Da baixa adesão de algumas igrejas evangélicas às medidas de isolamento

Sou pastor em uma igreja na zona leste de São Paulo há aproximadamente seis anos.

Sou do tipo sinestésico, que gosta de abraçar e beijar todos os membros, adultos crianças, no início e no final do culto.

No início de março, comecei a acompanhar, junto com a equipe pastoral, e com grande preocupação, os acontecimentos decorrentes do Novo Coronavírus. 

No sábado, dia 07 de março, houve um evento na igreja, que já estava marcado faz muito tempo.

Na verdade, era um ato de uma família da igreja que iria usar o espaço do templo.

Orientamos as pessoas a manterem um mínimo de distanciamento e evitar cumprimentos muito próximos (algo muito difícil em nossa cultura). 

Era só o começo.

Já no dia oito de março, domingo, tínhamos mais notícias de contaminação. Havia poucas mortes divulgadas ainda. 

Fizemos nosso culto normalmente. Mas foi esquisito não abraçar ninguém.

Novas notícias surgiram no decorrer da semana.

Foi decretado o isolamento em São Paulo. 

Eu, juntamente com o conselho pastoral, e o assentimento, penso eu, unânime da igreja, interrompemos nossas reuniões presenciais.

Não foi fácil, pois somos uma comunidade bastante relacional.

Em 15 de março não havia ainda muitas mortes, mas as previsões eram complicadas e quase catastróficas.

Penso que São Paulo no início respondeu bem ao isolamento..

Porém, como sempre, tudo no Brasil vira briga.

Desde o início, houve uma narrativa e que era uma gripe fraca. Depois, que matava menos que o H1N1. Que no calor, não teria força. Que como a letalidade era baixa, o melhor era o isolamento vertical. Que havia falsidade na contagem dos números. Que medidas restritivas são uma agenda esquerdista.

E por aí foi.

Pastores parecem ter aderido a algumas destas narrativas.

Na verdade, boa parte do público evangélico aderiu.

Pastores e crentes que conheço usaram seu prestígio pessoal nas redes para falar contra o isolamento horizontal.

O resultado disso tudo?

Bem.

Igrejas na periferia de São Paulo, continuaram a funcionar, contrariando as medidas de isolamento.

Muitas certamente por precisarem sustentar seus obreiros, pagar suas contas.

Ou mesmo por uma tentativa de demonstração de fé.

Também é preciso entender que o povo evangélico, de modo geral, é bastante humilde do ponto de vista econômico e cultural, o que certamente influencia no comportamento, como ocorre com boa parte do nosso povo.

Mas desconfio que a adesão a uma narrativa que não levou tão a sério a pandemia também pode ter sido fundamental para tal estado de coisas.

Hoje, no dia em que escrevo este texto, já recebi inúmeras notícias de gente da igreja, mesmo ministros que se infectaram, e alguns que morreram.

Se no início de março, quando tudo começou, mal tínhamos dez mortes, hoje já passamos de seis mil, em um pouco mais de um mês.


Da baixa adesão de algumas igrejas evangélicas às medidas de isolamento

Comentários

  1. Ótimo texto mestre!
    Deus lhe dê cada dia mais sabedoria e graça.
    Abraço.

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