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Qual deveria ser o papel da igreja diante da pandemia?

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A gripe espanhola matou pelo menos 50 milhões de pessoas . Isso não irá acontecer com a presente pandemia. Nem chegaremos a metade disso, muito provavelmente. E sejamos honestos. Não é porque aumentou o número de igrejas, mesquitas, sinagogas, ou religiosos no mundo. Não. É porque a ciência avançou de lá para cá. Sabemos que, se tivemos em curto prazo uma vacina, não será por conta das religiões, institucionalmente falando. Até é possível que defensores de uma religião "A" ou "B" possam fazer uma defesa, no sentido de que seus princípios possibilitaram o surgimento da investigação científica. Talvez seja verdade. Mas isso é uma questão filosófica cujo escopo não é possível tratar aqui. De qualquer forma, são laboratórios, cientistas, especialistas que chegam à criação de remédios, vacinas, que podem evitar a morte de milhões de pessoas. E tudo isso financiado com muito dinheiro. E qual o papel social da Igreja diante de um quadro assim? Ou qual o papel das religiões

A difícil questão do aborto

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A questão ética referente ao aborto é pacificada no meio cristão (pelo menos mais conservador), por se considerar que a vida já começa com a concepção. As Escrituras ensinam que pode haver uma ação do Senhor na vida fetos. No próprio relato evangélico João Batista era cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua genitora, e, de algum modo, reconheceu Jesus ainda no ventre de Maria, quando esta visita Isabel, sua prima. Então, é impossível para o cristão, por razões teológicas, ser favorável ao aborto. Isso, me parece um assunto indiscutível. Devido aos clamores sociais que levam em consideração as condições precárias com que algumas mulheres resolvem abortar, colocando em risco suas próprias vidas, fizeram com que movimentos pela liberação do aborto surgissem. Sinceramente, pensando bem a respeito do assunto, sou da opinião de que Jesus não aprovaria nem recomendaria o aborto, salvo se for para preservar a vida da própria mãe. No caso de uma violência sexual, sou da opinião que se dev

O retorno gradual às atividades da igreja e a pandemia

 A igreja da qual tenho o privilégio de ser um dos pastores retornou suas atividades há quase três meses. Temos procurado manter todas as regras possíveis de segurança. Procuramos controlar a quantidade de membros, manter distância entre as cadeiras, e colocar álcool espalhado por todos os lugares.  Os que pregam e cantam, continuam usando máscaras, mesmo que isso gere um certo desconforto. E além do culto presencial, também fazemos depois, no mesmo dia, um encontro on line, para possibilitar a participação daqueles que não estiveram presencialmente. Esse tem sido um momento muito "sui generis". Ninguém estava preparado para algo assim. Algumas igrejas praticamente não fecharam durante a pandemia, mesmo havendo infecção de membros. Outras, não retornaram até os dias atuais. Em tudo, me parece necessário tentar buscar um certo equilíbrio. Mantida as normas de segurança, é possível cultuar presencialmente. Entretanto, não devemos nos comportar de forma triunfalista,  como se na

A vontade de Deus e a pandemia

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Decorridos alguns meses desta pandemia, muitos de nós conhecíamos alguém que veio a óbito por conta deste vírus. A maioria das vítimas, provavelmente, pessoas de mais idade, e com alguma enfermidade anterior. Entretanto, tendo em vista a grande quantidade de vítimas, também pudemos verificar que algumas pessoas jovens padeceram. A tristeza é grande, independente da idade. Entretanto, é bastante chocante quando percebemos que alguém poderia ter vivido mais dez, vinte ou mais anos ao lado dos seus, e de repente, partiu. Eu acho particularmente espantoso ver que há alguns dias tais pessoas estavam com suas famílias, em suas igrejas, postando em suas redes sociais, e agora não estão mais entre nós. Mas o que causa certa chateação, a mim ao menos, é verificar algumas das observações que são feitas neste momento, muitas vezes com a maior das boas intenções: “Deus o recolheu”, “Deus o tomou para si”, “Foi vontade de Deus”, e por aí vai. Particularmente, às vezes penso que certas esp

