Demônico

...respondíamos diante desta situação a partir de certos conceitos básicos. O primeiro era o conceito de demônico. Nossa interpretação tratava das estruturas demônicas do mal nos indivíduos e grupos sociais. Quando empregamos pela primeira vez o conceito de demônico, por volta dos anos vinte, ninguém o conhecia a não ser em livros de história relacionados com superstições e crenças nos demônios. Empregamos o termo demônico para descrever as estruturas destruidoras em contraposição com os elementos criativos. Esse conceito se baseava na descrição pisciológica dos poderes compulsivos dos indivíduos, e na descrição sociológica segundo a análise marxista da sociedade burguesa... (Paul Tillich, in Perspectivas da Teologia Protestante nos Séculos XIX e XX).


Muito se discute nos seminários, e no dia a dia, sobre a existência ou não de seres demoníacos, de seres caídos.

Alguns até acham que, caso se chegue a conclusão na inexistência de tais seres diabólicos, acabou de vez a função prática da igreja.

Particularmente, eu não teria uma opinião tão pessimista assim. Eu, como um integrante de um certo protestantismo mais tradicional, obviamente acabo por aceitar a existência de tais seres; mas, ainda que não existissem, longe estaria de pensar que a função da igreja teria terminado caso se chegasse a tal conclusão.

Mesmo se entendêssemos que demônios, ou demônicos nada mais são do que compulsões psicológicas dos indivíduos, que, de repente, o tomam, tornando-se mais forte do que eles próprios, forçando-os a fazer justamente aquilo que racionalmente sabem que não deveriam, ainda assim, não terminou a função terapêutica da igreja.

Isto porque, o demônico nos indivíduos parece se manifestar justamente assim. Alguma compulsão o toma, fazendo com que de repente, "atropele" a tudo e a todos para realizar o seu próprio desejo. Se torna mentiroso, "foge da luz", manipula tudo para que ocorra segundo o seu querer e não se importa se a base criativa e existencial dos que estão a seu redor seja destruída. O diabo somente veio para roubar, matar e destruir. E quando se passa por uma experiência destas, tudo o que parece sobrar é um imenso e seco deserto, de onde se fugiu toda a esperança.

Acho que foi Evágrio Pôntico que tratou pela primeira, e talvez única, na antiguidade cristã, esta questão do demônio como categorias de pensamento, os famosos "logismoi", que precisavam ser combatidos e vencidos. Estes "logismoi" eram manifestações da paixão ("pathea") humana, sendo o alvo do cristão atingir o estado de "aphatea", qual seja, ausência de paixão, entendido paixão aqui em seu sentido clínico, de "pathos", que irá gerar o termo "patologia". A alma em estado de "aphateia" seria na verdade a ausência de patologia. Neste sentido somos muito devedores de uma teologia ortodoxa oriental, muito mais terapêutica e preocupada com a alma humana, do que a teologia romana e protestante, muito mais legalista, preocupada com o cumprimento da lei.

A paixão, ou "patheia", neste sentido, toma a vida de que por ela é possuído, tornando um "outro", um verdadeiro demônio. São compulsões em que o indivíduo não consegue se controlar ("gastrimargia", "filarguia", "pornea", "orge", ou seja, gula, avarez, obsessão sexual, entre outras coisas), fazendo com que sua compulsão tome conta de sua realidade, sendo esta, inclusive, abandonada por muitas vezes, em troca do ideal, qual seja, da tentação, que, quando atingida, não realiza nada daquilo que parecia cumprir. Evágrio chegou a dizer que o "diabolos" é aquele que divide o ser humano interiormente. É realmente muito triste quando alguém se deixou dominar por tais sentimentos, ou seja, está sob o "demônico", pois tende a entristecer por demais os que estão ao seu redor, além de semear coisas muito ruins para sua própria vida.

Em nível social, então, o "demônico" se torna extremamente destrutivo, um horror, uma terra realmente arrasada. Isto porque, o demônico, de fora para dentro, ou seja, de forma heterônoma, busca impor seu ser sobre todos os demais, não se importando o quanto isto destrua a estrutura dos próprios agentes sociais. Ele se impõe, e pronto. Os que não aceitarem, devem ser mortos, destruídos, afastados. O demônico não conquista pela graça, pela doçura do amor; mas pelo engodo, que quando descoberto, se impõe pelo foice e pelas espadas. A própria "ortodoxia", seja ela qual for, quando assim se impõe, destruindo a base criativa do ser, se coloca ao lado dos que crucificaram Cristo, que, para o período de então, seus algozes consideravam-se ortodoxos, e Jesus, herege! Daí, a ortodoxia da cada qual defende deve sempre ser acompanhada da ortopraxia, qual seja, a fé que opera pelo amor, caso não queiramos ser instrumento do demônico. Este estoura bombas, destrói vidas, impõe regras absurdas, sem se importar com a realidade existencial de suas vítimas. Provoca muita dor e tristeza. É um arraso social.

Por isso, meus amigos, ainda que se entenda o demônio somente em termos psicológicos, ainda assim há muito trabalho para a igreja, para os cristãos. Basta ver quanta coisa ruim o "demônico" fez e continua fazendo no mundo. Pelo serviço, e pelo amor, devemos exortar aos que nos ouvem a se salvarem desta geração perversa, mudando de atitude, para se colocarem ao lado dos que promovem a vida. A construção, e não a destruição do ser, a caridade e não o ódio. E se não conseguirmos converter o nosso ser a este ponto, talvez devamos fazer como alguns dos antigos padres que, se afastavam por um tempo, pois chegavam a conclusão de que o próprio mundo deveria, pelo menos por um tempo, ser poupado de sua própria presença por não terem nada bom a oferecer no momento. É um grande desafio fazer com que terminem, em nós, estes impulsos de morte que tendem a nos destruir e destruir os que estão ao nosso redor, seja por atitudes ativas, seja pelo nosso próprio parasitismo.


(publicado originalmente em 13/03/2009)


Meditando um pouco no conceito de mal em Tillich



Comentários

Mais visitadas do mês

Manaém, o colaço de Herodes

Aprendendo com os erros do Rei Amazias

Resenha da obra "Ego Transformado", de Tim Keller

Acolhei ao que é débil na fé - uma reflexão sobre romanos 14.1

Os discípulos ocultos de Jesus

E não endureçais os vossos corações (Hebreus 3.7-13)

O crente egoísta

A fé segundo Rubem Alves

Panorama do Novo Testamento: O Evangelho de João

Lidando com a traição e as injustiças da vida - o exemplo de José do Egito