido de que não devemos só ajudar quem for irmão na fé, e nem devemos ajudar alguém para que se torne irmão na fé. Essa responsabilidade vem justamente do exemplo de Jesus em ser um servo para com todos. Stott diz que geralmente os evangélicos dão maior ênfase ao que foi determinado na conhecida “grande comissão”, que era de pregar e ensinar, porém ressalta que “guardar todas as coisas que Jesus ensinou” envolve seus ensinamentos de amor e cuidado para com o próximo.

Stott, nesta obra, não deixa de reconhecer que a ênfase da missão está sim na salvação eterna, e que esta é a sua função principal. Entretanto, realizar o trabalho amoroso de Deus no mundo também é responsabilidade dos discípulos do Senhor.


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