No princípio, era o Verbo, o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (João 1.1-5)

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O Evangelho segundo São João é o que possui a mais alta cristologia entre todos. É, por assim dizer, o mais teológico dos evangelhos. Não há parábolas. Há vários diálogos. Os milagres são chamados de sinais, e estes têm o propósito de demonstrar que Jesus é o Filho de Deus. A autoria pertence ao discípulo amado, que na tradição é identificado com o apóstolo João. Vamos fazer uma singela análise dos primeiros cinco versículos, sem a pretensão de que seja um comentário exegético expositivo, pois para isso já há muitas boas obras escritas. Este, é o resumo de uma pregação.   No princípio era o Verbo   Percebe-se aqui um paralelo com o texto de Gênesis 1. Lá, relata-se a Criação. No evangelho, a referência possível a uma nova criação, mas também ressaltando-se que no início de tudo, o Verbo estava presente. Jesus é o agente de uma nova criação, de um novo tempo. Verbo é uma tradução do termo grego “Logos”. Enciclopédias foram escritas discutindo este conceito. Pode ter a ve

Resenha da obra "Ego Transformado", de Tim Keller

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KELLER, Tim. "Ego Transformado"  Tradução de Eulála Pacheco Kregness. São Paulo: Vida Nova, 2014. Tim Keller é pastor, fundador da Igreja Presbiteriana do Redentor, em Nova Iorque, escritor e apologista. Na introdução desta obra, Tim Keller narra as discussões na igreja de Corinto em que cada grupo dizia se identificar em torno de um líder. Tais motivações eram o orgulho e a vanglória. Menciona que tradicionalmente se creditava à auto-estima o fundamento de muitas atitudes ruins, mas que modernamente, se pensa justamente ao contrário: é a baixa-auto estima que gera más ações. De qualquer modo, o autor ressalta que o apóstolo Paulo irá demonstrar uma forma diferente de entender estas questões. No capítulo primeiro, discutindo o texto de 1 Co 4.6, menciona que Paulo havia exortado os seus leitores a "não se orgulharem de uma pessoa em detrimento de outra", sustentando que o apóstolo quer ensinar aos seus leitores algo acerca do ego humano, mencionando que o termo"

As igrejas evangélicas durante a pandemia

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Durante esta pandemia, muitas igrejas precisaram aprender a utilizar as plataformas virtuais a fim de continuar suas reuniões. Entretanto, nem todas as fecharam suas portas. Quem vive principalmente nas periferias, sabe que muitas igrejas permaneceram abertas. Os motivos podem ser dos mais diversos. Alguns parecem entender que há um tipo de proteção divina especial sobre a vida dos fiéis. Outros, parecem também ter tido uma atitude um pouco mais negacionista. Sem dúvida, muitos entenderam a igreja como uma atividade essencial. Alguns precisavam das arrecadações para sobreviver, e outros, fazem da religião negócio. Algumas igrejas preferiram suspender por um tempo suas reuniões presenciais. Entenderam que tal cuidado era um ato de amor e de cautela para com os fiéis. Não enxergam um confronto entre fé e ciência, bem como, no meio do turbilhão de informações, preferiram manter a cautela. Muitas agora estão retornando aos cultos presenciais com as devidas cautelas. Tenho ami

Resenha do livro "A Missão Cristã no mundo moderno", de John Stott

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STOTT, John. A missão cristã no mundo moderno . Trad. Meire Portes Santos. Viçosa, MG: Ultimato, 2010,160 p. John Stott foi clérigo anglicano, por trinta anos, servindo na Igreja "All Souls", sendo uma das principais vozes do conhecido "Pacto de Lausanne", tendo sindo considerado, em 2005 pela Revista Times, como uma das 100 personalidades mais influentes do mundo. Stott, nesta obra, procura oferecer alguns princípios acerca da missão da igreja. Embora o título pareça voltar a missão para o "mundo moderno", o autor parece entender que na verdade são os princípios bíblicos voltados para todas as épocas, talvez culturalmente adaptado para nossos tempos. No primeiro capítulo, expõe a diferença de concepções acerca do que seria a missão cristã entre dois diferentes grupos. Os evangélicos entendiam que missão, basicamente, é pregar o evangelho. Já, os ecumênicos , entendiam missão como justiça social, não se importando com evangelismo. Stott argumenta, a part

Guiados pelo Espírito Santo

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“Encontrando os discípulos, permanecemos lá durante sete dias e eles, movidos pelo Espírito recomendavam a Paulo que não fosse a Jerusalém” (Atos 21.1-4). Era o final da terceira viagem missionária de Paulo. Em Tiro ele foi alertado pelos discípulos para que não fosse para Jerusalém. Ocorre que durante o caminho até ali, Paulo já tomara conhecimento disso, por intermédio do Espírito (Atos 20.23). Em Cesaréia, eles receberam a visita do profeta ‘Agabo’, que, pelo Espírito, reafirmou que Paulo seria preso em Jerusalém (Atos 21.10-12). Que lições podemos aprender dessa narrativa? Em primeiro lugar, que a revelação dada pelo Espírito Santo é igual a todos os filhos de Deus . O Espírito relevou a Paulo, aos discípulos e a Ágabo que o apóstolo seria preso em Jerusalém. Ou seja, Deus não é Deus de confusão, e revela sempre o mesmo para os seus filhos. Em segundo lugar, podemos perceber que a reação de cada qual diante daquilo que foi revelado pelo Espírito pode ser diferente . Os disc

A natureza da missão da igreja, no pensamento de John Stott

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John Stott, participando de algumas conferências mundiais, relata em sua obra “Missão Cristã no mundo moderno” que havia dois grupos que discordavam entre si. O primeiro, a quem denominou de “evangélicos”, entendia que missão seria somente pregar o evangelho e conseguir o maior número possível de convertidos. Não havia interesse em transformar o mundo, pois este era irremediavelmente mau. Alguma transformação, no máximo pelo exercício de alguma influência cristã na sociedade por parte dos convertidos. Já, o segundo grupo, a quem denominou de “ecumênicos”, entendia que missão era justiça social, trazer a paz de Deus sobre a terra. A ideia seria apoiar aquilo que Deus estivesse fazendo no mundo por intermédio de algum grupo de pessoas que nem precisava ser da igreja (e geralmente não é). Então, por exemplo, se alguém estivesse combatendo o racismo, era dever da igreja apoiar tal grupo. Entretanto, tal grupo não tinha mais nenhum interesse no evangelismo. Contra o primeiro grupo, Stott te

Quando o não agir de Deus é mais amoroso do que o agir

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Uma das coisas mais tristes que se realiza no ofício pastoral é visitar alguém no hospital que esteja com uma enfermidade terminal. Como gostaríamos de ter um poder infalível de curar alguém nestes momentos. Clamamos sim. Alguns se levantam, melhoram, tocam sua vida. Outros, não. Há momentos em que visitamos alguém jovem. Ele nos olha nos olhos procurando um motivo. Não temos nenhum a oferecer. Expressam que querem continuar a viver. Apoiamos seu desejo, lhes oferecendo palavras de ânimo e de confiança. Por isso é tão triste quando ao final de uma luta assim, a pessoa não resiste. Sim, há pessoas que acreditam em uma cura sobrenatural até o último instante. E esta não acontece. E a pessoa parte. Quero acreditar em algo que me faça entender e aceitar esse momento. Sou uma pessoa da fé. Quero crer que se tal pessoa partiu, foi para uma realidade bem melhor que essa. Se o Pai não a curou, é porque a ama. Quero entender que curar é algo bom. Mas levar a pess

Tiago, Pedro, a teologia do processo e a soberania divina

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O primeiro apóstolo a ser martirizado foi Tiago, irmão de João (Atos 12.1). Foi passado ao fio da espada, por determinação de Herodes. Segundo o autor de Atos, em uma clara intenção de agradar os judeus, o governante mandou também prender a Pedro. Entretanto, o príncipe dos apóstolos teve um destino diferente. Ele foi liberto miraculosamente por um anjo (Atos 12.9). Ele estava preso, sob vigilância de alguns soldados. Depois, pela manhã, estes são executados, tendo em vista que Pedro fugiu. Alguém poderia perguntar: mas por que Deus libertou Pedro e não a Tiago? E o que dizer dos soldados que foram mortos, mesmo não tendo culpa alguma da fuga de Pedro? Não é injusto que eles morressem dessa forma? São perguntas pertinentes. Há algum tempo, estão surgindo teologias no sentido de que o Senhor não pode agir nesse mundo de forma sobrenatural, pois isso seria favorecer alguém e não a outro, demonstrando uma espécie de acepção de pessoas. Talvez a mais pertinente teologia que declare algo as

Da baixa adesão de algumas igrejas evangélicas às medidas de isolamento

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Sou pastor em uma igreja na zona leste de São Paulo há aproximadamente seis anos. Sou do tipo sinestésico, que gosta de abraçar e beijar todos os membros, adultos crianças, no início e no final do culto. No início de março, comecei a acompanhar, junto com a equipe pastoral, e com grande preocupação, os acontecimentos decorrentes do Novo Coronavírus.  No sábado, dia 07 de março, houve um evento na igreja, que já estava marcado faz muito tempo. Na verdade, era um ato de uma família da igreja que iria usar o espaço do templo. Orientamos as pessoas a manterem um mínimo de distanciamento e evitar cumprimentos muito próximos (algo muito difícil em nossa cultura).  Era só o começo. Já no dia oito de março, domingo, tínhamos mais notícias de contaminação. Havia poucas mortes divulgadas ainda.  Fizemos nosso culto normalmente. Mas foi esquisito não abraçar ninguém. Novas notícias surgiram no decorrer da semana. Foi decretado o isolamento em São Paulo. 

Fome de Deus - Frei Betto

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Terminei de ler por estes dias o livro "Fome de Deus", de Frei Betto. Possivelmente o nome do autor cause repúdio em alguns, por conta da intensa participação política deste em movimentos de esquerda. Talvez alguns possam achar que pelo fato de alguém se unir a determinada visão política, tenha perdido a espiritualidade. Mas não é o caso do nosso autor, pois esse livro tem um aspecto bastante devocional. Essa obra traz espiritualidade, tanto em seu aspecto vertical (sim, Frei Betto fala-nos em oração, e também em meditação), e também comunitário. A primeira parte do livro é mais devocional. Obviamente também ele não deixa de fazer reflexões sociológicas e filosóficas mais profundas na segunda parte do livro, em que faz ensaios acerca de "Deus e a modernidade". E na terceira parte, vai abordar um pouco a vida de alguns líderes espirituais, como Francisco, Maria Madalena, o apóstolo Paulo, João da Cruz e Tereza. Na quarta parte, sob o assu

Da extrema falta de serenidade necessária no momento presente

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Estamos vivendo a mais mortífera pandemia dos últimos  tempos, e infelizmente, enquanto sociedade, não estamos tendo a serenidade necessária para o momento. Em primeiro lugar, pelo próprio poder de contágio desta doença. Estamos vendo diariamente crescer o número de mortos e infectados. Além disso, há um grupo de pessoas insatisfeitas com as medidas de contenção realizadas por governadores e prefeitos. Há protestos, aglomerações, carreatas. Também há uma verdadeira batalha nas redes sociais. Enquanto isso, vemos hospitais lotados, sejam enfermarias, ou UTIs. Principalmente, nas localidades mais pobres de nosso país. Estamos vendo perplexos, por exemplo, as ocorrências em Manaus. Também estamos tendo que lidar com as crises econômicas decorrentes deste momento de contenção. Muitas pessoas perdendo seus empregos. Profissionais liberais passando por necessidades. Pequenos e médios empresários entrando em desespero. E, se não bastasse tudo isso, uma crise política de a